Freud, em seu ensaio "Totem e Tabu" [1912], estabelece um paralelo entre as proibições do Tabu e aquelas dos neuróticos ob...

Encontro entre psicanálise, tabu e mito

mitologia psicanalise much
Freud, em seu ensaio "Totem e Tabu" [1912], estabelece um paralelo entre as proibições do Tabu e aquelas dos neuróticos obsessivos, remetendo à ambivalência inerente ao ser humano como explicação psicanalítica para a origem do Tabu, reverenciado e temido ao mesmo tempo. Por sua natureza sagrada, não pode ser tocado pelo homem, que se o fizer, contaminar-se-á, tornando-se maldito. Trata-se do interdito! No que diz respeito à ambivalência, trata-se da atitude do indivíduo quanto a um objeto, quanto à ação sobre ele. Ele quer sempre tocá-lo, mas também abomina essa ação. Existe o desejo, que é inconsciente,
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Munch, 1903
coexistente com a proibição, que é consciente, o que cria o sintoma gerador dos rituais próprios dos neuróticos obsessivos.

Quanto aos pontos de convergências entre Tabu e Neurose Obsessiva, Freud afirma:

A primeira e mais óbvia coincidência das proibições obsessivas (dos neuróticos) com o tabu está em que são igualmente desprovidas de motivação e enigmáticas em sua origem. Aparecem um belo dia e têm de ser observadas, devido a um medo invencível. É desnecessária uma ameaça de castigo externa, pois há uma certeza interna (uma consciência) de que a transgressão ocasionará uma intolerável desgraça. O máximo que um doente obsessivo pode comunicar é o vago pressentimento de que uma determinada pessoa de seu ambiente será prejudicada por tal transgressão.
FREUD, Sigmund. Totem e tabu, contribuição à história do movimento psicanalítico e outros textos [1912-1914]. Tradução de Paulo César de Souza. Obras completas, V. 11. São Paulo: Companhia das Letras, 2012

Tabu é o negativo do Mana, força espiritual que se espraia e se manifesta através de pessoas e coisas de caráter incomum. O Tabu, por sua vez, é a proibição ao homem comum de tocar o Mana. Não é sabido quando o Tabu surgiu, no entanto, ele está presente nos primitivos povos de culturas diversas, sob denominações diferentes. Mas é possível, no âmbito mitológico, pensar a sua origem a partir do estabelecimento de um paralelo com o Mito das Raças dos Homens, narrado, primeiramente, por Hesíodo, em Trabalhos e Dias, e retomado, posteriormente, por Ovídio, em Metamorfoses.

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Munch, 1911
A primeira delas é a Idade de Ouro, em que os homens mortais conviviam com os deuses, usufruindo de todas as benesses divinas. A primavera era eterna. Não havia a decrepitude do corpo. Não havia juízes nem leis, por não serem necessárias, pois os homens se satisfaziam com o que lhes era ofertado. Não havia a necessidade do trabalho, pois a terra tudo ofertava. Essa é a Era de Cronos. O seu filho Zeus, porém, substitui-o, passando-se, então, para a Idade de Prata, em que os homens são separados dos deuses, estabelecendo-se a linha divisória entre deuses e homens respeitante à sua ontologia. É quando surge o interdito, que podemos denominar Tabu, pois, a partir de então, os homens só podem se relacionar com os deuses através dos Rituais de Sacrifício,
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Munch, 1907
instituídos por Prometeu, condizendo com o sacrifício de um animal, dando aos deuses a parte que lhes cabe, a saber, o eflúvio dos ossos e gordura queimados, e que sobem até os deuses quando queimados. Por outro lado, a carne, que deve ser cozida ou assada, tem que ser ingerida pelos homens, provando, assim, a sua condição mortal. Nessa Idade, o homem está fadado ao trabalho, a cultivar a terra, a construir suas casas, a confeccionar suas roupas para se proteger das intempéries das estações, uma vez que a primavera não é mais eterna. É preciso reverenciar o sagrado, mas sem ousar tocá-lo, pois, sendo homem, não pode almejar igualar-se ao divino, correndo o risco de tornar-se impuro, maldito. Quanto às outras Raças, a de Bronze, a de Heróis, e a de Ferro, o Tabu perpassa por elas, mantendo o seu caráter de interdição, com exceção da Raça de Ferro, degenerada e ímpia.

Assim, fica estabelecida a origem mitológica do Tabu, com seu caráter concomitantemente Sagrado e Impuro, pertencente a uma instância “não humana”, mas, ao mesmo tempo, humano, pois determina a relação do homem, que se encontra no profano, com o sagrado, com os deuses que regem a sua vida.

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