Um dos homens mais importantes da história paraibana e brasileira, com repercussão internacional, tem uma identificação forte: José...

Linha do tempo de José Américo e sua Fundação Cultural

Um dos homens mais importantes da história paraibana e brasileira, com repercussão internacional, tem uma identificação forte: José Américo de Almeida, também conhecido como “O Homem de Areia”. Isso, em alusão ao lugar onde nasceu: Areia (PB), no dia 10 de janeiro de 1887. Precoce, sua “estrela” já começou a prenunciar uma polivalência de atributos que o tornaria um dos mais renomados literatos, políticos e humanistas do cenário nacional. Aos 19 anos começou a demonstrar vocação literária; aos 21 anos concluiu o curso de Direito; aos 24 anos foi nomeado procurador-geral do Estado da Paraíba; e, aos 36 anos, publicou o primeiro livro: A Paraíba e seus Problemas (1923).

Areia, município do brejo paraibano ▪️ Fonte: Iphan
Destacou-se na literatura brasileira como autor de A Bagaceira (1928), obra-prima do romance regionalista moderno. Escreveu 17 livros, de várias tendências literárias: contos, poesias, crônicas, entre outras formas de expressão. Ele é imortal da ABL e da APL. Até hoje, suas ações e obras inspiram muitos projetos de pesquisa. E, assim, segue sua “imortalidade” pelo mundo afora.

José Américo (dir) ▪️ Fonte: Memorial da Democracia
Como político, fez história no cenário nacional ao ocupar importantes cargos. Foi deputado, senador, ministro e governador da Paraíba por dois mandatos e “quase” vice e presidente da República. Ainda atende por outras denominações: jurista, professor e reitor (inclusive foi ele quem fundou a Universidade Federal da Paraíba e foi seu primeiro reitor). Faleceu no dia 10 de março de 1980.

José Américo: do “Homem de Areia” à Fundação
Solar de Tambaú — José Américo de Almeida administrou a Paraíba em dois períodos: de 31 de janeiro de 1951 a 16 de junho de 1953 e de 26 de setembro de 1954 a 31 de janeiro de 1956. Nesse ínterim, adquiriu o terreno e construiu sua residência, situada na então Praia de Tambaú, daí a denominação “Solar de Tambaú”, hoje no mesmo local, porém com endereço atualizado para Avenida Cabo Branco, nº 3336.

Casa de José Américo ainda isolada na praia do Cabo Branco, em João Pessoa-PB ▪️ Fonte: FCJA
Na exposição atual da casa, hoje Museu Casa de José Américo, há fotos destacando a residência sozinha, sem vizinhos, construída por ele. Um dos objetivos seria desfrutar de um cenário marcante, tipo natureza pura, para dar vazão às suas inspirações. Detalhe: José Américo, tal qual um “arquiteto”, participou de cada detalhe daquele refúgio.

Além disso, a casa conta com um terraço amplo e, em um dos recantos, ainda permanecem as famosas cadeiras onde José Américo recebia visitantes: políticos, jornalistas, intelectuais, autoridades, personalidades e até pessoas comuns da comunidade. Fotos documentam que esses visitantes eram oriundos de vários segmentos, com o propósito não apenas de visitá-lo, mas de buscar aconselhamentos diversos, sobretudo políticos.

Recanto de inspiração e paz
Fotos e escritos documentam a “aposentadoria” de José Américo das tarefas funcionais obrigatórias, sem jamais deixar de desfrutar de sua liberdade para viver plenamente no recanto escolhido e projetado por ele, onde passou as últimas três décadas de sua vida. Isso está bem evidente nas seguintes frases, escritas ao longo de sua trajetória:

“Soquei-me neste recanto por ser terra paraibana que, além de sua beleza, tem caráter. Nada há que se assemelhe à sua configuração de um pitoresco que não se cansa. Aqui não há nada feito, não há padrão. E essa desordem se torna mais sedutora por sua variedade. Não se imagina o que é isto. Um retalho de mata e o grande mar. O pano de fundo e a perspectiva atlântica formando o quadro.”
“Andar é tudo que faço, nesta praia, nesta areia e depois olhar meu traço, até vir a maré cheia.”
“Viver, não sua idade, mas seu tempo.”
“A solidão liberta-me e valoriza-me. Enquanto estou só, crio o meu mundo e me basto. Mas uma presença é sempre um raio de sol, a reconciliar-me com o mundo exterior.”
“Nutrir o espírito é mais do que matar a fome: é renovar a vida.”
“Criar é uma forma de renascer.”
“Ver bem não é ver tudo: é ver o que os outros não veem.”
José Américo de Almeida e a praia do Cabo Branco ▪️ Fonte: FCJA (adap)
De residência a museu
Na manhã do dia 10 de março de 1980, a Paraíba foi impactada pela notícia do falecimento de um de seus filhos mais ilustres: José Américo de Almeida. O funeral, se não foi o maior, foi um dos maiores da Paraíba.

