A história se sabe. Mozart possuía o gênio, Salieri apenas o talento. Mozart, sendo gênio, nem se dava conta de sua genialidade, que pa...

Mozart e Salieri


A história se sabe. Mozart possuía o gênio, Salieri apenas o talento. Mozart, sendo gênio, nem se dava conta de sua genialidade, que para ele nada custava, por ser absolutamente natural; Salieri, sendo apenas talentoso, ralava para cultivar seu pequeno engenho, e percebia a grandeza do outro, e a invejava, querendo-a, sem esperanças, para si. Mozart gozava seu gênio e ria sem motivo, como um louco; Salieri, cara amarrada, gemia suas limitações e sofria sua angústia em silêncio. Mozart, celebrado universalmente; Salieri, apenas lembrado como um apêndice acidental do outro.

O filme “Amadeus”, como é sabido, retrata a história de ambos os compositores, ressaltando Mozart, é claro, mas oferecendo ao expectador a oportunidade de refletir sobre o drama pessoal de Salieri, sua tragédia, sua maldição. E aí, milagre da arte, a pequenez de Salieri se impõe à nossa atenção, porque é nela que se revela mais nossa humanidade e não na genialidade de Mozart, privilégio de poucos, mais deuses que homens. Admiramos Mozart, mas nos enxergamos em Salieri. Mozart, tão alto, resta distante; Salieri, ao rés do chão, ao nosso alcance.

Pessoalmente, demorei a descobrir Salieri desse ponto de vista. No começo, talvez como todos, ou como a maioria, só tive olhos para Mozart, para sua excepcional aptidão, para seu dom quase divino. Sua luminosidade era tanta que ofuscava tudo e todos ao seu redor, inclusive Salieri, pobre mortal a contemplar o Olimpo, consciente de que não podia entrar naquele reino. Mas felizmente o tempo trouxe, ainda a tempo, a compreensão desse sofredor e, com ela, a identificação com sua dor tão humana. Salieri finalmente conquistou um lugar no altar de minhas devoções.

A genialidade, sabemos, é bela e extasiante, não há como não admirá-la como um prodígio sobre-humano. Mas por ser um dom, uma graça, é como se ela fosse de certo modo gratuita, revelando-se quase sem esforço por parte de quem a possui. E, paradoxalmente, essa gratuidade diminui sua grandeza, porque esta, cremos, só é verdadeiramente valiosa quando conquistada com esforço e não apenas recebida, como o maná que caía do céu para os judeus no deserto.

Hoje aprecio melhor Mozart e Salieri. Mozart diminuído? Jamais. Apenas Salieri tornado maior do que inicialmente imaginei. Do mesmo modo, muitas outras coisas e pessoas com o tempo aprendi a compreender e avaliar melhor. Relativizando para melhor ajuizar e encontrando por baixo do corriqueiro, do trivial, riquezas ocultas, insuspeitadas. Mozart está às vistas, Salieri precisa ser descoberto. Mozart é um super-homem, Salieri é nosso irmão.


Francisco Gil Messias é ex-procurador-geral da UFPB e escritor E-mail E-mail
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