(Ângela Bezerra de Castro) O romance Suíte de Silêncios, de Marília Arnaud, é um texto para ser lido como um poema, tal o nível de elaboraçã...

Um romance para ficar na história


(Ângela Bezerra de Castro)

O romance Suíte de Silêncios, de Marília Arnaud, é um texto para ser lido como um poema, tal o nível de elaboração e densidade da linguagem, no desenvolvimento do tema do amor habilmente reinventado pelo enfoque original. Amor que não conheceu “momentos pequenos, nem gestos de fastio ou indiferença, tampouco palavras banais ou mesquinhas”.

Duína é a protagonista-narradora que, vivendo uma situação extrema, escreve para João Antonio espécie de carta-testamento, onde reconstitui a intensidade da história de amor compartilhada pelos dois e o seu desnorteamento ante o desfecho cruel que o amado anunciou, optando pelo “pacto tácito de conforto e comodidade”.

Enquanto escreve, a personagem recupera lembranças marcantes e decisivas de sua existência que evoluem em contraponto com o conflito central do romance: o desamparo e a vergonha pelo abandono da mãe; a difícil interação com o pai, sempre amargurado; a convivência salvadora da avó paterna com a ternura de seus sábios conselhos; o bloqueio que a isolava das brincadeiras com outras crianças; o abuso sexual a que foi conduzida pelo velho professor de violino; a repulsa do primeiro namorado, ante a revelação de seu traumático segredo; a morte da avó; a impossibilidade de ser compreendida pelo irmão e pela amiga, em seu dilaceramento de amar o perdido, o “existido que continua a doer eternamente”.

A ligação da protagonista com a música, por admiração ao pai, um devotado maestro, se reflete na semântica do romance, desde o título que associa a construção da narrativa à composição musical caracterizada por reunir diversos movimentos inteiramente livres quanto ao número e ao caráter melódico. Assim se alternam os movimentos ou conflitos do romance, sem subordinação à sequência temporal, cada um em seu andamento melódico lancinante, agônico e enternecedor.

Duína resiste à “insuficiência da vida” e desvela para o grande amor, “erguido no mistério urgente da carne e nutrido na grandeza do imaginário”, “os jardins secretos do próprio ser”, sem reservas, sem limites, como a última, completa e definitiva entrega. Agora mais que “a integridade do seu corpo-alma” a “melodia-existência, labiríntica como o espírito”.

Despertando silêncios abismais com a música das palavras, a romancista recupera para o grande amor sua verdade essencial, que transcende as convenções e aparências para encontrar, na inteireza e densidade de ser, a sua eternidade. Um romance ousado e verdadeiro, que veio para ficar na história.

Ela jazia abandonada por sobre a calçada. Um e outro pedestre lhe roçaram as pétalas com solas rápidas. Alguém quase a chutara. Pisaram-lh...

"Fome de devaneio"



Ela jazia abandonada por sobre a calçada. Um e outro pedestre lhe roçaram as pétalas com solas rápidas. Alguém quase a chutara. Pisaram-lhe o caule e ela girou sobre si.

Tais suplícios não lhe roubaram, contudo, o frescor e a beleza. À luz escaldante do meio-dia, sua cor amarela vibrava num incandescente intercambio de energia com o sol.

E os pesados pés em passos apressados passavam perto, alheios à sua presença. Afinal, eram simples mortais mortos de fome, caçando o almoço de cada dia. Correndo e se entrecruzando por caminhos permutados, opostos.

Cada um por si.

Caoticamente.

Queria o destino que simples mortais não a notassem. Era preciso mais.

Era preciso alguém com fome de devaneio...

Quando se dirigia ao edifício de apartamentos onde residia, o escritor sentiu que pisara em algo que era mais perfume que matéria. Quis saber o quê.

Consciente da dificuldade física decorrente da idade avançada, o senhor agarrou-se fortemente à bengala. Abaixou-se com suma cautela, para não se desequilibrar e nem deixar caírem os óculos, sem os quais não enxergava bem.

Cuidadosamente, mansamente, num ademã sonhador, levantou a rosa amarela, deixando estendidas no calçamento três pétalas que dela se haviam desgarrado. Uma aragem litorânea quase descolou as outras pétalas, que se agitaram em ondas como as das águas do Cabo Branco.

O pequeno senhor de parcos cabelos brancos quebrou-se assim, por infinitos segundos – uma mão apoiada na bengala, a outra segurando o recém-encontrado tesouro. Por que seria tão amarela aquela rosa? Por que amarela? Qual o significado escondido por detrás de cada pétala de sol?

Ajustando os óculos de vidros grossos e circulares, tentou decifrar a plurissignificância inerente àquele misto de suavidade e agressividade: A suavidade emprestada pelo aroma, textura e forma. A agressividade da cor.

Sentiu sua vista morrer um pouco. Fechou, por um segundo, as pálpebras. Cambaleou. Teria sido pelos excessos de tão iluminado amarelo?

Ante a vertigem, o senhor se firmou na bengala com ambas as mãos, deixando escapar a rosa. Viu-se a, então, cair molemente ao chão, salpicando pétalas que revoluteavam qual borboletas ao sabor do vento.

Entregue àquele instante de magia, o escritor rendia-se ao palpitar intenso de seu coração. Embaçavam-se-lhe as lentes. Com uma mão, tateou o bolso do paletó.

Encontrou o lenço. Introduziu uma pontinha sob os óculos, bem a tempo de interceptar uma lágrima...

Sentiu-se só! Confinado. Único. Prisioneiro de uma solitude atroz. Solidão só sua. Inacessível. Invisível aos indiferentes transeuntes passageiros de outros destinos.

Mas sentiu, também, toda a energia que cabia nessa sua solidão. Pensou no negativo fotográfico, que a um tempo contrapõe e preentifica uma imagem. Estranhamente, havia uma completude invadindo os vazios de sua alma, fazendo-o perder a noção da gravidade. A bengala já não era seu eixo de equilíbrio. Oscilava, com todo o seu ser.

Vieram-lhe ânsias. Ia vomitar tudo aquilo. Esvaziar-se. Esvair-se. Evadir-se numa última viagem.

Uma brisa mais forte o susteve. Refrescou-lhe o corpo e o espírito. Era o Aracati que compunha um redemoinho de partículas amarelas. De repente, o escritor viu-se no centro da ciranda doirada de pétalas dançantes.

E então se sentiu um agraciado dos deuses.

Sorriu. Ensaiou uma prece sem destinatário definido. Uma prece ao sol, talvez... ou a uma rosa amarela...


Cronista de variados matizes, arraigado naturalmente ao literário, Gonzaga Rodrigues tem olhos que descortinam realidades. De sua pena e d...

O Gregory Peck de Alagoa Nova



Cronista de variados matizes, arraigado naturalmente ao literário, Gonzaga Rodrigues tem olhos que descortinam realidades. De sua pena e de sua visão privilegiada criam-se cenas irretocáveis, quando fixadas na crônica do jornal. Capaz de transformar, como ato de criar, um olhar sobre a cidade, um comentário que parece en passant sobre um amigo vivo ou morto, uma crítica sobre política ou o que seria um mero documento sobre um fato ou lugar, na perenidade incontornável do poético.