José Américo faleceu no dia 10 de março de 1980. O fim de sua vida material foi um marco, exatamente porque surgiu a semente da Fundação Casa de José Américo. A ideia de transformar a residência em museu aconteceu já nos funerais, além da inspiração para imortalizar seu nome e sua história — uma história digna de reflexos exemplares para dar continuidade à divulgação da cultura paraibana. Morria ali o corpo físico de um ser, para emergir a imortalidade do brasileiro-paraibano na história nacional, em várias vertentes: humanista, cultural e política.

Tarcísio Burity ▪️ Fonte: Jornal A União
Segundo edição do jornal A União, na cobertura do funeral, essa iniciativa foi anunciada pelo então governador da Paraíba, Tarcísio Burity, já no velório: “A residência do ex-ministro José Américo de Almeida, que serviu de refúgio durante vários anos, na praia de Tambaú, será transformada em museu”, anunciou Burity, acrescentando que os trabalhos de instalação começariam ainda naquele ano, com a execução de obras e serviços para adaptação do imóvel.

A informação foi reafirmada na edição de A União, em manchete de capa do dia 12 de março de 1980: “Casa de José Américo será museu”. Afirma Burity: “Haverá um local destinado à leitura, onde os frequentadores terão acesso à documentação histórica, arquivada há várias décadas pelo ministro.” E justifica: “Trata-se de uma homenagem das mais justas a um homem que sempre procurou servir ao seu povo com dedicação e projetou a Paraíba da melhor forma no cenário político e cultural da nação.”
Nota da autora: por sinal, o funeral de José Américo, se não foi o maior, certamente foi dos maiores da Paraíba, conforme cobertura do jornal A União no dia seguinte. Produzi uma matéria especial, repercutindo a cobertura, publicada na capa do *Almanaque* (p. 25) da edição deste domingo, 15 de fevereiro de 2026. Em breve, reproduzirei neste espaço.

Preparativos x inauguração
Funeral de José Américo ▪️ Fonte: A União
A edição do jornal A União do dia seguinte ao falecimento, 11 de março de 1980, destaca que “Governo cria a Casa de José Américo de Almeida”. Segundo o ato, eis as diretrizes pronunciadas por Burity: “A Fundação Casa de José Américo de Almeida, que funcionará na antiga residência do ministro, em Tambaú, terá como objetivo principal preservar o nome e todo o acervo cultural deixado pelo ‘Homem de Areia’. A fundação será presidida pelo professor Milton Paiva e, em breve, o fabuloso arquivo, contendo os principais fatos históricos dos últimos cinquenta anos, estará à disposição de estudantes e intelectuais para pesquisas.”

O acervo fotográfico da Fundação Casa de José Américo (FCJA) documenta que, dois dias depois do falecimento (12/3/1980), o governador Tarcísio Burity já começou a acertar a compra da casa com o general Reynaldo Almeida, filho de José Américo, com as presenças de Ivan Bichara Sobreira e Lourdinha Luna.

José Américo e sua secretária Lurdinha Luna ▪️ Fonte: FCJA
Na sequência, legendas de fotos de uma solenidade no Palácio da Redenção indicam que, em 18 de dezembro de 1980, o governador Tarcísio Burity e o general Reynaldo Almeida criam a Fundação Casa de José Américo (Lei nº 4.195, de 10 de dezembro de 1980). Coincidindo com o primeiro aniversário de morte, no dia 10 de março de 1981, o governador Tarcísio Burity assina o ato constitutivo da fundação na então residência: Av. Cabo Branco, 3336, na orla do Cabo Branco.

Apoteose no dia D — inauguração
Na sequência dos preparativos, chega-se à apoteose: a inauguração da Fundação Casa de José Américo, com a presença do então vice-presidente da República, Aureliano Chaves. O fato aconteceu no dia 10 de janeiro de 1982, em uma solenidade bastante prestigiada por um público diversificado, com supremacia de políticos e intelectuais.

