A biblioteca de Antônio Mangabeira era portuguesa. Mangabeira era um poeta que mais lia do que versejava. Quem o visse pela primeira vez não o tomaria como tal, isto é, como pessoa ligada a versos e leituras. O arquétipo era o do burocrata altamente responsável, meticuloso em tudo, impondo um respeito que se revelava desde as coisas que fazia ao terno de cor e uso invariáveis. Mas era falando ou, mais propriamente, recitando, que a força do beletrista se impunha. Parecia que a voz, forte e vibrátil, fora a escolhida por Castro Alves para o tom patético de sua tragédia negreira:
“Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me, vós, Senhor Deus!”
Castro Alves ▪️ Foto: Alberto Henschel
Na voz de Mangabeira, o apelo se fazia mais libertário. Sem boêmia nenhuma, sem falsa postura e até sem mímica, a poesia saindo por si mesma, saindo da hóstia para a transubstanciação.
Foi sob o efeito dessa voz que caíram por terra, numa récita entre carimbos e papéis de amanuense, todos os dogmas e escapulários da minha cruzada de fé adolescente. O livro “A velhice do Padre Eterno” não foi tanto. Convincente, fortemente persuasivo, foi o timbre todo-poderoso da
Órfão solto, eu tinha dezesseis anos, trocava o dia pela noite e jogava sinuca. Integrava uma pilantragem de copo e verso de repercutida precocidade. Nas horas vagas, frequentava o bolchevismo boca-mole do café de Chico Lima. Mas nem sempre era bolchevismo. Num fim de tarde violeta, o sol transfixando o matiz da vidraça em nossa mesa e em minha alma, ouso ouvir um canto estranho de sol oriental. Vem de 1949 e está aqui:
“Dichosos los que nacen mariposas.
O tienen luz de luna en su vestido.
Dichosos los que cortan la rosa
Y recogen el trigo!”
Antônio Mangabeira, Epitácio Soares, Inácio Rocha e Egídio de Oliveira Lima, 'membros' da Academia dos Simples ▪️ Fonte: Revista Manaíra (1951)
— Quem é ele, senhor? — perguntei, apresentando-me.
E Mangabeira, ufano dessa longínqua companhia: “É aquele que prometeu queimar o Partenón à noite para começar a levantá-lo na manhã seguinte e não terminar mais nunca”. Era a luta ou o martírio ingente a que se associavam o rebento de Espanha e a sua poesia.
Pode-se pensar hoje que Mangabeira não existe, que nunca existiu; que passou na vida como os seus passos na calçada. Mas como foi fácil encontrá-lo nesta semana. Comprei a versão portuguesa de Ernest Renan, o livrinho gostoso e fofo da editora Lello & Irmão, e lá me aparece inteiro Antônio Mangabeira. Vento remoto e voz arcana por entre os ciprestes de Campina, ele vivinho, o ser e a voz, no formato português que foi sua vida e agora o ressuscita. O livro é de Ernest Renan, vem do Porto, mas fala, vive e não é outro senão Antônio Mangabeira.








