Recostado num balcão bolorento, Luís terminava o último trago daquela bebida barata. O ar estava enevoado de fumaça e de um ar abafado, ar ...

Naufragados


Recostado num balcão bolorento, Luís terminava o último trago daquela bebida barata. O ar estava enevoado de fumaça e de um ar abafado, ar de maresia misturado com cheiro de roupas suadas. Luís esperava há dois dias pela permissão de embarcar.

Havia mais homens antes naquele bar. Eram os maquinistas, os homens dos porões daquele que seria o grande sonho de Luís e talvez de quase todos que ali se encharcavam de desejos impossíveis. Um cachorro magrelo tomava conta de seu dono, cujo sono de bêbado lembrava mais um cadáver quase morto, quase vivo. As meretrizes já haviam se retirado também. Estas, as quais nem o sono é um direito, faziam parte daquele cenário de noites perdidas. O dono do bar sofria de insônia crônica, o que era perfeito para gerenciar o negócio.

O mundo das aparências é seu encantamento e, ao mesmo tempo, sua derrota
Há poucos metros ficava o cais do porto. Nada sossegava por ali. Era sempre um indo-e-voltando de gente, de cargas, de negociatas. E ao longe, majestoso e imponente estava ele. Ele que era o sonho de Luís durante uma vida. Ele que era a causa da vida sem prumo de Luís, que era mais do que um sonho, era algo como um amante, daqueles que nos faz perder o rumo e o prumo, daqueles que nos prometem tudo numa noite e sai sorrateiro pela madrugada, levando inclusive nossos sonhos. Ele pairava ali. Tinha, pelos cálculos precários de Luís, uns cinco andares. No breu daquele cais, brilhava feito diamante raro, aqueles diamantes de filme de roubo que brilham mesmo no escuro. Ele tinha luz própria, como uma cidade de porte médio. De longe, Luís via os quadradinhos enfileirados de janelas, umas acesas, outras apagadas, desenhando um retalho de possibilidades e devaneios. Apesar de gigante, boiava nas águas do cais com tamanha graça, como se fosse feito de bolhas flutuantes. A cidade dos sonhos de Luís estava ali, parada, nem boiando, mas até voando tal qual uma imagem do paraíso durante uma aula de catecismo.

Ele aproximou-se e seu corpo por um momento tremeu. A sombra daquele gigante sufocou Luís, agora pequeno qual devoto diante das enormidades das catedrais medievais.

Passam a cultuar novos deuses, experimentar espaços de um mundo artificialmente criado para eles
Dois dias antes, os homens contratados para conduzir a casa das máquinas do gigante do mar haviam entrado. Mais um dia e chegaria a vez de Luís embarcar, como outros ajudantes e trabalhadores que viveriam naquela ilha flutuante por quase 8 meses. Eram homens e mulheres sem muito estudo, uns desvalidos da cidade que já nem mais suportava suas presenças nefastas.

Numa quinta, lá pelo sol do meio dia, embarcam Luís e uma tropa de trabalhadores e trabalhadoras com suas maletas minúsculas, suas trouxinhas de pertences sem valor, uns sacos a tiracolo com talvez alguma foto de quem ficaria sempre vindo ao cais na esperança do desembarque que talvez nunca existisse.

Havia dois conjuntos de escada. Um superior, com braçadeiras e madeira envernizada, retorcida como uma escultura e plataformas firmes de metal com setas emborrachadas. Luís seguiu por outra escadaria, de madeira e cordoaria, balançando feito corda bamba aos sons de estalidos de madeira cedendo, como a corda bamba da vida daquelas pessoas que insistiam em se equilibrar dos horrores do mundo.