Homem do povo, ser da cidade, trazendo no sangue a terra grávida do Brejo paraibano e na alma o senso de justiça em prol dos desvalidos, Gonzaga é o manso enérgico. Manso quando se propõe a ouvir quem fala, sendo sempre bom ouvinte; enérgico, quando defende suas causas, sem nunca ser o chato doutrinador. Quando se põe a contar “causos”, é um narrador impagável, pois guarda como um dos segredos de sua longevidade o bom humor.

A cabeleira farta, a tez acobreada, boa altura, ombros largos e o perfil característico do indígena, Gonzaga é para mim o Gregory Peck de Alagoa Nova. Não foi fazer sucesso no cinema, mas na imprensa paraibana, que reinventou; sucesso que guarda humildemente para si, mas que é do conhecimento de todos. Doutor honoris causa, diz-se um mero leitor a quem, machadianamente, tudo falta. Sua escrita, no entanto, mostra que o cronista é pleno e as lacunas, na realidade, estão nós.

Mesmo tendo passado dos 80, Gonzaga jamais será multado. Como multar uma amizade que conquistei na maturidade. Não é, Mago?

(Sérgio de Castro Pinto) A coruja São todo ouvidos Os teus olhos de vigília. Olhos acesos, Luzeiros De sabedoria. Olhos atentos À geografia ...

três zoo poemas


(Sérgio de Castro Pinto)

A coruja

São todo ouvidos
Os teus olhos
de vigília.

Olhos acesos,
Luzeiros
De sabedoria.

Olhos atentos
À geografia
do dentro,

és uma concha.

Um encorujado
Caramujo

Monja em voto de silêncio.

--------------------

Do leão, a juba

Sol de Pêlos
ao redor
da cabeça

a fulva juba flameja:

estrela
de primeiríssima
grandeza!

--------------------

Poeta X poema

Nem sempre o poeta
Ronda o poema
Como uma fera à presa

às vezes, fera presa e acuada
entre as grades do poema-jaula

doma-o o chicote das palavras


Dize-me como tratas os animais que te direi quem és. Eis uma pista muito eficaz para definir o espírito e o caráter de um ser humano....

Um certo modo de ser

Dize-me como tratas os animais que te direi quem és. Eis uma pista muito eficaz para definir o espírito e o caráter de um ser humano. Aliás, entre as atitudes que delineiam com indubitável nitidez a índole e o nível de evolução de uma pessoa, está o tipo de tratamento que dispensa aos subordinados, aos humildes, assim como aos irmãos que nada têm de irracionais.

(José Leite Guerra) Vem-me à lembrança o professor Manoel Viana. Nossa turma o estimava pelo comportamento nivelado que mantinha conosco, se...

Mestre Manoel Viana


(José Leite Guerra)

Vem-me à lembrança o professor Manoel Viana. Nossa turma o estimava pelo comportamento nivelado que mantinha conosco, sem perder a autoridade e a desabrochada ternura sobre nós. Ensinava Filosofia em nossa turma irrequieta e estudiosa; também no Curso Superior da mesma ciência das ciências (consoante se propalava) em edifício contíguo ao velho Liceu Paraibano.

Guardo dele a expressão mais simples e espontânea do método de ensinar. Não chegava a ser uma aula-espetáculo das que emgrande número espalhou Ariano Suassuna pelos rincões do Brasil, de onde jamais saiu, defendendo com ardor e humor a Cultura - perfil de nosso povo, desde o folclore, este a envolver cantigas, costumes, ladainhas, enfim a produção de raiz tão bela e rica.

Mas professor Manoel Viana nos deixava relaxados com suas tiradas de humorismo, sempre ligado à matéria tratada na aula. Quando adentrava à sala de aula, afrouxava a gravata, tirava o paletó (era costume o mestre-escola vestir-se a caráter, opcionalmente, quando não usava jaleco, a exemplo do notável professor Iveraldo Lucena).

Assim desembaraçado da indumentária devido, segundo ele, ser avesso a certas formalidades e ao calor reinante, começava a passear conosco; com ele viajávamos à Grécia, a encontrar os luminares de Sofia: Platão, Aristóteles, nos conduziam a outros gênios do saber, dos “arqueólogos” incansáveis de indagações e respostas bem fundamentadas. As lições trazidas de lá, nos deixavam menos obscuros no pensar. Um pensar conduzindo sempre à reflexão (re-flexão) curvar-se sobre si mesmo.

A Filosofia nos clareava noites do espírito, nos deixava despregados de conceitos petrificados, nos dava asas. Lembro-me de famosa sentença do Ministro e intelectual José Américo de Almeida constante da parede do edifício-sede da Reitoria da Universidade Federal da Paraíba, da qual foi um dos fundadores: “Eu vos dou raízes; outros vos darão asas e o selo da perpetuidade”.

Professor Manoel Viana nos fazia escavar as raízes e nos dotava de asas para voos do pensamento – pensamento que faz a diferença extrema entre o ser humano e o animal de outras espécies. A Filosofia nos incluía num mundo fascinante, num “carisma de explorar” os porquês do quando, para que, para onde, de onde, etc. Tinha a vocação de ilustrar e trazer à presença dos alunos problemas existenciais os mais diversos e diamantes jamais suspeitados por nós, adolescentes ainda, começando a indagar sobre o mundo.

Saudades do inesquecível professor Manoel Viana Correa.


(Sérgio de Castro Pinto) exílio desarvorada, a madeira do móvel desata os seus nós e estala a árvore que foi (no exílio da sala). __________...

Três poemas, três belezas


(Sérgio de Castro Pinto)

exílio

desarvorada,
a madeira
do móvel
desata
os seus nós e estala

a árvore que foi (no exílio da sala).
___________

as cigarras

são guitarras trágicas.

plugam-se/se/se/se
nas árvores
em dós sustenidos.

kipling recitam a plenos pulmões.

gargarejam
vidros
moídos.

o cristal dos verões.
___________

o homem conduzindo a
máquina de fotografia


na máquina
a paisagem é intestina
(o fora está dentro),
não pode mostrar-se ainda.

a máquina
guarda o que havia fora
e o homem a conduzindo
conduz duas memórias:

uma a da máquina (mais dentro)
e a outra a do homem (mais fora).

(Mia Couto) A maior desgraça de uma nação pobre é que, em vez de produzir riqueza, produz ricos. Mas ricos sem riqueza. Na realidade, melhor...

São demasiado pobres os nossos ricos


(Mia Couto)

A maior desgraça de uma nação pobre é que, em vez de produzir riqueza, produz ricos. Mas ricos sem riqueza. Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos mas de endinheirados. Rico é quem possui meios de produção. Rico é quem gera dinheiro e dá emprego. Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro. Ou que pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele.

A verdade é esta: são demasiado pobres os nossos «ricos». Aquilo que têm, não detêm. Pior: aquilo que exibem como seu, é propriedade de outros. É produto de roubo e de negociatas. Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram. Vivem na obsessão de poderem ser roubados. Necessitavam de forças policiais à altura. Mas forças policiais à altura acabariam por lançá-los a eles próprios na cadeia. Necessitavam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade. Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem.

