“Salve, tu, Nilo! Que te manifestas nesta terra E vens dar vida ao Egito! Misteriosa é a tua saída das trevas Neste dia em que é c...

Navegando pela eternidade: Rio Nilo, a dádiva do Egito

nilo egito cairo
“Salve, tu, Nilo! Que te manifestas nesta terra
E vens dar vida ao Egito!
Misteriosa é a tua saída das trevas
Neste dia em que é celebrada!
Tu crias o trigo, fazes nascer o grão,
Garantindo a prosperidade aos templos.”
Extraído de: Livros sagrados e literatura primitiva oriental, Tomo II. In: Coletânea de Documentos Históricos para o 1º grau. São Paulo, CENP/Sec. de Est. da Educação, 1978, p. 55. Domínio Público
No coração do Antigo Egito, o rio Nilo (Nahr an-Nil*) era muito mais do que uma fonte de água, era a principal artéria de vida, comércio e transporte da civilização.
* O nome do rio provirá do árabe ‘nil que, por sua vez, terá sido herdado do grego Neilos ou da raíz semítica Nahal, que significa “vale” ou “vale de um rio”.
Sua longa extensão, cortando o deserto de sul a norte, proporcionava uma via natural de deslocamento e ligação entre as diferentes regiões do país. As cidades floresciam às suas margens, aproveitando os benefícios que as suas águas ofereciam.

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Rio Nilo ▪ Arte: Hermann David Salomon Corrodi, 1905 ▪ Col. particular
O Nilo servia como a principal rota de transporte, permitindo que os barcos navegassem com facilidade entre os centros urbanos, os numerosos templos e as áreas agrícolas. Os ventos constantes ajudavam as embarcações a subir o rio com velas, enquanto a correnteza facilitava a viagem rumo ao delta. Isso tornava o deslocamento muito mais eficiente do que por terra, no meio do deserto.

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Bulak, às margens do Nilo ▪ Arte: Robert George Talbot Kelly, 1880 ▪ Col. particular
O rio não só servia para aportar água e fertilizantes aos campos de cultivo. Todo ele era uma fonte inesgotável de recursos. Rico em nutrientes, devido aos grandes depósitos de lodo e sedimentos que deixa para trás, ao desaguar no mar, em suas águas pescavam-se, com cana, cestas e redes de arrasto, peixes-tigre (com os seus dentes afiados), percas e outras espécies comestíveis (inclusivamente montaram-se zonas para piscicultura de carpas aproveitando-se os estanques dos jardins).

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Philae, Egito ▪ Arte: Edward Lear, 1863 ▪ Yale Center for British Art, EUA
Em suas margens crescia o papiro selvagem, matéria prima para a indústria de papel e naval. Sobre os seus céus voavam bandos de aves migratórias que os egípcios, escondidos entre o mato, capturavam com redes. As principais colheitas eram tipo cereais: escanda para fazer pão e cevada para fabricar cerveja. O trigo foi introduzido no período greco-romano. Também se davam legumes, como lentilhas, grão-de-bico; hortaliças como alfaces e cebolas; frutos, especialmente tâmaras; leguminosas como o feijão; linho, e certa quantidade de forragens para os animais e plantas das quais se obtinha azeite, como o sésamo.

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Lótus do Egito ou Lírio do Nilo (Nymphaea lotus), planta aquática nativa do nordeste da África, tornou-se símbolo de renascimento no Egito antigo. ▪ Foto: M. Bloem
Também nascia e florescia a flor do lótus, símbolo sagrado representativo do Egito. De resto, o mesmo rio, visto do céu, parece-se com uma flor do delta, verde sobre um fundo amarelo, que é a areia do deserto, sobre o larguíssimo e fino caule do vale do Nilo, e portando na extremidade do caule (ou pedúnculo), um pouco antes de chegar ao cálice (ou pétalas), na margem ocidental do rio, numa pequena “folha”, repousa Fayyum, o maior oásis do Egito.

Além disso, o Nilo era essencial para o comércio. Cereais, ouro da Núbia, tecidos, cerâmicas e até bens exóticos trazidos de terras distantes circulavam por aquelas correntes, conectando o Egito a outras civilizações do Mediterrâneo e do Oriente, não somente movimentando mercadorias, mas também transacionando ideias, práticas religiosas e influências culturais.

No topo da cadeia alimentar das suas águas predominava o maior predador africano de água doce: o crocodilo-do-nilo, ou Crocodylus niloticus. Mesmo se o tamanho do maior crocodilo-do-nilo chega hoje apenas à metade dos 12 metros de comprimento que teria o Sarcosuchus imperator do período Cretáceo, este réptil de mandíbulas poderosas e dentes cónicos e pontiagudos, continua a impor respeito. O seu cardápio alimentar inclui peixes, mamíferos, aves e até outros répteis, consumindo também animais mortos, como gnus e outros, que podem contaminar as águas, podendo ainda ficar até quase um ano sem se alimentar.