Chegando a uma portinhola de cerca de um metro e meio, a fila indiana segue adentro da barriga daquela baleia imensa, como escravos de Jó, como muitos Jós, cuja paciência passava pela prova de serem engolidos ainda vivos. Lá dentro a superfície metálica era firme, firme como terra continental. As botinas dos homens pisavam num ritmo sincronizado de soldados. As mulheres arrastavam seus sapatos de meio salto, de vernizes arranhados pelo tempo e pela labuta diária. Havia umas poucas crianças, de cabelos meio desgrenhados, dentes sujos e olhos esbugalhados também em marcha para o destino que nunca escolheram.

A classe média, a de Luís, nos seus malabarismos para viver quem dera a vida do convés, dos jantares com o capitão, vendendo a alma ao diabo
Luís e mais sete homens ficaram numa cabine minúscula. Não havia aquelas janelinhas quadradas que ele vira no cais, como janelas de casinhas de bonecas. Nem mesmo as tradicionais janelas redondas daqueles barcos que se vê em fotos e nas películas de cinema. Cheirava a mofo e maresia. Nas camas de metal havia um azedume nos colchões já deformados por tantos corpos. Não havia banheiro ou mesmo latrina. Ficava fora, no final de um corredor longo e escuro. Com Luís, garçons, serviçais de limpeza, pessoas de serviços gerais, encanadores e eletricistas, copeiros e encaixotadores. Também, noutras cabines, ferreiros, ajudantes de ordem e até mesmo homens marrentos cuja função era de lidar com cargas, com pesados sacos e caixotes empilháveis. Regras duras e passíveis de punição e até mesmo prisão, como beber, fumar e fornicar.

Luís não viu os homens da maquinaria que haviam embarcado dois dias antes. Descobriu, então, que os lastros daquele navio eram quase incomunicáveis. Havia, no final da popa, uma escadaria que dava acesso aos lastros inferiores e superiores, porém trancados com fechos de alta segurança. De modo que, em cada lastro só trafegavam pessoas de um mesmo grupo de trabalho. Após mais ou menos uma semana, os viajantes começaram a embarcar. De uma janelinha, quase uma fresta, depois de uma rajada de fogos, Luís viu embarcar lindas senhoras com bolsas de mão as mais diversas, crianças gritando com bonecas e carrinhos e homens de terno escuro. Fumavam charutos e eram recebidos com uma taça de champagne brut para elas e um raro bourbon de North Carolina para eles.

Sentem-se, acima de tudo, merecedores desta vida farta, das riquezas conquistadas com muito trabalho e muitos empregos criados
Seguiu o monstro singrando mares. Do convés, à beira de um conjunto de piscinas, os nobres tomavam sol, olhavam seu ocaso e nascimento depois de festas sem término. Circulavam livremente pelas áreas abertas, e também pelos salões de festa, salões de jantar. A bebida e comida eram livres.
No lastro superior ao de Luís, um lote enorme de trabalhadores fazia a cozinha funcionar 24 horas. Havia, entretanto, uma regra de ouro: nada de comer o que faziam. Havia uma refeição padrão, para todos os trabalhadores do navio, uma marmita que se repetia dia sim, dia não.

Na sua cabine sonhava Luís com dias melhores. Seu sonho era o sonho de convés, o sonho de pertencer aos espaços livres e de finalmente ver o navio cortando o mar, como faca afiada e veloz. Luís nunca subiu ao convés. A bem da verdade, subiu ao setor das cabines quando uma senhora muito agitada se viu indignada com o seu vaso sanitário entupido. Luís entrou naquela cabine enorme, num banheiro talvez melhor do que todas as casas nas quais ele havia morado. A senhora gritava de pavor de ver aquele vaso entupido. Gritava que havia gastado uma pequena fortuna para passar por tamanho constrangimento. Luís calça uma luva e retira do vaso algumas folhas de uma carta que ela jogou ali, sem perceber o perigo do entupimento. Ele retirou os pedaços de papel enquanto ela o ordenava que levasse aquele lixo dali e jogasse em qualquer lugar. Nenhum agradecimento. Apenas uma nota deixada num criado mudo para que ele pegasse e enfim deixasse o lugar.