O maior sonho dos nossos novos-rícos é, afinal, muito pequenito: um carro de luxo, umas efémeras cintilâncias. Mas a luxuosa viatura não pode sonhar muito, sacudida pelos buracos das avenidas. O Mercedes e o BMW não podem fazer inteiro uso dos seus brilhos, ocupados que estão em se esquivar entre chapas, muito convexos e estradas muito concavas. A existência de estradas boas dependeria de outro tipo de riqueza. Uma riqueza que servisse a cidade. E a riqueza dos nossos novos-ricos nasceu de um movimento contrário: do empobrecimento da cidade e da sociedade.

As casas de luxo dos nossos falsos ricos são menos para serem habitadas do que para serem vistas. Fizeram-se para os olhos de quem passa. Mas ao exibirem-se, assim, cheias de folhos e chibantices, acabam atraindo alheias cobiças. Por mais guardas que tenham à porta, os nossos pobres-ricos não afastam o receio das invejas e dos feitiços que essas invejas convocam. O fausto das residências não os torna imunes. Pobres dos nossos riquinhos!

São como a cerveja tirada à pressão. São feitos num instante mas a maior parte é só espuma. O que resta de verdadeiro é mais o copo que o conteúdo. Podiam criar gado ou vegetais. Mas não. Em vez disso, os nossos endinheirados feitos sob pressão criam amantes. Mas as amantes (e/ou os amantes) têm um grave inconveniente: necessitam de ser sustentadas com dispendiosos mimos. O maior inconveniente é ainda a ausência de garantia do produto. A amante de um pode ser, amanhã, amante de outro. O coração do criador de amantes não tem sossego: quem traiu sabe que pode ser traído.

Na rede, na vida e na lida diária eis ele, com sua amorosa presença! Ganho lambeijos, "pãozinho amassado" e me derreto toda. Co...

Amorosa presença


Na rede, na vida e na lida diária eis ele, com sua amorosa presença!

Ganho lambeijos, "pãozinho amassado" e me derreto toda. Corro, para não perder a captura do melhor ângulo deste filhão.

Miau, miau faz o meu gatinho, o meu Bebé, o meu Betinho!

Só para não dizer que não fui explícita! O nome é, simmmmm, uma homenagem; um bem-querer a um dos homens mais humanos, solidários e belos que habitou este Cosmos.

Saudade intensa de Herbert de Souza e do meu Brasil de antes!
Vontade imensa de ver o Brasil futuro, que já está bem próximo de (re)nascer...


Thamara Duarte é mestre em direitos humanos, ambientalista, e jornalista

As palavras, como as pessoas, nascem e morrem. A diferença entre elas e nós é que podem ressuscitar. Um dia, quando menos esperamos, depar...

Antigamente



As palavras, como as pessoas, nascem e morrem. A diferença entre elas e nós é que podem ressuscitar. Um dia, quando menos esperamos, deparamo-nos com um arcaísmo que nos faz voltar à infância (esse “deparamo-nos”, com o pronome enclítico, já não seria um?).

Outro dia eu estava listando uns termos que ouvia quando era menino e que hoje praticamente não se dizem mais. Alguns se tornaram esquisitos; outros preservam um sabor que nos desperta o desejo de resgatá-los.

Hoje se diz de alguém convencido e presunçoso que é esnobe. Antigamente, uma pessoa desse tipo “só queria ser as pregas”. Por que as pregas? Pedi a ajuda da minha mulher, que logo matou a charada: na roupa feminina, as pregas são o que dá mais trabalho. Constituem um requinte, uma marca de distinção.

Pirralho mal-educado a gente tratava “no cascudo”. Ou no “cocorote”. Levei vários deles, por sinal, e nem por isso fiquei ruim da cabeça. Ruim da cabeça? Naquele tempo ninguém falava assim. Dizia-se “leso”, “abilolado”. Os cascudos eram para mostrar que a criança tinha de obedecer aos pais “sem tugir nem mugir”, eu seja, sem murmúrio nem grito.

Homem usava “brilhantina”. Mulher, “laquê”. Cheguei a acompanhar meus pais a alguns bailes em que os cabelos dos homens eram um lustre só. Ainda não entrara em cena o xampu com a sua variedade de nutrientes que se ajustam aos vários tipos de fios. Fossem os cabelos secos, oleosos, lisos, encaracolados, louros, pretos ou brancos, a inevitável brilhantina os untava da mesma forma e impedia, se fosse o caso, que se revolvessem no atropelo da dança (mas que risco para isso as dolentes valsas podiam representar?).

Nesses bailes, por sinal, chamava-se a mulher para dançar pedindo-lhe que “concedesse uma parte”. Ela nem sempre se dispunha a saracotear com o “janota”, que achava “espeto” receber a negativa. “Espeto” se aplicava a pessoa ou situação difícil de suportar. Surgiu, certamente, por analogia com o objeto perfurante encontrado hoje nos rodízios de carne, peixe, pizza. A rejeição da mulher era mesmo um golpe, um furo na autoestima do cavalheiro, que tinha vontade de por causa disso provocar um “sururu”.

Mas ele nem sempre se dava por vencido, e às vezes conseguia se vingar. Dando uma “rabiçaca” em quem o rechaçou, por exemplo, ou esfregando-lhe na cara um “pedaço de mau caminho”. Isso: uma garota boazuda, fornida, “de fechar o comércio”, que fazia a outra se sentir um “sibito baleado”.

E os nomes? Naquele tempo os homens se chamavam Anfilófio, Eleutério Salustiano. As mulheres: Eudóxia, Escolástica, Alaor. E os utensílios? Como nos quartos não havia banheiro, fazia-se xixi no “urinol”, que após o uso era pudicamente colocado embaixo da cama. Comida se guardava no “petisqueiro”, e no guarda-roupa se amontoavam sapatos ao lado de roupas. Algumas, para o gosto de hoje, muito “ababecadas”.

(Germano Romero) E mmanuel é considerado o eminente guia espiritual de Chico Xavier, o maior médium de todos os tempos. Nos 500 livros publi...

Renasce uma livraria

(Germano Romero)



Emmanuel é considerado o eminente guia espiritual de Chico Xavier, o maior médium de todos os tempos. Nos 500 livros publicados por Chico, sem se dizer autor de nenhum deles, mais de 100 foram ditados por Emmanuel, através da psicografia. Dos mais de 60 milhões de livros vendidos, traduzidos em 30 idiomas, o “santo” de Uberaba não ficou sequer com um centavo para uso pessoal. Que diferença de outros religiosos...

O cronista Carlos Romero costumava enfatizar em textos e palestras que o Espiritismo nasceu de um livro. Sim, “O Livro dos Espíritos”, publicado por Allan Kardec, há 162 anos, em Paris, fundava a doutrina recentemente documentada em um espetáculo cinematográfico de alta qualidade.

A importância do livro como instrumento maior de propagação das ideias e do conhecimento humano foi enfatizada por Emmanuel na célebre frase - “A maior caridade que podemos fazer pela doutrina espírita é a sua própria divulgação”. Estimulado pelos efeitos da poderosa capilaridade das letras, o cronista Carlos Romero criou, há mais de 10 anos, o “Sorteio do Livro Espírita”, na Federação. Depois de seu desenlace, a iniciativa continua mantida, como sempre, à base de doações espontâneas, todas as quintas-feiras, nas reuniões públicas e doutrinárias, às 15h00.