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Crocodilus niloticus, o crocodilo-do-Nilo, acompanhado de aves-do-crocodilo (Pluvianus aegyptius), em ilustração da obra Zoology of Egypt (1898), de John Anderson e colaboradores, publicada em Londres por B. Quaritch. A ilustração integra o acervo da Ernst Mayr Library, do Museum of Comparative Zoology da Universidade Harvard.
Uma curiosidade é a relação mutualística que os crocodilos-do-Nilo possuem com as aves-do-crocodilo (nomeadamente o pilrito-do-egito), cuja lenda diz que se alimentam dos restos de carne das presas que ficam entre os dentes do crocodilo, ao mesmo tempo que o ajudam a prevenir o surgimento de infecções na boca.

Um dos mais extensos do mundo e considerado o pai dos rios africanos, o Nilo nasce a sul do Equador e flui para norte através do nordeste africano. Possui cerca de 6.853 quilómetros de comprimento e drena uma área estimada de 3.349.000 quilómetros quadrados.
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Mapa ilustrado do percurso do rio Nilo desde o Lago Vitória até o delta no Mar Mediterrâneo. O traçado evidencia os dois grandes afluentes — Nilo Branco e Nilo Azul — e as principais cidades ao longo do caminho, revelando a sua extensão continental.
Atravessa (ou sua bacia hidrográfica abrange) onze países, designadamente o Uganda, Tanzânia, Ruanda, Burundi, Quénia, República Democrática do Congo, Etiópia, Eritreia, Sudão do Sul, Sudão e Egito, desde suas nascentes no interior do continente até desaguar no Mar Mediterrâneo.

Hoje, o sistema do Rio Nilo está ameaçado pela poluição, que prejudica os peixes e outros animais selvagens que vivem no seu ambiente aquático, impactando também as pessoas que dependem do Nilo para obter água potável e irrigar as suas plantações. Com tantos países compartilhando e dependendo deste recurso hídrico interconectado que é a bacia do Rio Nilo, é essencial que cooperem em relação ao seu uso. Reflexo dos tempos atuais, à medida que a população do país aumenta (estimativas recentes apontam para cerca de 107 a 116 milhões de pessoas), especialistas afirmam que a demanda por água no Egito poderá em breve ultrapassar a oferta. As Nações Unidas preveem inclusivamente que o Egito poderá começar já este ano a enfrentar uma séria crise hídrica. Devido a esse aumento populacional, alguns moradores do Cairo recorrem a lanchas rápidas particulares, táxis aquáticos ou a balsas para circular e evitar as ruas lotadas da capital.
 
“A vida no Egito é o Nilo: sem o Nilo, o Egito seria apenas a continuação do Deserto Líbico, até ao Mar Vermelho. Assim, é o país mais fecundo que ao homem foi dado semear.”
Eça de Queirós; trecho do livro O Egito - Notas de Viagem; 5ª ed.; Lello & Irmão Editores ▪ Porto, 1946
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Luar no Nilo ▪ Arte: Robert George Talbot Kelly, 1880 ▪ Col. particular
Do ponto de vista simbólico, o Nilo terrestre imita o trajeto do Nilo Celeste ou da Via Láctea. Para o Egito é o eixo absoluto, a rota por excelência. Procede desde o “começo do mundo”, em função do qual nos orientamos para Sul. Qualquer que seja a direção real que se tome, o seu curso é o meridiano que separa o Este do Oeste. Quando em Junho ocorria a primeira inundação, Sirius, a estrela mais brilhante do firmamento meridional, aparecia sobre o horizonte. Os egípcios diziam que o Nilo crescia devido às lágrimas que Ísis derramava por Osíris.

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O rio Nilo, em trecho próximo à cidade de Assuão (Assuã), no sul do Egito. ▪ Imagem: Alchemica, via Wikimedia
A mitologia egípcia dava, de facto, várias explicações a estas intempéries. Uma delas, muito difundida na região montanhosa de Gebel el-Silsila (“Montanha da Corrente”), local também conhecido como Khenu (“lugar de remar”) - entre Edfu e Kom Ombo, famosa por suas antigas pedreiras de arenito que forneceram material para muitos templos egípcios, sendo um local crucial para construção e transporte de pedra no Nilo devido à sua localização estratégica -, atribuía ao deus Hapi o papel principal: esta divindade viveria numa caverna à volta das cascatas do Rio Nilo juntamente com um harém de deusas rãs. E dela emergia todos os anos para provocar a subida das águas. A outra teoria aponta para a deusa Ísis que provocavam o dilúvio anual. Esta inundação, considerada divina, era celebrada com uma festa religiosa a 15 de agosto (chamada de Wafa’ el-nil, isto é, “Festival da Inundação do Nilo”), que se prolongava por várias semanas.

