Todos sabemos muito bem que, do que se veicula na internet, nem tudo se aproveita. Aleatoriamente, há alguns dias, passei o olho em ...

Canícula e Intuição

entusiasmo surpresa intuicao
Todos sabemos muito bem que, do que se veicula na internet, nem tudo se aproveita. Aleatoriamente, há alguns dias, passei o olho em duas postagens no Instagram, a primeira era uma aula de língua portuguesa; a segunda, uma utilização da etimologia, para fundamentar um argumento.

Nas aulas de língua portuguesa, pela internet, já tive a oportunidade de observar vários absurdos, dentre eles tecnicismos que não interessam a quem está fazendo segundo grau ou a quem vai prestar concurso que não seja para a área de língua ou de linguística.
entusiasmo surpresa intuicao
A. Umansky
O que vi recentemente, no entanto, me deixou de cabelos em pé. A aula era sobre o aumentativo. Havia, então, uma lista de palavras, cujos aumentativos se faziam, dizia-se, de maneira irregular, como se houvesse uma regularidade restringindo, a ferro e fogo, um processo derivacional, cuja variedade, comprovada em algumas das palavras abaixo, diz o contrário. Por outro lado, pareceu-me haver uma confusão deliberada entre o conhecimento da língua e a insistência em picuinhas gramatiqueiras. Vejamos a lista: rapaz, moça, boca, corpo, copo e calor...

Quem conduzia a aula ia colocando ao lado de cada palavra, o aumentativo correspondente:

rapazrapagão
moçamocetona
bocabocarra (há ainda bocona, boqueirão, bocaça e bocanha)
corpocorpanzil (há ainda corpaço e corpanzão)
copocopázio (há ainda copaço e coparrão)
calorcanícula (!!!!)
Os senhores estão lendo isto mesmo: o aumentativo do substantivo calor, veiculado nessa aula, foi canícula! É de sarapantar ou não é? Poderiam ter dito simplesmente calorão, calorzão ou calorama, duas delas abonadas pelos dicionários. Seriam formas tão aceitáveis quanto as demais das palavras aqui selecionadas. Mas canícula? Estão, certamente, confundindo aumento do calor – canícula – com aumentativo da palavra calor.

entusiasmo surpresa intuicao
L. Drew
Como o processo do aumentativo é não flexional, mas derivacional, distinção feita, há mais de 2000 anos, pelo gramático latino Varrão – deriuatio naturalis (flexão) e deriuatio uoluntaria (derivação) –, pode-se acrescentar ao radical do substantivo calor, que, por sua natureza oxítona, só tem radical, o que torna o processo ainda mais fácil, um sufixo que dê a ideia de aumento. Há vários deles, desde o mais simples -ão, aos mais exdrúxulos, conforme pudemos constatar acima. Trata-se, contudo, de um processo de derivação e a derivação admite vários sufixos ou prefixos, a depender do objetivo a ser alcançado.

entusiasmo surpresa intuicao
N. Dumlao
Na flexão, ao contrário, a variação é restrita. Muito restrita. Para o feminino, quando existe a oposição no masculino, acrescenta-se a desinência de gênero -a; para o plural, a desinência de número -s. Fugiu disso, é derivação, não mais flexão. As flexões verbais de número, pessoa, modo e tempo também se acham restritas a algumas desinências e não estão abertas a negociação, pelo menos nos próximos dois mil anos, quando poderá haver alguma supressão, jamais acréscimo...

Por uma questão da economia linguística existente entre o falante e o ouvinte, eu ficaria com o aumentativo em -ão, simplesmente, porque ele se encontra previsto no sistema da língua. Assim, teríamos:

rapazrapazão
moçamoção (convenhamos, uma cacofonia a menos, e a ambiguidade com o possível homônimo perfeito, moção, seria desfeita com o contexto)
bocabocão
corpocorpão
copocopão
calorcalorão
Haveria prejuízo para a língua? Não, não haveria. Seria uma simplificação, que já se encontra na boca do usuário, permitida pelo sistema linguístico, e que não exclui as demais formas, tendo em vista que a língua só se expande, não se retrai. Tudo o que entra no seu sistema permanece e poderá ser ou não utilizado ou reutilizado, a depender da necessidade dos usuários, necessidades que englobam o tempo, o lugar, a classe social e, claro, a famigerada Lei do Menor Esforço. Veja-se o exemplo do hebraico antigo, recuperado,
entusiasmo surpresa intuicao
K. Daniel, CC BY-SA 4.0
no século XX, tendo se tornado a língua oficial de Israel. O mesmo poderia ser feito, no Brasil, com o Tupi antigo, tendo em vista o grande número de documentos que existem dessa língua, desde o século XVI.