O pai de meu pai, José Augusto Romero, que presidiu a Federação Espírita Paraibana por 44 anos consecutivos (uma vida!), também era muito sensível ao conselho de Emmanuel. Havia na Federação, logo no início, uma pequena biblioteca com livros que eram emprestados a quem se interessasse. Como as atividades nas casas espíritas são voluntárias, ficou difícil a manutenção desse formato e a biblioteca se transformou em livraria, que recebeu o nome de “Livraria Léon Denis”, por sugestão de José Augusto. Decerto, pela declarada admiração ao autor do livro que o tornou espírita, “O problema do ser, do destino e da dor”, de Léon Denis. Este pensador e escritor espírita, que, com Gabriel Delanne e Camille Flammarion, formou o célebre trio de franceses que deu brilhante continuidade à obra de Kardec.

A livraria continuou abrigada na Federação por várias décadas até atingir agora o seu apogeu, com a grande reforma empreendida na gestão do presidente Marco Lima. Na semana passada, depois de uma reconfiguração geral de alto nível, foi reaberta ao público.

É sempre uma gratificante notícia quando abrem ou ampliam uma livraria pelo mundo. Com a crescente tendência para a leitura em formatos digitais, o livro impresso sofre perdas irreparáveis no mercado. Problemas de espaço, a praticidade, a velocidade da vida moderna e outras razões como a própria comodidade fazem crescer os adeptos do e-book, padrão de inquestionáveis vantagens de manipulação e armazenamento. Embora sem a magia histórica, sem o cheirinho bom de papel e o aconchegante contato tradicionalmente cativante.

Merece aplausos a iniciativa da Federação Espírita Paraibana na realização desse louvável projeto de reforma de uma livraria que já pertence à história do Espiritismo na Paraíba. Para quem não conhece, fica a dica do endereço: Rua Bento da Gama, 555, ao lado do Posto Maia.


Você ganhou, Romero! Terá sido o primeiro disputante de um páreo que ganha com 5 (cinco) votos tendo 30 (trinta) contra. E não estou be...

Cada um vê a seu modo

Você ganhou, Romero! Terá sido o primeiro disputante de um páreo que ganha com 5 (cinco) votos tendo 30 (trinta) contra. E não estou bem certo, aliás, se os 30 foram todos contra. Deve existir entre estes, ainda que poetas e escritores, uns líricos, outros muito racionais, quem conceba um voto por dentro e exerça outro por fora, ainda que esse “outro” seja, de ordinário, o que valha.

Deve haver, nesse meio, oh Germano, quem considere, pelo menos, o espírito de harmonia de sua crônica, do seu partido arquitetônico, desse seu apego à geometria da música (assim ouvida por Claudel, segundo um de seus versos) deve haver, sim, quem enxergue em tudo isso algum dom especial, em dado momento ofuscado pelo brilho de outras vitrines.

(Ângela Bezerra de Castro) A Sociologia do Romance , de Lucien Goldmann, é um texto já considerado clássico sobre a narrativa épica moderna....

"Ângela e a releitura viva"



(Ângela Bezerra de Castro)

A Sociologia do Romance, de Lucien Goldmann, é um texto já considerado clássico sobre a narrativa épica moderna. Sua força de convicção teórica não reside somente na coerência contextual, mas, sobretudo, em prodigalizar aplicações práticas, de férteis conclusões esclarecedoras. Não se trata apenas de uma formalização linguística, modo solene e técnico de apresentar uma leitura, a fim de granjear-lhe a credibilidade.

As categorias de Lucien Goldmann, seguindo a tradição do pensamento de Marx e Lucáks, são antes de tudo o resultado do esforço interpretativo no sentido de estabelecer os presumidos e perceptíveis vínculos entre a realidade social e a forma narrativa ficcional, que se consubstanciou na moderna expressão romanesca.

Por isso, aplicar as categorias de Lucien Goldmann a um texto é tentar, sobre o objeto de leitura, dupla compreensão: de sua estrutura intrínseca e da relação entre essa estrutura e a realidade sócio-econômica em que está inserida a obra. Atitude decorrente da tese central da Sociologia do Romance, segundo a qual “existe uma homologia rigorosa entre a forma literária do romance [...] e a relação cotidiana dos homens com os bens em geral; e por extensão, dos homens com os outros homens, numa sociedade produtora para o mercado”.

(Extrato de "Re-leitura de A Bagaceira", de Ângela Bezerra de Castro)

Nota: A referência à teoria de Goldmann como apoio teórico conferido por Ângela Bezerra de Castro, há mais de 40 anos, ao romance A Bagaceira, em sua primorosa releitura da obra de José Américo, imiscui-se fortemente à literatura atual. É evidente que, conquanto tida como condição teoricamente hipotética, essa influência do social sobre a expressão criativa não se limita às letras. Hoje, talvez mais do que nunca, é notoriamente exercida com a mesma força em outras formas de arte como cinema, poesia, música, pintura e até na própria arquitetura. desde que o homem se fez criativo. (Germano Romero)

(Germano Romero) Hoje, dia de seu aniversário do amado pai, revirei relíquias e recordações… Encontrei coisas tão lindas. Entre elas, um liv...

A fraternidade mais sublime

(Germano Romero)

Hoje, dia de seu aniversário do amado pai, revirei relíquias e recordações… Encontrei coisas tão lindas. Entre elas, um livro de meu avô, pai dele, comprado exatamente em agosto de 1923, quando ele tinha apenas 2 meses de idade: “O Espiritismo” - de Gabriel Delanne -, pensador e escritor francês que, ao lado de Camille Flammarion e Léon Denis, formou o trio de franceses que deu uma brilhante continuidade à obra de Kardec. O livro tem reflexões lindas. O português é bem antigo. Vejam essa:

“Os espíritos que se comunicam ensinam a fraternidade, o perdão das injúrias, a cordura para os amigos e para os inimigos. Dizem-nos que a única para se chegar à felicidade é a do bem, que os únicos sacrifícios que são agradáveis ao Senhor são os que fazemos sobre nós mesmos. Exortam-nos a velarmos cuidadosamente sobre os nosso atos a fim de evitarmos a injustiça; recomendam-nos o estudo da natureza e o amor dos nossos semelhantes, como os únicos meios para nos elevarmos rapidamente a um futuro mais brilhante. Longe de nos dizerem que a salvação é pessoal, nos fazem encarar a felicidade dos nossos irmãos como objetivo superior para o qual devem convergir todos os nossos esforços; enfim, colocam a suprema felicidade na fraternidade mais sublime – a do coração”

Curiosamente, os que desejam mudança anseiam ou fazem alguma coisa (qualquer que seja) pelo progresso da cidade, terminam, com os anos, pass...

Valham-me os oitis!


Curiosamente, os que desejam mudança anseiam ou fazem alguma coisa (qualquer que seja) pelo progresso da cidade, terminam, com os anos, passados para trás.

No tempo do bonde, quando se levava uma hora para, partindo do Ponto de Cem Réis, desembarcar em Tambaú, quanto nos penalizava aquele atraso! Além da Estação de Luz era só mato, capoeira, o uso humano do mundo representado por alguma casa de granja entre coqueiros e grandes roças de macaxeira. Para a direita, a Torre era um morro onde o primeiro plano urbano fez a curva. A maioria pagando foro da casa ou da choça e com a amplificadora que elegeu João Freire vereador e ensaiou Paulo Rosendo para o grande locutor que culminou na Tabajara. A Torre era uma Alagoa Nova sem a Yayá Tavares, a nossa rua central de lá. O pároco, padre Hildon, falava e agia no mesmo tom de Alagoa Grande.

