No último dia dois de fevereiro, a Livraria A União - Poeta Juca Pontes, no Espaço Cultural, foi cenário da Celebração das Letras — e...

Tirando O Pó das Sandálias: mais de cem anos depois, um livro de Pereira da Silva volta às prateleiras

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No último dia dois de fevereiro, a Livraria A União - Poeta Juca Pontes, no Espaço Cultural, foi cenário da Celebração das Letras — evento organizado pela Empresa Paraibana de Comunicação (EPC), em homenagem aos 133 anos do jornal A União e aos três anos da Livraria A União.

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Livaria A União (Poeta Juca Pontes), instalada no Espaço Cultural, em João Pessoa ▪ Instagram: @livrariaauniao
Na ocasião, foram lançados três livros: Alyrio em Sete, organizado por Delzymar Dias; Sarauzinho: A Poesia do Tempo, com poemas do Grêmio Literário Joaquim Inojosa; e O Pó das Sandálias, de Antônio Joaquim Pereira da Silva — o primeiro paraibano a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL).

No caso de Pereira da Silva, a noite revestiu-se de um caráter histórico. O Pó das Sandálias foi originalmente lançado há mais de cem anos, em 1923, pela Livraria Leite Ribeiro.
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Pereira da Silva (1876—1944), poeta e jornalista paraibano, natural de Araruna.
Até então, nenhuma outra obra do autor havia sido reeditada, o que certamente contribuiu para que ele caísse no esquecimento. A nova edição marca, ainda, o começo de uma série de iniciativas que visam homenagear Pereira da Silva no ano em que ele completaria 150 anos.

O título da obra remete a uma passagem bíblica, extraída do Evangelho de Lucas (IX, 5): “E se quaisquer vos não receberem, saindo vós daquela cidade, sacudi até o pó dos vossos pés… em testemunho contra eles”. A sentença, que é a epígrafe do livro, diz muito sobre o poeta e sua relação com seu Estado natal: muitos de nós, seus conterrâneos, mereceríamos ter lançado contra o rosto o pó das sandálias de Pereira da Silva.

Foram anos de negligência com a memória do poeta, que, felizmente, começaram a ser reparados a partir do trabalho de estudiosos e pesquisadores: o professor Humberto Fonseca de Lucena, com A. J. Pereira da Silva - Documento (1993); a professora Gilsa Andrade, com sua tese de doutorado Pereira da Silva no Campo Literário (2015); e o desembargador Rogério Fialho, com o livro O Esquecido Poeta Pereira da Silva (2023).

Humberto Fonseca de Lucena (1941–2024), autor do livro A. J. Pereira da Silva - Documento (1993)
No lançamento, o presidente da Academia Paraibana de Letras (APL), Ramalho Leite, declarou que, em 2023, adquiriu um exemplar de O Pó das Sandálias em um sebo do Rio Grande do Sul. À época, ele buscou reeditar a obra em parceria com o poeta e editor Juca Pontes. Contudo, com o falecimento precoce de Juca, o projeto acabou paralisado.

A reedição de O Pó das Sandálias pela Editora A União vem somar-se ao esforço de recuperação da trajetória de Pereira. A iniciativa da EPC, sob a presidência de Naná Garcez, é louvável. Ressalte-se ainda o trabalho primoroso de William Costa, diretor de Mídia Impressa da EPC, de Alexandre Macêdo, diretor da Editora A União, e de Nilton Tavares, à frente da Gráfica A União.


A recepção da crítica em 1923
O Pó das Sandálias foi o quinto dos sete livros publicados por Pereira da Silva. Antes dele vieram Vae Soli! (1903), Solitudes (1918) — considerado a sua magnum opus —, Beatitudes (1919) e Holocausto (1921). Anos depois viriam ainda Senhora da Melancolia (1928) e Alta Noite (1940).

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Capa da edição original de O Pó das Sandálias (1923). ▪ Fonte: Espaço Sebo
Quando O Pó das Sandálias foi lançado, Pereira da Silva já era um escritor reconhecido por seus inegáveis méritos literários — embora sua eleição para a ABL só tenha ocorrido dez anos mais tarde, em 1933, após três tentativas frustradas.

