Ele acordou num pequeno corredor, estranho, sem teto. Ainda meio desorientado, ergueu-se, cambaleante, pé ante pé em direção ao nada.

Labirintos

labirintos adriano leon ambiente de leitura carlos romero

Ele acordou num pequeno corredor, estranho, sem teto. Ainda meio desorientado, ergueu-se, cambaleante, pé ante pé em direção ao nada.

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Sim, havia duas possibilidades naquele vão: seguir a trilha em frente ou retornar. Para cima, um azul ponteado de gotinhas de prata, No chão, restos de vida vegetal, pedregulhos roliços em meio a uma poeira tênue como nuvem rasa. Nas paredes, pedaços de rebocos erodidos pelo tempo, inscrições e sinais em várias línguas e letras, anagramas e ideogramas em meio a desenhos deixados pela metade.

Caminhando em frente, o corredor se abria em dois. Depois ele percebeu que as bifurcações eram os mesmos lugares, com desenhos diferentes, mas talvez eram iguais em algo, frases soltas que se completavam talvez numa nova bifurcação. Eram tantos os caminhos...

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Após 487 dias vagando, ele chega a um portal no qual estava escrita a palavra Verdade. Aquele era, talvez, o último caminho e quiçá a saída. Adentrou com certa ansiedade típica de quem adentra nos mistérios cegos da Verdade. Era um imenso quarto sem mobília alguma. Sem janelas, mas com aquela única porta. Num canto do quarto havia uma dúzia de folhas rasgadas de um livro. Como tudo era mistério e charada, talvez alguma pista. Folhas soltas de muitos livros e nenhum. Fragmentos de pensamentos talvez de quem ali já um dia esteve.

Desolado, ele se volta para a mesma porta que um dia representou a entrada para um sonho de liberdade e agora significava a saída para o mesmo mundo, o mesmo, o mesmo, mesmo. Acima da porta estava escrita a palavra Mentira.

Verdade e Mentira. Partes de um mesmo portal, se embaralhando no mundo das percepções de dentro e de fora, do ali e do alhures. Mentiras que ao invés de profanar uma verdade, fazem como que se perceba que há uma na outra, pois toda verdade já foi uma mentira, pois toda mentira quer parir uma verdade.

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O labirinto o fez perder-se dentro de si. Porque ele era, afinal, um labirinto. Talvez todos nós sejamos um pouco de labirinto. As bifurcações que a vida nos aponta são as mesmas portas fechadas que ora nos barram, são as mesmas portas abertas que ora nos acolhem. A vida é labiríntica. A porta que se fecha nos últimos segundos do ano que se foi é a mesma porta que se abre para o ano que virá. E assim, repetimos os anos, as horas, os segundos. Repetimos nossos rituais diários, enquanto o Tempo nos fornece os solstícios e equinócios, que também são repetições do mesmo.

Mas na repetição há a fissura, o que escapa ao ato de repetir-se. Como um desejo que não nos cessa, ele emudece quando satisfeito. Todavia volta logo sob forma de outro desejo, que se repete, que nos dá a sensação de que tudo será diferente, que tudo mudou.

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Ele passou a gostar do labirinto e já nem mais sentia aquela sensação de já ter passado por aquele corredor, assim como vem a primavera anunciando o verão e escapando dos silêncios friorentos do inverso. A vida se repete. A criança que brincava com fazimentos se repete no velho que contempla a vida com sabedoria. Por esta razão, ser jovem é agônico. Um período em que nos recusamos tanto em abandonar nossa criança quanto em atravessarmos a ponte para a maturidade. Ser jovem é ser cabo de guerra. E ele, no caminhar, já mais nem sabia se era jovem ou velho, se corria pelos corredores como uma criança desembestada por vida, ou se arrastava seus passos pensando ser outros os mesmos e antigos caminhos.

De que valeriam a ele seus sentidos, talvez sua bússola? Onde seriam os pontos da rosa dos ventos num labirinto? Haveria um norte, um nascente, um sul, um poente? Tudo num labirinto se mistura como os passos de quem nele se encontra.

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Ao pensar no Norte, ele vislumbrava corpos vestidos de nus, de seios à mostra, de esmaltes incolores e quem sabe janelas ruborizadas como aquelas de um antigo filme de Almodóvar, cujo nome já se perdera em tantos vieses de trilhas. Ele temia o Norte pelos seus demônios, pelo falso doce daqueles néctares. Quando em sonhos, andar para o Norte era como pisar num recife de esteiras de corais cortantes. É ao Norte que se partem e naufragam os corações.

Quanto ao Leste, trovejavam ruídos despidos de sons. Ecos de nada. A voz da lua em noite calma. A lua e suas pratas reluzentes e frias. Andar para o Leste era se arvorar em lamaçais secos e sedentos de alguma fertilidade. É ao Leste que se erguem e destroçam-se ilusões.

Do Sul erguiam-se altas montanhas. Montanhas de brumas e de rochas prenhes de rolagem, esperando Sísifo toda noite. Do Sul vinham bocas que se molham, porém nunca se encontram. Dos paredões, ecos de antigas guerras ceifadeiras da sagração da paz. É ao Sul que os elementos se encontram, na água corredeira que sagra, na terra que ao todo sustenta, no ar que é o sopro da vida e no fogo que a tudo transmuta.

E a vida de certo tomba-se repetida e lerda, recobre-se de novos fios em velhos teares
Quando ao Oeste, memórias de umbigo, de curvas, de mãos que percorrem a carne na tessitura das paixões. De lá chega o tédio, como espinho de ouriço cravado no pé; de lá chegam os estilhaços das paixões vulcânicas; de lá chega o tempo da mansidão, daquelas aquarelas molhadas com seus pasteis escorrendo em formas disformes. Não se sabe ao certo Oeste aonde é. Às vezes, neve tropical bendita e febril, outras, braço de mar em mangue lamacento.

Assim ele vagava seus dias.

Valia-se do Oeste qual vela em vento e rio sem mar. Valia-se do Norte e suas diásporas breves. Valia-se do Leste que pensava ser real. Valia-se nunca do Sul.

E a vida de certo tomba-se repetida e lerda, recobre-se de novos fios em velhos teares. A vida é labiríntica, ele repetia.

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O labirinto também um dia se findará no que a palavra define por saída. Ele viu aquela passagem única, talvez passagem de miragem. Passagem para um mundo outro, talvez novo. Arrastando sua bota surrada, ele resolveu atravessar a saída. Uma porta contígua a outra, sem trincos ou ferrolhos. Do outro lado um corredor com mais passagens, como um espelho diante de outro.

Coçou um dos bolsos e pegou seu talismã. Uma sensação de liberdade o envolveu. Para nenhuma direção apontava seu talismã.

Quem vive num labirinto é faminto de caminhos.


Adriano de Léon é doutor em ciências sociais, professor e escritor
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