Um sociólogo francês, Michel Maffesoli, afirma que o cotidiano é a fonte de todo conhecimento. Para mim, particularmente, é fonte ...

Cotidiano e vida


Um sociólogo francês, Michel Maffesoli, afirma que o cotidiano é a fonte de todo conhecimento. Para mim, particularmente, é fonte de vida. A experiência de 50 anos como repórter leva-me a esta constatação. Sou um eterno “repórter”, título carinhoso outorgado pelo saudoso Carlos Romero quando defendia meu pão diário como aprendiz de fotografia.

Ser chamado precocemente de “repórter” por Dr. Carlos Romero – Juiz de Direito, Professor Universitário e Escritor – foi o maior elogio que poderia receber. O mesmo foi a primeira pessoa notória em João Pessoa a me acolher com sua serenidade e sua humanidade.

Já escrevi várias vezes sobre a felicidade que tinha em ser cumprimentado por Dr. Carlos: - Como vai repórter? É que sentia nesse gesto simples, um mistério insondável do destino, um fato determinante que catalisou o metabolismo da minha carreira jornalística.

Sou do interior e fui tangido para a capital pela necessidade. Na minha cidade ninguém acreditava em mim, até mesmo alguns familiares que debochavam quando dizia que iria ser locutor, fotógrafo e repórter. A labuta era grande e o trabalho árduo e pesado. Daí esse sentimento místico e até um pouco supersticioso de que Dr. Carlos Romero profetizou-me a profissão dos meus sonhos.

Quando menos esperei estava no inesquecível jornal O Norte, inicialmente como fotógrafo e, depois, como repórter-fotográfico propriamente dito, aquele que batia as fotos, redigia a matéria titulava e fazia tudo que a redação me solicitava. Sou o pioneiro e o único nessa modalidade, pelo menos, na Paraíba. Fazia “carreira solo”, ou seja, não necessitava de pauta, a não ser em casos excepcionais.

O expediente iniciava às 14 horas e não tinha hora para terminar. Chegava às 13, tomado banho e cheiroso a “Lancaster”, ou “Toque de Amor”, da Avon. Batia o ponto e saía da avenida Pedro II direto para o velho prédio da Prefeitura, no Varadouro. Em seguida ia para Central de Polícia e, depois, para o Centro Administrativo. Isso a pé e carregando uma bolsa pesada com uma câmera fotográfica, um flash e um gravador. Com o tempo isso me deu uma escoliose que a tenho como troféu da juventude.

Ao terminar a coleta das notícias voltava para a redação, revelava os filmes, copiava as fotos e redigia o texto. Achava mágico andar a pé sorvendo a beleza dos velhos casarões da avenida Trincheiras e bendizia uma profissão que me pagava para “andar”. Essa felicidade era maior quando era designado para viagens pelo Estado e pelo país. – Quem já viu ser pago para viajar e luxar? Era a rotinização do cotidiano do inesperado. De repórter-fotográfico cheguei até a editor, em rádios e em outros periódicos.

O tempo foi mostrando que deveria optar por uma carreira mais sólida o que me fez cursar faculdade e, depois, seguir a docência universitária, na inesquecível Universidade Federal da Paraíba. Hoje me chamam “doutor”! No entanto, o que me deixa mais feliz é quando, igual a Dr. Carlos Romero, chamam-me “Repórter”!.


Josinaldo Malaquias é jornalista, advogado e doutor em sociologia pela UFPB E-mail
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