Outro dia passei um longo período da tarde procurando uma caderneta antiga com anotações feitas não sei quando, mas que considerava úteis para a composição de um texto que haviam me pedido. Não sei se era um texto publicitário ou uma nota de recordações literárias. Lembrava que a cadernetinha tinha a capa preta, plastificada; deveria estar bem surrada devido ao tanto tempo guardada. Nem com essa identificação conseguia avistá-la por entre as pilhas de papéis e livros desarrumados nas prateleiras da biblioteca.
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Sabia que as anotações sobre leituras antigas estavam em uma caderneta preta. Esse material me ajudaria na composição do texto solicitado. Escrever exige guardar documentos, anotações avulsas, mesmo que aparentemente não sirvam para nada.
Como tenho duas netas que se autonomearam secretárias, o que aceitei com ardente alegria, às vezes, nas minhas aflições de avô desligado, como dizem, recorro a elas. Lembram do salário mensal quando atraso repassar o numerário.
Certa noite, uma delas, retornando da escola e sabendo de minha aflição, logo me aconselhou:
— Vô, esqueça o que está procurando. Logo a caderneta aparece.
— Como esquecer, menina, se preciso urgentemente dessas anotações?
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— Vô, é assim. As coisas se escondem quando mais precisamos.
— Como se escondem, menina, se não têm pé!
— O senhor é que pensa. Objetos têm pés e mãos, sim, senhor! Só que são invisíveis. Sendo invisíveis, nunca avistamos nem pegamos.
— Pronto. Não sabia disso.
— Quando os objetos que estão escondidos pensam que não mais precisamos deles, então resolvem aparecer.
— Vou acreditar na sua teoria.
— Coisa infalível.
Concordei.
Saímos da biblioteca, esse privilegiado espaço de quatro metros quadrados, com estantes nas paredes apinhadas de livros que formam um mundo à parte, onde pastas são guardadas com recortes de jornais velhos e revistas contendo textos e entrevistas de autores de minha predileção.
Sempre tive a mania de guardar meus textos e recortes de jornais. Coisa de que a mulher reclama, mas aceita com paciência. Os netos ficam admirados quando se deparam com alguma reportagem ou fotografia antiga que guardo com desvelo.
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No dia seguinte ao diálogo com a neta-secretária, retomei a busca pela caderneta. Na primeira caixa de papelão que afastei, inesperadamente encontrei o objeto que procurava por detrás da fileira de livros. Estava socada atrás de uns livros antigos, pouco consultados. Na ânsia de tê-la às mãos, vasculhava os recantos prováveis de encontrá-la e não obtinha êxito.
Estava sem assunto palpável para a crônica, apesar das ideias vagando, turbinadas pelos acontecimentos climáticos, quando chegou o pedido para escrever sobre a poesia de certo poeta paraibano que nos fez universal.
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Ainda mais porque tudo ocorreu em um dia de sábado, quando geralmente arrumamos os objetos acumulados na biblioteca.
Depois desse drama para encontrar uma caderneta com preciosas anotações, tomei mais cuidado ao guardar meus instrumentos de trabalho.
Quando residia no sítio, escutava muitas pessoas comentarem que é interessante rezar para as almas quando se deseja encontrar algum objeto que desapareceu — até mesmo animais e pequenas crianças que se perdiam pelo mato.
Lá no sítio onde nasci, presenciei muitos desses momentos e, depois da reza, quando menos se esperava, o objeto procurado ou que havia desaparecido surgia diante de nossos olhos.











