Gosto da espontaneidade e da alegria dos blocos carnavalescos. Para sair neles, ninguém precisa usar fantasias caras nem obedecer a rigorosos esquemas coreográficos. Blocos como o “Cordão da Bola Preta” ou o “Galo da Madrugada” (para citar dois dos mais famosos) mostram que a coreografia é um “empurra-empurra” balanceado ao qual se associa o coro de marchinhas que atravessam gerações.
Foto: Marius.Hu
Mais do que as escolas de samba, nas quais imperam o luxo e a disputa para saber qual a melhor, os blocos testemunham a essência do Carnaval. Enquanto as escolas se tornaram espetáculos visuais hierarquizados, cronometrados e voltados ao consumo da mídia, os blocos preservam muito do grotesco e da “vida fora dos trilhos” de que fala Bakhtin.
Para o filósofo russo, “o Carnaval não conhece fronteiras entre atores e espectadores... Não se contempla, nem mesmo se representa. Vive-se nele, e vivem todos, porque pela sua essência ele é o povo todo”. Isso é bem mais percebido nos blocos, em que se brinca de fato, sem a preocupação de impressionar a assistência. Neles é possível abdicar da seriedade que marca o nosso desempenho no comum dos dias, presos aos papéis que a sociedade nos atribui. Neles se percebe o genuíno espírito de inversão que caracteriza a festa.
Fonte: Prefeitura de Olinda
O bloco é lírico e moleque. Tem as duas marcas essenciais do Carnaval, que é poético em sua indisfarçada nostalgia e brincalhão no seu impulso de zombar do que se pretende sério. Há os excessos, que muitas vezes são fruto da maldade; cada um bota pra fora o que tem, e existem aqueles cujo interior cheira a enxofre. Mas desses o pessoal aprende a se esquivar – ou chama a polícia.
Foto: RioTur
Isso, no entanto, não reduziu a atração que eu sentia pelos blocos. O motivo desse temeroso fascínio, que na ocasião eu apenas intuía, veio com mais clareza depois; era a percepção de que sob a máscara podia estar um “outro” mais terrível do que o animal ou monstro que ela estampava.