Canícula, no entanto, jamais poderá ser aumentativo de calor, pois no caso não se trataria de um processo de derivação, mas de uma heteromorfia, uma forma diferente que guarda com calor uma relação semântica, não uma relação morfológica. Para haver derivação, é necessário que o radical receba um sufixo, no caso do aumentativo, ou um prefixo, em outros casos. O que ocorre entre calor e canícula é uma troca de palavras, portanto, troca de radicais. Como já nos referimos, canícula diz respeito a um aumento do calor, quando da passagem aparente do sol pela constelação do Cão Maior, que tem em Sirius a sua estrela alfa, também chamada de o Grande Cão. No hemisfério norte, essa aparente confluência se dá durante o mês de agosto, quando o Sol está retornando de sua eclíptica, em direção ao sul, deixando o trópico de Câncer. No hemisfério sul, ocorre em fevereiro, quando o Sol está deixando o Trópico de Capricórnio, em direção ao norte. São os períodos mais quentes, em um e outro hemisfério, originando a expressão “Dia de Cão”, que derivou para outros sentidos, que não o de exprimir calor.

Na postagem do Instagram, que envolvia etimologia, procurou-se mostrar a explicação etimológica do termo intuição, com a significação de “ter Deus dentro de si”. A situação pareceu-me tão constrangedora quanto
entusiasmo surpresa intuicao
M. Mahdi
a anterior, porque aí se trata não de uma aula, mas de alguém que quer falar da força da essência divina e recorre à etimologia, sem ter qualquer conhecimento do que diz. Intuição vem de intuitio, intuitionis, cujo sentido está ligado à visão. O substantivo é derivado do verbo intuĕor, intuēri, significando “fixar o olhar sobre”, “olhar atentamente”, verbo, por sua vez, derivado do primitivo tuĕor, tuēri, “ter os olhos sobre, olhar, observar”. A intuição seria, portanto, “levar os olhos para olhar com atenção sobre algo”, cuja etimologia não é muito clara, mas pode ter uma aproximação com o verbo tumĕo, tumēre, “estar inflado, estar cheio”. É possível que daí tenha vindo o sentido que se empresta à intuição: algo que, de súbito, nos preenche e que nos leva a olhar com mais atenção para a luz que surgiu na nossa mente.

Se a raiz de intuição contivesse a palavra deus, o termo, mesmo em latim, não seria com /t/, seria com /th/, o que corresponde à letra grega θ (theta). Houve, decerto, uma confusão com a palavra entusiasmo, em grego ἐνθουσιασμός, cuja raiz -thu (θου) procede de theós (θεός), deus ou divindade, em língua grega, em que ἒνθους é uma forma variante do adjetivo ἒνθεος, “animado por um transporte divino ou inspirado pelos deuses”. Na língua portuguesa, a extinção da escrita etimológica, apagou o /h/ da palavra enthusiasmo. Em francês, língua em que a escrita etimológica permanece, a palavra é enthousiasme, tanto quanto em inglês enthousiasm, termo associado ao culto do deus Baco, cujos seguidores passavam por um processo de saída de si, denominado êxtase, para que o deus pudesse deles se apossar, o entusiasmo, como se pode ver na tragédia As Bacantes, de Eurípides.

entusiasmo surpresa intuicao
L. Joseph
Ernout e Meillet, em seu Dictionnaire étymologique de la langue latine (Paris, Klincksieck, 2001), diz que o sentido de “ver e observar”, ligado ao verbo tuĕor, é antigo e utilizado apenas na poesia; na prosa, o termo aparece mais com o sentido de “guardar” e “proteger”. De qualquer modo, há um sentido primitivo de um movimento para dentro, que se encontra na preposição in, quando rege o caso acusativo. Não há como negar que algo se movimenta para dentro do mais íntimo de nossa mente, quando a intuição nos apreende. E a depender do quanto ela se confirma, o calor da constatação será grande, um calorão, nunca, uma canícula.

COMENTE, VIA FACEBOOK
COMENTE, VIA GOOGLE

leia também