A consulta a jornais e revistas literárias da época permite conhecer a recepção da obra nos círculos intelectuais. O jornal carioca O Paiz, publicado em seis de outubro de 1923, trouxe uma crítica assinada pelo compositor, poeta, escritor e jornalista Orestes Barbosa. Ele se referiu a Pereira como “a maior figura viva de sua geração”, e prosseguiu sublinhando a qualidade literária do livro, como mostra o seguinte trecho:

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Orestes Barbosa, (1893—1966), compositor, jornalista, cronista, natural do Rio de Janeiro.
É um livro de meditação, cheio de perdões, em versos do mestre, pelo grande poeta que deu luz nova à poesia nacional. [...]

Com o “Pó das sandálias”, Pereira da Silva apareceu na ribalta para receber, mais uma vez, aplausos calorosos da grande platéia da Ópera. [...]
Nas palavras do crítico, com a publicação de O Pó das Sandálias, Pereira da Silva galgava, sem querer, “a glória que ele despreza sem orgulho”. Orestes definiu-o ainda como um “poeta-figura que, sendo verdadeiro, há de viver sempre isolado e quase incompreendido, porque os poetas, hoje mais do que nunca, são quase impossíveis nas populações”.

O Paiz ainda publicou outra crítica à obra, desta vez no dia 17 de outubro de 1923, com assinatura de J. M. Gomes Ribeiro, que disse:

O Pó das Sandálias, se não se embrenha ainda no sentimento filosófico da origem e do fim, traduz, com precisão e profundeza, o senso moral da vida, sua realidade triste, seu travo amargo, seu esplendor fugaz, sua duração efêmera.
Já o jornal paulista O Dia, publicado no dia cinco de fevereiro de 1924, trouxe uma crítica do escritor Peregrino Júnior, que, 22 anos depois,
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Peregrino Júnior (1898—1983), jornalista, médico e escritor potiguar, nascido em Natal.
sucederia Pereira da Silva na cadeira 18 da ABL. Assim se referiu Peregrino a O Pó das Sandálias:

[...] o último livro de Pereira da Silva, é o livro de um grande poeta. Pereira da Silva é uma das individualidades mais significativas que a contemporânea literatura brasileira possui. [...]

E o seu último livro — “Pó das Sandálias”, é um livro cheio de beleza e de dor, um livro comoventemente sincero. Há versos neste livro que, por si sós, consagrariam um poeta — um grande poeta [...].
Por fim, a revista carioca Fon Fon!, publicada em 12 de janeiro de 1924, trouxe o texto Dois Livros, de D. Xavier, que, num primeiro momento, analisa O Pó das Sandálias, dizendo:

[...] Pereira Da Silva, deu-nos O Pó das Sandálias, um livro de versos maravilhosos. É o mesmo joalheiro inconfundível de Beatitudes e Solitudes, em que a forma admirável dos seus versos ostenta aquelas mesmas vestes, de ouro e esmeraldas, a simbolizar a amargura eterna de sua alma de monge, que uma paixão ou um amor parece ter marcado ferreamente.
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Anúncio de lançamento do livro de Pereira da Silva ▪ Fonte: BN
Neles vê-se, nitidamente, a história de sua longa peregrinação, por uma Jerusalém sem fim, carregando a ombros o pesado lenho de um grande e doce sofrimento. [...]
O Pó das Sandálias, embora não seja considerada a obra prima do poeta, mostra sua maturidade como escritor, e foi bem recebida pelos círculos literários da época, como resta claro nas críticas acima. Pereira consolidava sua imagem de poeta místico, mas não “carola”, melancólico, mas não acabrunhado, e consagrava-se como um dos grandes escritores e intelectuais do seu tempo.

Nesse caso, felizmente, Pereira não sacudiu a poeira das sandálias em testemunho contra os críticos, mas foi bem recebido por eles, embora continuasse batendo às portas da Casa de Machado de Assis por mais uma década.


O poeta revisitado, hoje
Não faz muito tempo que publiquei aqui mesmo no ALCR o texto Biu Ramos e A. J. Pereira da Silva: dois escritores vítimas de racismo. Nele, contei que fui apresentado a Pereira através do coordenador de Cultura de Araruna, Wellington Rafael, nos idos de 2023 — justamente quando
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ALCR
O Pó das Sandálias completava cem anos.

