Tenho minhas dúvidas se Ascendino Leite e Ariano Suassuna mantinham um bom relacionamento literário. Tive essa sensação quando encontrei ci...

Ilusões e vaidades


Tenho minhas dúvidas se Ascendino Leite e Ariano Suassuna mantinham um bom relacionamento literário. Tive essa sensação quando encontrei citação de Ascendino no livro “Visões do Cabo Branco”, com insinuação que leva a pensar nessa possibilidade antagônica entre ambos. No “Caderno de Confissões Brasileiras”, editado por Geneton Moraes Neto, em 1983, Ariano fala da censura a grupos de teatro entre o final dos anos de 1950 e durante a ditadura militar de 1964-1985.

No Brasil, um gênio é impossível. Precisará mil anos, antes que surja um. Mil anos de decantação. Mil anos de história
A festejada peça de teatro “Auto da Compadecida”, de Ariano, que ganhou Medalha de Ouro do Primeiro Festival de Teatro de Amadores Nacionais, no Rio de Janeiro, em 1957, sofreu censura na sua apresentação em Recife e, novamente quando voltou a ser encenada no Rio de Janeiro, no tempo da nascente ditadura.

A “Folha da Tarde”, de São Paulo, que no Rio era comandada por Ascendino, publicou matéria no dia 26 de novembro de 1959, com o seguinte titulo: “Infiltração Comunista no Teatro – Determinado Maior Rigor da Censura”, dizendo no texto que em cumprimento a despacho do diretor da Divisão de Diversões Públicas da Secretaria de Segurança, a censura deveria ser intensificada. Durante muito tempo Ascendino trabalhou no setor fiscalização deste órgão, lendo e opinando sobre peças de teatro. Na época, o Cardeal Jaime de Barros Câmara, do Rio, havia denunciado que a área cultural apoiava implicitamente o regime russo, citando Ariano como um desses possíveis colaboradores.

ariano suassuna
Ariano Suassuna
Quando li isso, então recordei que Ascendino havia comentado conosco certa vez que, naquela época, apenas “dava alguma opinião sobre peças de teatro, e que não era bem uma censura”. Tentando juntar as peças sobre o que ele escreveu e o que Ariano abordou na entrevista a Geneton, fui ao texto no “Visões do Cabo Branco”, que questiona Ernani Sátyro porque considerava Ariano um “gênio”.

Para melhor juízo, transcrevo o texto de Asdendino:

“Decididamente assombroso o juízo de Ernani sobre Ariano Suassuna:

- É gênio!

Tom exclamatório, repisado:

- É o que digo: gênio!

Acho um pouco forte para o autor de apenas umas três ou quatro peças de sucesso. Talentoso, sim. Brilhante, sim. Extraordinário, concordo. Gênio é demais. Gênio é Dante. É Goethe. É Camões. É Cervantes e Montaigne. No Brasil, um gênio é impossível. Precisará mil anos, antes que surja um. Mil anos de decantação. Mil anos de história”.

Para ofender Dante, Nietzsche disse que este era uma hiena que escreveu sua poesia em tumbas
Ambos já fizeram a passagem para a outra dimensão da vida, por isso não podem confirmar, mas os textos levam a crer num distanciamento entre ambos. Coisa comum entre os artistas. Sempre houve discordância histórica entre escritores.

Para não ir muito distante no tempo, basta citar os entreveros entre Gabriel García Márquez e Vargas Llosa. Discussão acalorada aconteceu entre Ferreira Gullar e Augusto de Campos, Paul Verlaine e Arthur Rimbaud não ficou por menos. William Faulkner dizia que Ernest Hemingway nunca usou uma palavra que levasse o leitor ao dicionário, e Hemingway deu o troco: “Ele acha que grandes emoções vêm de longas palavras”.

Farpas também ocorreram entre Machado de Assis e Eça de Queiroz. Gore Vidal disse que Truman Capote fez da mentira uma arte, uma arte menor. Ai recebeu o troco de Capote, dizendo que ficava triste porque Gore respirava todo dia. Para ofender Dante, Nietzsche disse que este era uma hiena que escreveu sua poesia em tumbas.

O relacionamento entre escritores ou artistas nem sempre são razoáveis. Tudo são vaidades e ilusões.


José Nunes é poeta, escritor e membro do IHGP
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