Jaguaribe, que já tinha sido estrada dos macacos, era onde moravam os linotipistas, os chapistas de A União, os pequenos barnabés estaduais, municipais, os diaristas, extra-numerários, o casario em demanda da mata, separado da aristocracia residencial em ângulo que apertava o bairro entre Trincheiras e a João Machado. Revisor do jornal em 1951, era um tormento enfrentar a madrugada sem lua para chegar em casa, na Alberto de Brito. Não pelo assaltante comum, que era mais de galinha, mas pelos lobos e pastores alemães que ficavam guarnecendo os gradis senhoriais, as mansões dos donos do poder e da riqueza. Jaguaribe fazia extrema com essas duas linhas em ângulo reto onde se encastelavam os Ribeiros, os Nóbregas, Gusmãos ou mais notáveis da advocacia e da medicina. Na safra, era de onde vinha mais manga: os balaieiros chamados às janelas não para vender, mas para encher mais o balaio com a sobre arriada dos quintais.

Na Alberto de Brito, 41, a casa onde morei com minha mãe era separada da mansão que hospedou Getúlio, dos Amorins, por uma praça copada de oitizeiros. Eles continuam fiéis a mim e ao tempo do órfão de pai que aprendeu a ficar à sua sombra e a livrar da solidão muitas das suas dúvidas e perguntas. Ainda hoje os procuro. Ah quanto tempo, amigos! Eles e seus irmãos da Praça Pedro Américo; os de Tambiá, venerandos e saudáveis, já não dão na vista, o tráfego não deixa. (A gente tem que prestar atenção ao carro da frente, ao de trás, ao sinal, ao cinto de segurança, a vida fora de si, presa ao minuto, aos segundos.) Aí a cidade que vegetava em nós, que respirava conosco, já não é mais nossa, isto é, do nosso tempo. Já não botamos flores com ela. Nem a conhecemos mais, se é que o espaço que a urbe tomou do bonde, que fez do concreto a floresta, tem alguma coisa conosco…

Numa noite dessas, vinha de Intermares, onde fui deixar um amigo. De repente areio. Paro, pergunto ao homem da barraca. Quanto mais ele me diz mais fico sem saída – O sr. não é daqui? / - Já fui.

"Uma poesia de obstinada elaboração" (Ângela Bezerra de Castro) A aguçada consciência da construção poética confere um segu...

Sérgio de Castro Pinto



"Uma poesia de obstinada elaboração"
(Ângela Bezerra de Castro)

A aguçada consciência da construção poética confere um seguro desenvolvimento ao processo criativo de Sérgio, sempre marcado por uma forte coerência interna e por um nível de qualidade sem oscilações.

A originalidade acompanha todas as suas fases. Há sempre um novo olhar capaz de enxergar o inimaginável, de equiparar as realidades mais distintas. Não tenho dúvida em afirmar que a metáfora predicativa é o instrumento mais eficaz do seu estilo. Ela interfere, definitivamente, nas características mais marcantes desta poesia de obstinada elaboração. No absoluto poder de síntese, na capacidade de extrair do mínimo o máximo de significação e abrangência. No processo estru- tural que faz desabrochar o poema para explodir em substantiva conclusão.

Não é por acaso que Sérgio é profeta em sua terra. Construiu um lugar de destaque na cena cultural, desde jovem, e cada vez mais se faz marcante a influência que exerce na poesia aqui produzida.

O texto de Sérgio é intertexto para outros poetas que dialogam com seus temas e com suas concepções estéticas inovadoras.

Lembro aqui o querido Lúcio Lins com o título “As lãs da insônia”. E poderia multiplicar os exemplos para dizer que a liderança do poeta-professor tem sinal positivo. É a divisão que soma, que acrescenta e faz diferença de qualidade, no ambiente cultural contemporâneo.

(Extrato da apresentação do livro “Folha Corrida”, de Sérgio de Castro Pinto)


(Chico Viana) Por volta das cinco da tarde, Dalila entra no escritório e começa a olhar para mim. Não late, não gane, não esperneia. Apenas ...

Cheiros e choro



(Chico Viana)

Por volta das cinco da tarde, Dalila entra no escritório e começa a olhar para mim. Não late, não gane, não esperneia. Apenas espera. Se insisto em continuar diante do computador, ela eriça as orelhas numa repreensão muda. Caso eu continue indiferente, ameaça se baixar como se dissesse: se você não se levanta, faço aqui mesmo.

Esse argumento é decisivo. Levanto-me, passo a coleira em torno do seu pescoço, borrifo-lhe um pouco de repelente contra carrapatos e desço com ela as escadas rumo ao calçamento. Dalila é instruída, segura-se o quanto pode e só nas cercanias de um terreno baldio faz suas necessidades.

Envolvo a matéria num plástico e jogo-a num lixo próximo, longe dos olhos e narizes de quem passa. Gesto civilizado, que vi faz muito tempo num filme francês. Muita gente por aqui ainda não o copia; prefere fazer da rua privada de cães e acrescentar mais um argumento a quem não gosta dos bichos. Não é agradável recolher “aquilo”, é verdade; mas a civilização impõe deveres de que a gente não pode nem deve se esquivar.

Depois de aliviada, Dalila começa o seu passeio. Passa o dia em casa aguardando esses 10 ou 15 minutos de rua, quando pode percorrer um espaço maior e cheirar à vontade. Li certa vez que para tirar o estresse do cão não é preciso levá-lo para passear; basta fazê-lo cheirar um espaço que para ele seja novo. A diversidade de odores que encontra ali revigora-lhe a alma, a sensibilidade, o espírito, ou que nome tenha o centro de suas emoções.

Um palmo de terreno, monótono e insípido para nós, pode ser para ele uma excursão turística de cheiros. Seu olfato capta gradações que ultrapassam de muito os limites para os quais nossas narinas estão equipadas, os quais vão, grosso modo, do perfume francês a um desses esgotos de favela. O resto ignoramos.

Não temos, de fato, a hipertrofia de um sentido como a têm os cães em relação ao cheiro, ou as águias quanto à visão. Sentimos tudo dispersamente, por igual, o que não é vantajoso. Se nada chega ao intelecto sem passar pelos sentidos, talvez esteja nessa dispersão a fonte da nossa ignorância do mundo. Como captá-lo, como compreendê-lo, se o nosso cérebro padece de anemia sensorial?

Vejam se não tenho razão: Dalila me puxa pela coleira e vai sugando o chão com as narinas. Isso a impulsiona a ponto de quase me fazer deixá-la escapar. Parece um aspirador vivo na ânsia de absorver os menores resíduos olfativos da paisagem, e sairá dessa experiência plenificada. Enquanto isso, eu me desligo das sensações em volta pensando nestas besteiras que o leitor está lendo. Tudo para depois, friamente, redigir um texto diante do computador. Qual dos dois está certo?


(Milton Marques Júnior) O poeta Augusto dos Anjos anda a merecer maior atenção dos paraibanos. Há algumas semanas, na principal livraria da...