Wellington também foi responsável por me apresentar ao saudoso professor Humberto Fonseca de Lucena, conterrâneo e biógrafo do poeta. A ele devo ainda o encontro com Rodrigo Vinícius da Silva, grande admirador da poesia de Pereira da Silva.

Rodrigo é poeta, professor e caminha para se tornar historiador. Segundo ele, à época da publicação de O Pó das Sandálias, Pereira da Silva contava 46 anos e já era um autor consagrado pela crítica, além de jornalista importante e respeitado. Atuava então como diretor da revista O Mundo Literário, mensário de literatura brasileira e estrangeira capitaneado pela Livraria Leite Ribeiro — editora que publicou O Pó das Sandálias. Pereira esteve à frente da revista por quatro anos, desde sua fundação, em 1922, até 1926.

Na vida pessoal, já era pai e encontrava-se separado de sua primeira esposa. Paralelamente, colaborava com diversos jornais e revistas literárias da época.

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Rodrigo Vinícius da Silva, professor e poeta. ▪ Acervo: Amanda de Assis
A meu pedido, Rodrigo também deixou sua leitura crítica de O Pó das Sandálias:

O lugar de O Pó das Sandálias na obra de Pereira da Silva possui um duplo sentido: por um lado, é uma excelente porta de entrada para o universo do poeta; por outro, um ponto de encontro e maturação, no qual se revelam os sinais de uma longa jornada poética. Vemos ali suas pegadas na areia — o pó de suas sandálias denuncia a trajetória de sua vida.

Todos os astros de sua galáxia particular parecem gravitar como pó de estrelas numa imensidão. O poeta move-se por força de sua interioridade — solidão, espiritualidade, natureza, a poesia como caminho de transcendência — e deixa entrever sinais sísmicos de uma grande alma que anseia comunicar a linguagem dos mistérios.

O Pó das Sandálias, Vozes e Visões, Cismas e Sombras: cada camada da obra se revela como paisagem de uma jornada. O poeta exorta, prepara e anuncia; as vozes intangíveis e as sombras visionárias ganham forma. Seu simbolismo traduz os movimentos sutis da alma diante do abismo do ser — ao mesmo tempo aterrador e iluminado.
Pereira da Silva dedicou O Pó das Sandálias ao poeta, jornalista e político piauiense Félix Pacheco, ocupante da cadeira nº 16 da ABL. Pacheco construiu uma sólida carreira na política, exercendo mandato de deputado federal pelo Piauí por quatro legislaturas, entre os anos de 1909 e 1920. Em 1921 foi eleito senador e, no ano seguinte, ocupou o cargo de ministro das Relações Exteriores no governo de Arthur Bernardes.

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Félix Pacheco (1879—1935), jornalista, político, poeta e tradutor piauiense, natural de Teresina. ▪ Fonte: Wikimedia
Segundo Rodrigo Vinícius da Silva, a homenagem prestada por Pereira da Silva a Félix Pacheco se deveu menos à sua trajetória política do que às suas qualidades literárias:

A meu ver, a prerrogativa da homenagem prestado por Pereira da Silva repousa sobre dois fatos: a vida poética e jornalística de Félix Pacheco, e sobretudo, seu apurado conhecimento da obra de Charles Baudelaire – o gênio iniciador do Simbolismo na França. Eminente tradutor e estudioso da obra de Baudelaire, Félix Pacheco franqueou o acesso ao gênio. É preciso dizer que Pereira da Silva considerava Baudelaire um de seus Mestres na arte poética. A homenagem é o reconhecimento sobre a envergadura do homem, do poeta, do jornalista Félix Pacheco.
Rodrigo também teceu considerações sobre a capa da nova edição de O Pó das Sandálias. Com ilustração de Matheus da Fonseca e arte de Naudimilson Ricarte,
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a capa propõe uma releitura da edição original:

O traço busca emular o trajeto do personagem — poeta, monge, um senhor de cabelos brancos e barba branca — rumo ao horizonte. Os tons de azul e cinza, as sandálias em tom laranja, criam um contraste onde o foco são os pés do homem. Ao mesmo tempo, os tons de azul e cinza denunciam uma atmosfera psicológica em tons crepusculares. Para onde vai este homem? De onde vem?
O crítico observa que o maior contraste entre a capa original e a da reedição reside na perspectiva adotada:

