Há um aquário dentro de meu peito. É uma caixa de vidro invisível onde as emoções nadam como peixes de cores e tamanhos diversos. Alg...

Regulação emocional

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Há um aquário dentro de meu peito. É uma caixa de vidro invisível onde as emoções nadam como peixes de cores e tamanhos diversos. Alguns pequenos e ágeis, prateados como a alegria de uma manhã de sol depois da chuva. Outros são lentos, escuros, quase como enguias que se escondem nas pedras, como a mágoa que insiste em não desgrudar do fundo.

Hoje pela manhã, acordei com um peixe-elétrico no aquário. Era a ansiedade, nadando em círculos rápidos, fazendo as plantas do equilíbrio balançarem como se um tremor as atingisse.
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Arte: G. W. Dijsselhof, S.XX
No café, quase derrubei a xícara. As mãos pareciam pertencer a outra pessoa. O peixe-elétrico soltava descargas: “Você esqueceu de responder aquele e-mail importante”, “E se a reunião das dez der errado?”, “O mundo é um lugar perigoso e você não está preparado”.

Antigamente, eu teria jogado mais comida no aquário. Comida envenenada: rodadas de pensamentos catastróficos e repetições mentais, como uma tempestade que turva a água completamente. Ou então, tentaria pescar o peixe-elétrico à força, com as mãos nuas, só para levar um choque mais forte e assustar todos os outros peixes.

Mas o tempo me ensinou a respirar antes de agir. Parei diante da janela e observei o vaso de espada-de-são-jorge sobre a mesa. Inspirei fundo, como se pudesse oxigenar a água do aquário por dentro. Nosso centro emocional não se trata de matar o peixe-elétrico, mas sim me alertar e manter vivo.

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Arte: G. W. Dijsselhof, S.XX ▪ Museum Boijmans Van Beuningen, Roterdã
Essa "Regulação emocional" não é uma guerra, é jardinagem subaquática. É cuidar para que o peixe da raiva não cresça tanto que engula o peixinho da serenidade. É não alimentar em excesso o dragão-marinho da autocrítica, que adora devorar os coloridos cardumes da autoestima.

Ao longo do dia, usei as ferramentas simples do regente de aquários:A rede da pausa: O filtro da perspectiva, e as pedras do ritual.

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Arte: G. W. Dijsselhof, S.XX
Não somos donos das emoções que nascem em nós. Elas surgem como peixes num viveiro. Somos responsáveis pela qualidade da água, pelo equilíbrio do ecossistema interior. Às vezes, um peixe triste precisa nadar até o fim. Ao final do dia, o aquário não está cristalino, porque a vida não é assim. Mas a água está mais translúcida e por isso consigo ver o fundo, minhas convicções, meus valores, as pedras fundamentais.

O peixe-elétrico ainda está lá, mas agora ele nada mais devagar, sem descargas. Ao lado dele dança o peixe-dourado da gratidão, e assim aprendemos que a regulação emocional não é sobre controle rígido. É sobre criar um habitat onde todos os peixes, até os mais escuros e pontiagudos, possam coexistir sem envenenar a água. É a arte sutil de ser, ao mesmo tempo, o aquário, o peixe e o cuidador. E seguir nadando, mesmo quando a água parece escura, sabendo que as marés internas também mudam. Basta respirar, esperar e cuidar.

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