O Poeta e a Academia



(Milton Marques Júnior)

O poeta Augusto dos Anjos anda a merecer maior atenção dos paraibanos. Há algumas semanas, na principal livraria da cidade, não se encontrava e ainda não se encontra um único exemplar do Eu. Se a obra do poeta, sendo lida já é difícil, muito mais será se não o for. Às vésperas de fazer uma série de três conferências sobre a poesia de Augusto dos Anjos, não tenho como indicar uma edição. Some-se ao problema o fato de que só existe uma edição crítica da obra do poeta, datada de 1994, com texto fixado por Alexei Bueno, que, diga-se de passagem, não se tornou padrão para a publicação de novas edições. Como as edições críticas são sempre um processo, acredito que, possivelmente, seria hora de se pensar em nova lição filológica. Isto, no entanto, só seria possível se houvesse uma pesquisa continuada do assunto, o que não tenho notícia de que esteja acontecendo.

Falo desse assunto, de modo rápido e até superficial, em razão do espaço, com a esperança de que ele repercuta na anima e no animus daquele que venha vencer a eleição da próxima sexta-feira, dia 07, na Academia Paraibana de Letras, com justiça chamada Casa de Augusto dos Anjos, um dos maiores poetas brasileiros e do mundo.

Situada em uma geografia privilegiada, da Academia divisamos à direita as torres do Carmo; à esquerda, as torres da Catedral e à sua frente o belíssimo complexo arquitetônico do Cruzeiro e do São Francisco. Diante de tanta representação do divino e da verdadeira imortalidade, é hora de o novo acadêmico propor novas atitudes. A Academia já lhe proporcionou e aos demais a desejada imortalidade. É hora de perguntar-se a si e aos outros confrades, o que poderão fazer para retribuir tão grande honra a esta nobre Casa e, assim, conceder-lhe o selo da perpetuidade, como diria José Américo de Almeida.

Eu diria, para concluir, que a APL deveria abrir-se ao mundo externo, saindo de dentro de si mesma, revelando-se não uma entidade que abriga 40 imortais, mas uma instituição que atua na sociedade, com um trabalho que se reconheça como sócio-literário-cultural, destinado, por exemplo, a engradecer a memória e a obra de seu patrono, Augusto dos Anjos

“As pessoas morrem como viveram. Se nunca viveram com sentido, dificilmente terão a chance de viver a morte com sentido” E você viveu co...

Carta para Juca



“As pessoas morrem como viveram. Se nunca viveram com sentido, dificilmente terão a chance de viver a morte com sentido”

E você viveu com todos os sentidos . Na vida e na morte!
Dia 05 de Junho - já serão seis anos de saudades. Quanto tempo! E que tempo sem horas é esse! Parece que foi ontem.

Quando penso naquele domingo pela manhã logo cedo quando o médico me deu aquela notícia, a princípio indecifrável, sobre a sua pupila, irreversível. Ao mesmo tempo. Tudo parece longe. Muito longe.

Como te atualizo daqui? Nem sei por onde começar. Começo pela alegria. Seremos avós. Juntos com Fred e Adriana. Quarteto de afeto. Luísa está para nascer. Lucas? Focado e grávido. Nathália ? calma e plena. Eu? Assustada com tantas mudanças.

Sim! Nos mudamos. Daniel e eu. Novo endereço. Novos desafios. Nova geografia da vida. Estamos contentes muito. Com tudo isso. Mas no meu caso, existe um fio de tristeza da vida. Das perdas e danos. E nem é filme... Também me aposentei. O ócio é meu ofício. Mas trabalho muito.

O país? Você não acreditaria. Nem vou contar aqui, nem os céus dariam conta de tanta barbaridade. De balbúrdia! Imagine! estamos perplexos.

Mas olhe, estou lendo A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver, da Ana Claudia Quintana Arantes. Sim, como não sou religiosa, procurei ajuda no sutil, no simbólico, e esse livro fala da vida. Apesar do título e do assunto.

Estou sempre a rever aqueles 50 tons de tristeza. O sofrimento – seu , meu e dos queridos. As nossas impotências e fragilidades. As nuances da doença. A solidão. Os cuidados paliativos – que no meu desconhecimento, não me dava conta. E a morte. Aquela hora precisa que, eu não sabia se seria, nem quando seria. Um Boa Noite meio cabreiro e uma dor de cabeça final.

Sim! Eu estava anestesiada. Com uma muralha grande ao meu redor. De outra forma não teria suportado tanta desolação e medo. Protegi-me como pude: Batom, banho de sol, jornal, capela, olhar o céu, ir à farmácia, um café no térreo, uma espiada no facebook, coisas cotidianas para driblar esse mistério inadiável do fim, “..a experiência da dor passa por mecanismos próprios de expressão, percepção e comportamento. Cada dor é única.”

No livro, tenho me confortado em assimilar o que seja empatia, compaixão, medos tantos, cuidados, sobre “a morte – um espaço onde as palavras não chegam”; sobre o indizível “– é a melhor expressão da experiência de vivenciar a morte”. Sobre percepção, urgência, lucidez; sobre o “tempo – transformador não depende de duração”; comportamento na perda e a impressão finda; sobre espera, desejos, esperança; sobre prece, ética, introspecção; sobre o divino; sobre mergulhar profundamente na própria essência; sobre dissolução; sobre saúde, doença; sobre o sagrado, sopro vital, tristeza, agonia; dos fardos, das culpas, das ilusões, dos abandonos, e de saber que a morte não escolhe lugar.

“Acompanhar alguém nesse momento é a experiência mais íntima que podemos experimentar junto a outro ser humano...Estar no lado de alguém que está morrendo é desnudar-se também. Nessa experiência e companhia a alguém que morre, seremos verdadeiros oráculos!”, diz essa médica mais do que sábia e conhecedora dos cuidados todos com alguém que morre. E de alguém que vive.

Depois de tudo, e tanto tempo, e nesses seis anos de ausência, a alegria ainda é a maior ferramenta para se viver. E o amor, claro!

“A graça da morte, seu desastrado encanto, é por causa da vida”. Adélia Prado.

Nossa imensa Saudade! E imensurável amor!

– João Pessoa 01 de junho, 2019

Maria das Graças Santiago "um olhar poético sobre a melhor idade..." Não tive a crise dos trinta anos. Nem a dos quarenta, dos cin...

Nova fase



Maria das Graças Santiago

"um olhar poético sobre a melhor idade..."

Não tive a crise dos trinta anos. Nem a dos quarenta, dos cinquenta ou dos sessenta. Ao contrário, lépida e fagueira não me preocupava com a idade. Mas agora ela me chega com pompas e circunstâncias e com todos os seus achaques.

Já fui borboleta, deixando a crisálida para trás e volteando graciosa entre as flores. Depois virei beija-flor, adejando rosas e cravos dos jardins, aspirando seus perfumes e, por osmose pegando a beleza de cada inflorescência. Em seguida fui canário, canário belga, com canto mavioso e trinados mágicos cativando a tantos quantos me ouviam. Consciente da minha afinação eu gorjeava feliz acompanhando os passos ternos dos namorados ou o riso que vinha das praças. Agora? Agora tudo isto passou e entrei na fase do “con-dor”. Dói-me tudo com variações de tempo e de espaço. Um dia são as costas, outro as pernas, mais adiante o joelho e por aí vai num interminável e ostensivo desfile de pontos doridos.