O maior contraste entre a capa original e a capa da reedição está na perspectiva. Na capa original vemos um senhor descendo e se afastando do burburinho da cidade. As margens são massas de tinta preta. Ao fundo podemos reconhecer uma arquitetura que tenta emular as construções antigas de Jerusalém, com pedras calcárias, e o estreito caminho por onde desce o homem. A citação ao trecho bíblico em formato de pergaminho na capa nos revela a síntese com a imagem, dialogando de forma profunda e revelando a atmosfera, onde o homem abandona a cidade, cabisbaixo e soturno.
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Detalhe da capa da reedição de O Pó das Sandálias, com ilustração de Matheus da Fonseca e arte de Naudimilson Ricarte. ▪ A União
Por fim, Rodrigo enalteceu a iniciativa da Editora A União em relançar O Pó das Sandálias:

Carecia, há muito tempo, de a obra do poeta voltar a circular, e o relançamento feito pela Editora A União, de O Pó das Sandálias, é um feito de grandeza histórica, que em tempo oportuno será reconhecido pela posteridade. Há mais de cem anos a obra estava esgotada, sendo de difícil acesso, e neste ano, quando da celebração dos 150 anos do nascimento do primeiro paraibano na Academia Brasileira de Letras, fez-se o primeiro passo para que a obra deste imortal volte a iluminar a mente e o coração dos leitores.
Segundo levantamento feito por Rogério Fialho, não há nenhum exemplar das obras de Pereira da Silva na biblioteca da APL, na Fundação Casa de José Américo (FCJA), no Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba (IHG-PB), na Biblioteca Pública do Estado e na Biblioteca Central da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Já a Biblioteca de Livros Raros Átila Almeida, da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), em Campina Grande, dispõe de praticamente toda a produção do autor, com exceção de Vae Soli!

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Biblioteca de Livros Raros Átila Almeida, em Campina Grande. ▪ Imagem: UEPB
A reedição de O Pó das Sandálias vem, assim, suprir uma lacuna histórica em bibliotecas públicas e privadas. A partir de agora, leitores e pesquisadores poderão conhecer mais de perto a poesia do nosso primeiro imortal.

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  1. Anônimo8/2/26 06:46

    Texto oportuno que resgata e divulga um grande paraibano injustamente pouco lembrado. Parabéns, Samuel. Francisco Gil Messias.

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  2. Samuel Amaral8/2/26 12:18

    Obrigado, Gil Messias!

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  3. Samuel,

    Não pude comparecer ao lançamento histórico de A União. Mais que a alegria de ver Pereira da Silva reeditado, dominou-me a tristeza de que meu amigo-irmão, Humberto Fonseca de Lucena, não estivesse mais aqui para integrar essa festa. Ele, o guardador da memória do poeta conterrâneo, seu primeiro biógrafo, depois de uma pesquisa de amor e devoção, ainda sem os recursos tecnológicos atuais.

    Na década de 80, Humberto já divulgava Pereira da Silva por meio do Correio das Artes. E, se as diversas bibliotecas públicas não dispunham da obra do poeta de Araruna, ela estava completa na estante de meu amigo, inclusive com o livro recentemente lançado. Essa era a riqueza de que se vangloriava: “somente eu tenho”, explicava feliz.

    Eu o admirava por essa dedicação rara, somada a muitos predicados de primeira grandeza que caracterizavam meu querido Humberto.

    Em 1993, a Coleção Documento editou a biografia de nosso primeiro imortal da ABL. Fez justiça ao importante trabalho intelectual de Humberto, permitindo que a Paraíba admirasse os dois: o biógrafo e o biografado.

    Tive a honra de escrever o prefácio.

    Estava a memória do poeta restaurada: extensos dados biográficos, seleção de pensamentos e poemas, memória fotográfica e a repercussão da posse na ABL. A bibliografia completa, uma alentada bibliografia crítica, oferecendo fontes precisas aos dicionários e histórias da literatura, aos estudiosos e futuros pesquisadores, além de importantes reflexões sobre os fenômenos da aceitação, permanência e esquecimento da obra de arte.

    Humberto foi pioneiro e continua essencial. Encantado com o trabalho dele, Ascendino Leite escreveu um texto admirável, O poeta das solitudes, no livro Surpresas na Partida, de 1999. Talvez pouco conhecido, mas que precisa constar em qualquer estudo ou fortuna crítica de Pereira da Silva.

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