“As Muriçocas nascem da obstinação alegre de um folião visionário, mas crescem como expressão coletiva, reunindo artistas, amigos, ...

Muriçocas do Miramar – 40 anos

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“As Muriçocas nascem da obstinação alegre de um folião visionário, mas crescem como expressão coletiva, reunindo artistas, amigos, comunidades e milhões de foliões e foliãs. Ao narrar essa trajetória, o autor revela um carnaval que tem tempo e lugar, que não se desloca do seu território simbólico nem da sua memória afetiva. Um carnaval enraizado nas pessoas, nas individualidades e nos coletivos, que fez das Muriçocas de Miramar não apenas um bloco, mas um marco do carnaval de João Pessoa, da Paraíba, do Nordeste e do Brasil.” Fred Maia
Domingo, dia 1 de fevereiro, o compositor e puxador do Bloco das Muriçocas do Miramar, Mestre Fuba, lançou o livro A Celebração da Alegria: 40 anos das Muriçocas do Miramar (Editora A União). O livro, diz o jornalista Fred Maia, na orelha, “é mais que o registro de um bloco carnavalesco: é a narrativa de uma cidade em festa e de uma geração que fez do carnaval um gesto contínuo de pertencimento... Ele se constrói no encontro, na amizade, na soma de paixões.”

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Ruth Avelino, Fuba e Valeska Asfora no lançamento do livro A Celebração da Alegria: 40 anos das Muriçocas do Miramar ▪️ Fonte: Portal RCVips
E assim se passaram esses anos todos. Vi o bloco surgir. Não no seu primeiríssimo ano, em 1987, porque estava fora do país, fazendo mestrado. Mas, no ano seguinte, catei uns filós nos baús da minha mãe e me fantasiei de noiva. Uma noiva em desconstrução. Havia me separado em outubro do ano anterior e queria brincar todos os frevos. Tirar a barriga da miséria, uma vez que não fui contemplada com companheiros foliões. Dois casamentos e mais uma relação com filho envolvido, e o meu espírito foliã enclausurado. Era costume.

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Foto: Prefeitura de Olinda
Toda a vida eu não podia ouvir um batuque que me fazia tremer, como Dona Onete no Pará. Mas, por circunstâncias de cuidar da saúde das relações, eu me deixava em casa. Pois bem, a partir da solteirice tardia, vieram todos os blocos: Olinda, O Acho é Pouco, Siri na Lata e todas as ladeiras. Mas foi nas Muriçocas que eu pude extravasar o meu espírito carnavalesco. Por isso, durante 35 anos, brinquei sozinha, anônima (mas, claro, encontrando todas as pessoas queridas, no nome de Fuba, Vitória Lima, Gualberto, Bob Záccara, Val Velloso, Lúcia Lacet, Gracinha Lira, minhas irmãs, Sarita Belo e mais uma legião de mosquitos). Casa de Vitória para a primeira cerveja, os acordes, os estandartes e a descida até a praia no trio de Fuba, Alceu Valença e Morais Moreira, só para citar alguns em que me esbaldei.

Sempre gostei de me fantasiar e pintar a cara. Assumir uma persona qualquer. Palhaço e Pierrot, as minhas preferidas. Mas houve também as de ordem política e irreverente: Miss IPTU (quando Júlio Rafael, meu marido, era vereador), de Pacote (por conta dos pacotes do governo), de Prisioneira, Bruxa, Maracatu, Cafuçu e Haja Saco, vestida de estopa e com a cara suja de carvão. Gostava de me fazer engraçada e irreverente, mais do que bonita. Mas o glitter e a purpurina eram bem-vindos.

Ia de carro até a Padaria Bonfim, depois táxi, e tome Ala Ursa pelo caminho e, nos últimos anos, Calungas e Dodora, amiga de infância, tocando o tambor. Ao contrário da maioria, gostava/gosto da multidão, das pessoas desconhecidas e das mais variadas fisionomias e apetrechos brincando essa festa que, para mim, é a maior de todas e a que melhor representa o Brasil.

Ela cresceu. Digo a festa do Carnaval. Em todos os confins há um bombo, um trio, um canto, um palco, confete e serpentina. As Muriçocas também cresceram e, de um poema de aniversário para Thiago Gualberto (filho de Vitória e Antônio Gualberto) e da vontade de alguns amigos foliões, o bloco virou o maior bloco de arrasto das prévias. E ainda tem os braços do bloco – Muriçoquinhas, Acorde Miramar e tantos outros eventos produzidos pela equipe.

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Thiago Gualberto ▪️ Facebook: @muricocas
As Muriçocas têm uma importância ímpar no Folia de Rua. Explodiu esse movimento que hoje conta com dezenas de blocos e frevos ruas afora. É a forma do pessoense brincar e sentir o ritmo que desejar correndo nas veias, das crianças aos senhores e senhoras mais vividos. Eu sinto não mais poder ir. Não sou daquelas que gosta de dar uma olhadinha. Sou radical. Gosto de cair na gandaia e brincar pra valer. E, por isso, hoje, depois de algumas tentativas no bloco Raparigas de Chico, reconheço a minha insignificância e hiberno: na praia, na sala ou num cantinho qualquer. Mas a purpurina continua no rosto, acompanhando os blocos aqui e alhures.

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Muriçocas do Miramar ▪️ Facebook: @muricocas
Este ano, estive a postos para a Sapucaí, a escola Acadêmicos de Niterói, que contou a história do nosso presidente Lula. Com certeza eu queria estar lá, no chão, junto à bateria. Tive que me conformar com a TV e as madrugadas de batuque. Mas o chão tremeu de samba e de vivas ao nosso maior presidente!

E, enquanto a Sapucaí não se agigantava, a gente cantarolou: “Coça, coça, coça, sejam bem-vindas as Muriçocas do Miramar!” Parabéns ao Bloco Muriçocas do Miramar! Parabéns! Vitória Lima, em nome de quem saúdo a todos e todas que fizeram e fazem esse bloco agitar a vida carnavalesca da cidade.

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