- Você precisa fazer exercícios, é voz geral.

Faço Pilates quase todos os dias, mas não é suficiente. Aconselham-me caminhadas, hábito que tive durante a vida toda. Agora entenderam que devo também praticar musculação. É bem verdade que não tenho feito nada que demande muito esforço físico. Estou com fastio de me movimentar, o que não acontece em relação à comida para a qual o apetite está cada vez melhor. Colesterol, triglicerídeos, glicose todas as taxas enlouqueceram de uma só vez e resolveram num movimento orquestrado praticar uma total inversão alterando-se todas. Não sei o motivo.

Anos atrás, pessoas da minha idade ficavam em casa lendo, tricotando ou conversando com os vizinhos. Ninguém lhes exigia uma atuação de atleta nem exames de laboratório perfeitos como se tivessem vinte anos. Agora não se tem mais vizinhos para conversar porque mal conhecemos quem mora ao nosso lado. Em compensação tem televisão e celulares que alienam por igual os moços e os velhos. Ops, velhos não, é proibido falar assim. Em seu lugar apareceram os da “melhor idade” que são em tudo igual aos velhos de antigamente só que teimam em não reconhecer o fato. Ao que penso está explicado o porquê da minha crise nesta nova fase.

Marília Arnaud (Fragmentos de um Romance) “Por trás da lembrança mais devastadora da minha infância, daquela que lançou uma sombra sobre o m...

Suíte de Silêncios



Marília Arnaud
(Fragmentos de um Romance)

“Por trás da lembrança mais devastadora da minha infância, daquela que lançou uma sombra sobre o meu coração, fazendo com que ele nunca mais batesse no mesmo tom, escondem-se uma criança e algumas palavras. No rastro dessas, vieram outras, crianças e palavras, com pequenas variações, e olhares enviesados, silêncios e reticências.”

“Com a música, experimento um não sei quê de assombro. Não, é mais do que isso. Música me abre um rasgão no meio do peito. Papai me deu a música; mamãe, a saudade. Pai e mãe fazem doer; aprendi a gostar da dor. Então, fico quieta e ferida, toda ouvidos, descobrindo que a beleza às vezes faz sangrar.”

“Uma porta para o dia seguinte, para a manhã inimaginável não se abria, porque uma segunda-feira de dezembro se trancara por dentro e jogara a chave fora. Não se ousava bater à porta, nem sacudir a maçaneta, tampouco forçar uma janela ou abrir-lhe uma mínima fenda. Os prazeres, os mais breves, não tinham espaço no presente. E a vida fazia de conta que seguia em frente, sem seguir a parte nenhuma, conjugando-se no cativeiro do passado.”

“Então, você se fora, e eu me dava conta de que, enquanto vida houvesse, sempre se podia perder um pouco mais, sendo de todo inúteis os esforços para domar a dor. Adestrá-la, torná-la tolerável e até esquecida, porque outras perdas estavam a caminho, sem convite, nem cerimônia, todas pesadas, de lombo grosso, e vinham descabrestadas, soltando relinchos violentos, mostrando-se estéreis quaisquer estratégias para evitá-las.”

(Luiz Nunes) NA ESTRADA Na estrada, o desejo é dirigir Loucamente, com vontade de chegar, Sem sentir o risco de atropelar O presente, vendo ...

Três poemas



(Luiz Nunes)

NA ESTRADA

Na estrada, o desejo é dirigir
Loucamente, com vontade de chegar,
Sem sentir o risco de atropelar
O presente, vendo a morte do porvir.

Bem podia com a prudência dividir
O volante. Esta a forma de evitar
O pior, que consiste em não chegar,
Ou chegar, mas não ver-se acudir.

Expor-se ao perigo é não querer,
Nem a sua, nem a vida de outro ser,
Posto que, o egoísmo, desatento,

Como se no papel de guilhotina,
Decepa na estrada, em cada esquina,
Restando imprecação, cruz e lamento
(2011)


CORRUPÇÃO

Ela está no esporte, no turismo,
Na infraestrutura, no trabalho,
Para onde quer que vá, prefere o atalho,
O poder lhe aguça o dinamismo.
Nela, implícito, se ergue o banditismo
Dos que agem tendo em vista a vocação
Para assalto, onde houver repartição
Pública, como ocorre no presente,
No Brasil de Anchieta e Tiradentes,
E seu nome, já se sabe, é CORRUPÇÃO.
(2011)


VÍCIO INCONSEQUENTE

Aceso pelo vício inconsequente,
O fogo se alastra e sai queimando
Os órgãos que se vão debilitando,
Enquanto não se finam plenamente.

Muitos não dão conta, infelizmente,
Dos males, como tais, se propagando,
E pitam, mesmo assim, e vão pitando,
Pois viver lhes parece indiferente.

Preferem enfrentar o enfisema
No pulmão; um abscesso, o apostema,
É certo, amiúdam-lhes o pigarro,

Porém esses, a tudo indiferentes,
Insistem em tornar bem mais freqüentes
Os tragos cancerígenos do cigarro.
(2003)


Fé e encantamento lírico (Fragmentos de um discurso - Ângela Bezerra de Castro) Em minha visão particular, diria que Carlos Romero era o ex...

Fé e encantamento lírico



Fé e encantamento lírico
(Fragmentos de um discurso - Ângela Bezerra de Castro)

Em minha visão particular, diria que Carlos Romero era o exemplo de um homem feliz. Soube amar e ser amado. Além de nortear a existência por princípios que deram sentido e densidade a todos os seus dias. Podia descobrir, no menor fato do cotidiano, um grande acontecimento e assim alimentar constantemente sua alegria de viver. Sem dúvida, encontrou “a paz do coração” que, segundo Platão, “é o paraíso dos homens”.

Desde que o conheci, admirei nele essa postura sábia diante da vida. Refletida sempre no rosto iluminado por um suave sorriso de acolhimento, a sintetizar o propósito maior da transcendência de ser, no minimalismo de cada gesto.

A crônica se ajustou, com toda propriedade, à peculiar visão de mundo de Carlos Romero. Esse gênero jornalístico que, pela qualidade estética da linguagem, se equiparou à criação literária foi sua tribuna, a linha de frente escolhida para a constante participação na cena histórica e cultural onde imprimiu sem nome de cidadão e de escritor.

Carlos acumulava, em sua história de vida, interesses culturais diversificados. Além da dedicação ao jornal, onde sedimentou seu traço narrativo e literário, empenhava-se na divulgação da música erudita, sua grande paixão. Foram atividades de que não se afastou durante toda a existência.

Lembrar nosso confrade, enfatizando a crônica, se impõe como uma opção natural, tanto que esse gênero está incorporado a sua identidade.

Embora a experiência de Magistrado ou de Professor lhe possibilitasse outras formas de expressão, a narrativa curta, de grande poder comunicativo apresentava as características compatíveis com seu projeto existencial. Projeto que o escritor parecia reiterar a cada palavra: “Estou preso à vida e olho meus companheiros”. Projeto que, através da fé e do encantamento lírico, buscava alcançar “o tempo presente, os homens presentes, a vida presente”.

