D omingo último foi a vez de minha neta, Raíssa, fazer vestibular, que agora chamam de Enem. E você, Raíssa, já vai completar 18 anos de cam...

A riqueza da sabedoria

Domingo último foi a vez de minha neta, Raíssa, fazer vestibular, que agora chamam de Enem. E você, Raíssa, já vai completar 18 anos de caminhada existencial. Dezoito anos que saiu do ventre materno, um tiquinho de gente que, com o tempo, foi crescendo ao lado de seu irmão Tuquinha, três anos mais velho do que você. E hoje é com quem você brinca, viaja, passeia e se diverte...

Com apenas 18 anos, dir-se-ia que você está ainda ao pé da montanha. Esta montanha que simboliza a vida, enquanto eu desfruto o clima lá do alto. E você talvez nem chegue lá. Ah, Raíssa, como é bom estar aqui no alto, olhando, com pena, os que ainda estão caminhando para cima. Vale a pena viver, minha querida. Vale a pena acumular experiências. As experiências que nos dão sabedoria. A sabedoria que nos enriquece de paz. Não tenho inveja de você, minha querida neta. Se me dissessem que eu iria voltar à sua idade, confesso que não queria. Não invejo os que ainda estão subindo a montanha da vida. O que devo e posso fazer é ajudá-los a subir com a escada da minha experiência.

Você está fazendo o vestibular, embora ainda não escolheu exatamente a profissão. Mas tenho certeza de que saberá escolher. Você adora ler, escrever, poetizar. Mais ainda: passa horas e horas no computador, viajando pela Internet, e é com muito apetite que vai para a escola. Aprender é com você. Daí as boas notas que sempre tirou.

Não nego a curiosidade. Afinal, qual a carreira que você vai escolher? Está aí uma coisa que eu gostaria de saber. Médica, engenheira, bacharela em Direito, arquiteta, enfermeira, odontóloga, antropóloga, professora? São tantas as interrogações que me chegam à imaginação...

Mas, tenha certeza de que é bom viver muito, minha neta. É bom envelhecer com sabedoria. Termino desejando-lhe muita paz, saúde e sabedoria. Esta, a maior riqueza da vida.

E ste cronista que aqui escreve anda meio esquecido. Dizem que é normal depois dos setenta. E haja vitamina B. Mas, esquecer é bom ou é ruim...

Esquecer também é bom

Este cronista que aqui escreve anda meio esquecido. Dizem que é normal depois dos setenta. E haja vitamina B. Mas, esquecer é bom ou é ruim? Depende, dirá você. E eu digo o mesmo. Nem sempre esquecer é bom.

Afinal, o que devemos ou não esquecer? Comecemos pela gratidão. Jamais esquecer um gesto de bondade ou um ato de amor, de gentileza. Portanto, sejamos gratos. A começar pela vida que nos foi dada. Haverá maior dádiva? Por acaso, somos joguetes do acaso? Será que o homem, como sentenciou o materialista Sartre, é uma “paixão inútil”? Afinal, a quem agradecer a vida que temos? Se tudo surgiu por acaso, então o acaso é inteligente?...

Voltando ao esquecimento, quando é que ele é uma terapia? Ora, ora, quando nos faz bem. Esquecer o mal que alguém nos fez, esquecer o passado pelo que ele conte de negativo, esquecer uma dívida. Sócrates, já perto de ser envenenado pela cicuta, pediu que não deixassem de pagar uma dívida que ele havia contraído. Por que o filósofo não esqueceu aquele compromisso? Para ficar em paz com a sua consciência. A única coisa que levamos desse mundo.

Não devemos esquecer os deveres para com a vida. Do contrário seremos irresponsáveis. E a pior coisa do mundo é a irresponsabilidade. Quando você cumpre com os seus deveres, fica aliviado, satisfeito, alegre, de bom humor. Alegre consigo mesmo. Esquecer, lembrar, eis o que está ocorrendo, constantemente, em nossa existência.

Esquecer as amizades não é correto. Os amigos devem estar sempre no nosso pensamento, na nossa gratidão. Esquecer os desafetos, sim. Para que está lembrando o mal que nos fizeram? Lembrar é dar vida a uma coisa. Portanto, lembrar os males que nos fizeram é vivificá-los. Daí a estupidez da vingança, da mágoa. Não esquecer o inimigo é estar sintonizado com ele. A vingança não resolve nada.

Esquecer as coisas negativas e lembrar as positivas, eis a fórmula do bem-viver. Por que é que as crianças estão sempre alegres, sempre descobrindo as coisas boas da vida? Porque não guardam mágoas. Mágoa é uma desgraça. Mágoa é ressentimento, e ressentimento é uma espécie de azia psíquica. Criança triste é criança doente.

A má lembrança é um fardo. Livre-se dela. É belo colocar retratos na parede das pessoas que se foram desta vida. Eis aí uma lembrança que faz bem ao que se lembra e ao que é lembrado, caso você acredite na imortalidade do espírito. Caso contrário, pouco valerá a sua lembrança...

Lembrar, esquecer, eis aí dois verbos constantes em nossa vida. Mas Deus é tão grande, justo e bom que nos deu esse esquecimentozinho tardio. També, nos deu o sono, uma boa pausa em que nos tornamos inconscientes. Haverá melhor terapia do que esta? Pena que muitos tenham insônia ou pesadelos. Que, muitas vezes, também depende da vida que se levou durante o dia...

Acontece que está me chegando a fome. Eis aí uma coisa de que a gente não consegue esquecer. Esquecer de comer. Nem depois dos setenta...