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Cenas que evocam as celebrações egípcias pelas cheias do Rio Nilo, fenómeno aguardado e reverenciado há milênios. Muito antes da era cristã, as inundações anuais eram recebidas com festas, oferendas e rituais, pois delas dependiam a fertilidade da terra.
Para além deste mito e da comemoração do dilúvio, pode dizer-se que este fenómeno influenciou a visão do mundo dos egípcios e, em particular, a sua explicação da origem do universo (as cosmogonias) de acordo com as diferentes teorias, mormente:

▪ A Heliopolitana - um dos principais mitos da criação do mundo no Antigo Egito, centrada na cidade de Heliópolis, também conhecida como Iunu, e no deus-sol Atum ou Rá, que descreve a origem do universo e dos deuses através da Enéade, um grupo de nove divindades (Atum, Shu, Tefnut, Geb, Nut, Osíris, Ísis, Set e Néftis);

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Heliópolis, no Egito, em gravura publicada em 1841 no oitavo volume de Meyer’s Universum, editado pelo Bibliographisches Institut, de Hildburghausen. A cena destaca o antigo obelisco — remanescente do grande centro solar dedicado a Rá — erguendo-se sobre a paisagem às margens do Nilo.
▪ A Hermopolita - que se refere à cosmogonia desenvolvida no centro de culto de Hermópolis, conhecida pelos antigos egípcios como Khemenu, que significa “Cidade dos Oito”, e cuja teoria, também chamada de cosmogonia da Ogdóade, explica a criação do mundo a partir de oito divindades primordiais (Nun, Naunet, Heh, Hehet, Kek, Kauket, Amón e Amunet).

▪ A Mênfita - de uma antiga cosmogonia egípcia que descreve a criação do mundo e a origem dos deuses, centrada na cidade de Memphis (a grandiosa primeira capital do Antigo Egito) e no seu principal deus, Ptah.

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Memphis, antiga capital do Egito, em uma reconstituição imaginada: templos monumentais guardados por colossos, obeliscos erguendo-se ao céu claro e o Nilo movimentado por embarcações de vela e remos.
De acordo com estas teorias, a origem de tudo estava, de uma forma ou de outra, nas águas primordiais das quais emergiam os deuses criadores, diferentes segundo uma ou outra tese. Essas águas poderiam ser inspiradas no próprio leito do rio Nilo que, na sua retirada, fez emergir ou germinar os restantes elementos. Segundo as tradições, todo o mistério Egípcio reside neste lugar, onde se celebravam os rituais de morte e ressurreição, e onde continua a dormir a múmia de Osíris. O rio leva-nos suavemente até ao Cairo, atual capital do Egito e onde um pouco a Sul, encontrava-se o centro administrativo e religiosos do Baixo Egito, Memphis, fundada por Menés (Narmer) e hoje desaparecida por completo. O seu porto e as suas oficinas tiveram um importante papel no comércio com o exterior. Ao seu redor encontram-se os monumentos mais famosos da antiguidade: as pirâmides de Quéops (Khufu),
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Estátua em quartzito de Hapi, deus do Nilo (c.920 a.C.), proveniente de Karnak e hoje incorporada ao acervo do Museu Britânico. A figura une traços masculinos e femininos — ventre saliente e seios fartos — como símbolo da fertilidade e da abundância trazida pelas cheias do rio.
Quéfren (Khafre) e Miquerinos (Menkaure) e a Esfinge (Abu al-Haul).

Toda a terra do Egito estava coberta de templos que se encontravam nas margens do Nilo e cada cidade honrava particularmente uma divindade e o Nilo era o unificador de todos eles. No mito osiriano, o Nilo é que transportava o sarcófago de Osíris, que se detinha em Byblos. O Boi Ápis nasceu de um raio de fogo que caiu sobre as suas águas, e Thoth fez o primeiro homem com barro do rio sagrado, sobre um torno de oleiro. Hapi, espírito do Nilo, é verde e azul como as suas águas e tem aspecto de barqueiro ou pescador. O seu ventre avultado parecia sugerir as boas comidas e os seus seios proeminentes, a fecundidade. Residia numa gruta perto da primeira catarata e daí regulava o crescimento das águas. Sebek (ou Sobek), o crocodilo, era o símbolo da criação, da força, da fertilidade e da proteção. Representava a “sétima alma”. O crocodilo físico, material, aparece na ribeira do Nilo quando as águas da inundação começam a retroceder e nascem as primeiras plantas. Por outro lado, desde sempre se elegeu a costa ocidental do Nilo como o lugar para os sepultamentos. Reflexo da magnitude e da importância das necrópoles são as grandes cidades dos mortos. Junto à simbólica Montanha Ocidental ou Montanha Vermelha (Dahshur), nas escarpas, existem milhares de tumbas de todas as classes, desde as dedicadas aos grandes faraós até às pessoas mais humildes.

O rio Nilo, em sua passagem pelo Egito ▪ Fonte: YT Drone Snap
Por sua importância estratégica, o rio Nilo foi também um fator determinante para a centralização política e desenvolvimento administrativo do Egito, facilitando a comunicação entre o faraó e as províncias, contribuindo para a coesão de um império vasto e duradouro. Considerado pelos antigos egípcios como o eixo absoluto, a rota por excelência, as suas águas deram vida a uma civilização que, ainda hoje, volvidos milhares de anos, continua a assombrar o mundo. O rio Nilo era o verdadeiro “caminho real” do Antigo Egito. Uma via natural que alimentava a economia, integrava a cultura e fortalecia o poder. Sem ele, é difícil imaginar a grandiosidade que essa civilização alcançou.

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