Recorro aos versos de Drummond para dizer, com toda convicção, que nosso cronista de Deus e da Natureza, incluindo também a humana, escrevia por uma necessidade vital. Seria um equívoco imaginar que sua intensa participação na imprensa decorreu da longevidade. A ordem é exatamente inversa. Estar sempre ligado à vida em todos os seus desdobramentos foi o segredo de sua resistência, a força que alimentava sua energia extraordinária.

Buscando uma sistematização do que Carlos publicou, podemos dizer que sua obra se organiza a partir de três matrizes ou motivações. As crônicas de viagem, (subtítulo usado por ele) que compõem dois volumes. O Papa e a mulher nua e Viajar é sonhar acordado. As crônicas de ensinamentos, de divulgação da fé que lhe norteava a existência e a visão de mundo, também reunidas em dois volumes, cujos títulos definem, objetivamente, os conteúdos: Lições de viver e O Evangelho nosso de cada dia. Por fim, existem as crônicas motivadas pelas sugestões do cotidiano que são inesgotáveis. De modo que os temas se multiplicam, conforme a riqueza da percepção e da sensibilidade do eu.

Pertence a essa natureza A Dança do Tempo, primeiro volume publicado pelo autor que expõe o comprometimento lírico, como essência de seu trabalho. É ele quem diz: “Estas crônicas são pedaços de mim. Escrevia-as por necessidade íntima de comunicação ou confissão.”

Simplicidade, clareza e humor, diria que sobre estes pilares se erguem as construções líricas de Carlos Romero. Com a mesma leveza das nuvens que desenham alegorias nos céus do verão.

Drummond, o grande poeta, que o distinguiu com mensagens de apreço, estabeleceu em pólos complementares a qualidade alcançada pelo cronista paraibano: “acessibilidade da linguagem a serviço de um pensamento lúcido.”As duas faces da moeda, para o projeto cultural e ideológico de nosso homenageado. Refiro-me à ideologia do aprimoramento espiritual, sua inspiração de vida.

Desde as primeiras publicações, a opção estética pela linguagem coloquial fixava as bases para a construção do estilo que iria caracterizá-lo. Lembrando sua formação jurídica e a prática no exercício da Magistratura, onde a rigidez formal é a regra, surpreende o nível de despojamento que atinge na expressão literária. Um exemplo bem convincente de quanto a marca distintiva do escritor exige consciência e trabalho.Com um tanto de vocação.

Carlos faz do coloquial e da oralidade recursos de aproximação e de convencimento. Transforma o leitor em interlocutor, com tanta espontaneidade que, às vezes, esquecemos o real da leitura e temos a sensação de viva voz, no apelo de seu vocativo. Se a crônica é de viagem, somos de tal forma envolvidos pelo movimento da descrição, pelo detalhamento do relato, que embarcamos com ele no percurso imaginário. E as realidades sentidas só com o imaginar parecem mais nossas do que a própria vida.

É esse o poder do escritor. Um poder demiúrgico. De encantamento através da palavra, sua ferramenta de magia. Capaz de criar realidades maiores que as da vida, como ensinava Juarez da Gama Batista, meu mestre imortal.

Outro recurso que se destaca, no estilo de nosso confrade, é a recorrência a elementos da natureza, tratados com tanta familiaridade, com tanta intimidade que são personificados, ganham alma e sentimentos nesse universo lírico. Assim, o mar espera por ele, reclama de sua ausência; para provocá-lo, o vento brinca com a folha de papel onde ele escreve; o sol vem visitá-lo, entrando sem pedir licença.

E que dizer das exuberantes castanholas que o encantavam? E do Flamboyant, com seu sorriso vermelho, que recebe ternuras de filho? Uma construção retórica tão intencional que o cronista chega a invocar Augusto dos Anjos em seu favor. Censura o pai e dá razão ao filho, personagens do Soneto A Árvore da Serra, como forma de reiterar a ideia de que as árvores tem alma.

Este é outro aspecto da originalidade e de Carlos Romero. Em vez da citação formal, índice de sapiência, a inclusão de seus poetas preferidos no desenvolver da crônica, com a informalidade da convivência mais natural. Drummond chega mesmo a sofrer reparo por falar na tristeza de Deus. Esse recorrente e criativo dialogo inclui poetas como Bilac, Jomar, Vicente de Carvalho, Perilo, Sérgio, Bandeira e outros mais com quem o cronista se identificava no compartilhamento de sua experiência de escritor.
Uma parte bastante significativa da produção literária do nosso homenageado tematiza o Evangelho, sem que se possa verificar qualquer mudança no estilo. Até podemos supor que a simplicidade e a clareza foram opções direcionadas a tornar possível o projeto maior do escritor: fazer a palavra de Jesus acessível ao cotidiano mais prosaico, através de sua crônica.

E aqui é necessário um esclarecimento. Simplicidade e clareza não são sinônimos de facilidade. São valores elevados, difíceis de alcançar porque pressupõem a depuração, a lapidação que descobre o mais precioso, o essencial.

Carlos vê e revê a realidade através do Evangelho. Não ratifica uma concepção conformista, pois quer fazer pensar. E se vale de um recurso socrático. Pergunta para inquietar. Na expectativa de que a reflexão possa levar à verdade.

- Por que não se fala em prostituto, somente em prostituta?
- Como acreditar que Deus criaria a mulher a partir de uma costela?
- Por que a preferência pelo Jesus crucificado, em vez do Jesus das criancinhas e dos lírios do campo?

Perguntas dessa natureza que implicam a contestação e a crítica de mitos e preconceitos.
Este é Carlos Romero, o confrade que hoje reverenciamos.

Imortal pelo exemplo de viver em absoluta coerência com suas convicções. Pela intensa participação na realidade cultural de seu tempo. E pelo estilo criado para a crônica, como expressão de sua individualidade e visão de mundo.

(Fragmentos do discurso da Profª Ângela Bezerra de Castro em homenagem póstuma da Academia Paraibana de Letras ao acadêmico Carlos Romero)



O Gato e o Poeta (Sérgio Castro Pinto) O gato faz do poeta gato e sapato: foge do poema para o telhado. paciente, o poeta atrai o gato com o...

O gato e o poeta



O Gato e o Poeta
(Sérgio Castro Pinto)

O gato faz do poeta
gato e sapato:
foge do poema
para o telhado.

paciente, o poeta
atrai o gato
com o novelo
dos vocábulos:


puxa-o pelo rabo
bem devagarzinho…
e o que era rabo
vira focinho.

o poeta, satisfeito,
dá algumas voltas
numa chave de ouro
e o aprisiona
dentro do soneto.

Mas o astuto gato
não lhe ensinou
o pulo do gato
e de novo foge
do poema pro telhado.

pena que, nessa fuga,
os faróis de um fusca
acendem e ofuscam
os olhos do gato
que foscos se apagam
na escuridão do asfalto.

ah, insensato gato,
não estarias melhor
prisioneiro do poema
do que sem as sete vidas
que fogem, uma a uma,
no leito da avenida?

é quando, com um fio de miado
– mas sem perder o da meada -,
o gato lavra o seu protesto:
“- valeu a pena, poeta,
fazer do seu poema
o meu cemitério?
por que não, poeta,
um poema-telhado,
cheio de vida e de gatos?”

e nada mais disse nem lhe foi perguntado.

(Sérgio Castro Pinto)