Jonal A União divulga inauguração da Fundação Casa de José Américo ▪️ Fonte: EPC
Mausoléu
O monumento que guarda os restos mortais de José Américo e de sua esposa, dona Alice, é um dos cartões de visita e ponto alto que atrai a atenção dos visitantes. Foi inaugurado no dia 10 de janeiro de 1983, com as presenças do presidente João Figueiredo e da ministra Esther Ferraz.

Mausoléu de José Américo na FCJA ▪️ Fonte: paraiba.gov.br
Anexo
O anexo da FCJA, composto pelo auditório e salão de exposições, foi inaugurado no dia 10 de janeiro de 1984 e contou com a presença da ministra Esther Ferraz. Ela cortou a fita simbólica com o então governador Wilson Braga.

Arquivo dos Governadores da Paraíba
O prédio foi inaugurado pelo governador Tarcísio Burity, com a presença do ex-governador Ivan Bichara e do filólogo e ex-ministro da Cultura Antônio Houaiss, no dia 11 de março de 1991.

Anexo da Fundação Casa de José Américo ▪️ Fonte: FCJA
Visitantes ilustres
Ao longo do tempo, quer visitando o anfitrião José Américo, quer conferindo as potencialidades da instituição, muitos visitantes registraram presença. Dentre eles: o embaixador japonês no Brasil, Nabuo Okuchi (11/02/1982); o paisagista Roberto Burle Marx (26/11/1984); o ministro da Educação Rubem Ludwig; e o presidente José Sarney (que o sucedeu na ABL), que visitou a FCJA no dia 11/03/1988 e recebeu a medalha comemorativa do centenário de José Américo.

FCJA — 45 anos de história
A Fundação Casa de José Américo (FCJA) completou 45 anos em dezembro de 2025, enquanto fundação. Ao longo do tempo, foi dirigida por 11 presidentes. Flávio Sátiro Fernandes Filho dirigiu por dois períodos e também exerceu a função de secretário-executivo (correspondente hoje à vice-presidência) em algumas ocasiões. Francisco Sales Gaudêncio foi o primeiro secretário-executivo, além de exercer outras vezes a função e também a presidência interina, antes de seu mandato como terceiro presidente.

Fundação Casa de José Américo ▪️ Fonte: PMJP
Na sequência, eis a ordem dos mandatos:

Milton Ferreira Paiva (março de 1981 a maio de 1984); Maria do Socorro Silva Aragão (maio de 1984 a junho de 1987); Francisco de Sales Gaudêncio (julho de 1987 a setembro de 1991); José Elias Barbosa Borges (setembro de 1991 a novembro de 1994); Maria Violeta de Brito Salviano (fevereiro de 1995 a junho de 1996); Ivanice Frazão de Lima e Costa (junho de 1996 a dezembro de 2002); Flávio Sátiro Fernandes Filho (janeiro de 2003 a março de 2009); Letícia das Mercês Mais Pinto Ferreira (março de 2009 a dezembro de 2010); Flávio Sátiro Fernandes Filho (janeiro de 2011 a abril de 2014); Damião Ramos Cavalcanti (abril de 2014 a dezembro de 2018); Viviane Vieira Coutinho (janeiro de 2019 a novembro de 2019); Fernando Antônio Moura de Lima (dezembro de 2019 — atual).

Cada um deles contribuiu com ações em prol do desenvolvimento da instituição em seus períodos de gestão.

Interior da FCJA ▪️ Fonte: PMJP
Outras frases marcantes de José Américo de Almeida
José Américo era bem conhecido também por suas frases brilhantes. Dentre tantas, além das citadas no início do texto, destacam-se:

“O que tem de acontecer tem muita força.” “A maior saudade é a do bem presente que já não se alcança.” “Só tenho uma vaidade: a literária. E não é vaidade: é alegria.” “Veja como o coração é bem guardado! A gente não pega, não vê... mas é o que se sente mais: bate sem parar e bate, dentro, com mais força, quando já não nos pertence.” “Administrar será sempre contrariar interesses.” “Há várias formas de dizer a verdade.” “Um discurso escrito é como uma folha seca: perde a cor e os flagrantes do improviso. Mas serve de documento. Grava as palavras para uma só versão inconfundível.” “O bom cinema é um formidável instrumento para uma sólida formação humanística de todos os povos (...). O cinema educativo trará importantes frutos para a classe estudantil paraibana.”

COMENTÁRIOS
COMENTÁRIOS VIA GOOGLE

leia também