A história de Luís era a história de tantos navios, de tantos Luíses. Barcos velozes e inafundáveis. Era também a nossa história cotidiana.

Somos um Titanic, barco de grande modernidade, veloz e insubmergível. Arranhado pelas lâminas de um bloco de gelo, afunda lentamente. Os pobres operários das caldeiras, que mantinham vivo o navio perecem primeiro sem nem saber que o navio começaria o início do seu fim. Ao adernar, a água invade primeiro os lastros inferiores. Morrem também primeiro os trabalhadores das máquinas, os homens sujos de óleo e azeitados dos combustíveis tóxicos.

Este agora se transformou num túmulo dos desvalidos, dos que nem gritar puderam pelo sufocamento das águas
A classe média, a de Luís, nos seus malabarismos para viver quem dera a vida do convés, dos jantares com o capitão, vendendo a alma ao diabo, no naufrágio, se pisam ensandecidos para um lugar nos botes salva-vidas. Vendem-se como escravos por um lugar ao sol. Desprezam os andares de baixo porque também temem que algum dia, pelos reverses da vida, caiam de sua posição e virem a ralé. Participam de negociatas, de conversas de entremeios, fazem pequenos favores em nome de pertencer aos estratos superiores. Alugam roupas para aparecerem bem, quem sabe n´alguma festa com o capitão. Sua visão é sempre do externo às suas vidas, dos sonhos de ter sem precisar ser. O mundo das aparências é seu encantamento e, ao mesmo tempo, sua derrota. Como capitães do mato, desconhecem seu passado, renomeiam-se com outros sobrenomes, negam suas origens e família. Inventam brasões e histórias de sagas de colonizadores. Quando conseguem alguns tostões, vestem-se de ricos, como máscaras. Com tudo que o dinheiro pode lhes dar, sofrem nas mãos dos nobres, pois não passam de pobres fantasiados de ricos. Passam a cultuar novos deuses, experimentar espaços de um mundo artificialmente criado para eles. Também se afinam com ideias as quais nem sabem de onde vieram e nem para onde os levarão. Deparam-se com a bruta realidade de que não há lugares para eles nos botes salva-vidas. Atiram ao ar joias falsificadas e maços de dinheiro. Para nada. Os lugares dos botes estão marcados desde sempre para aqueles cujo direito é quase um dom.

O alto estrato, que desconhece quaisquer lugares que não as piscinas, convés e salões de luxo, ocupa os primeiros lugares nos botes salva-vidas, enquanto uma orquestra toca seus acordes finais. Nos botes, rezam para seu deus agradecendo pela vida e observando os urros de morte de quem não teve lugar nos botes-privilégios. Chegam até a baterem com os remos nas cabeças dos que ainda nadavam por perto daqueles botes do merecimento. De longe observam o afundamento do nunca-afundável. Sentem-se ungidos, merecedores de tamanha bênção. Sentem-se, acima de tudo, merecedores desta vida farta, das riquezas conquistadas com muito trabalho e muitos empregos criados.

Somos um Titanic, barco de grande modernidade, veloz e insubmergível. Arranhado pelas lâminas de um bloco de gelo, afunda lentamente
No romantismo das estrelas no céu sem nuvem, a água fria do Atlântico Norte serve de algoz para os que ficaram no navio. Este agora se transformou num túmulo dos desvalidos, dos que nem gritar puderam pelo sufocamento das águas. Outros Titanics seriam construídos na América, terra do futuro. Outros bravos trabalhadores construiriam um grande navio no qual nunca iriam nem ao menos ver zarpar. Outros Luíses embarcariam, mas na categoria de sub-humanos, de homens-máquinas. Veriam a luz do sol de quando em quando no desembarcar naqueles portos que nem se sabia a que país pertenciam. Nem chagariam a conhecer a cidade. Ficariam nos portos, nas zonas de prostituição, com aquelas meretrizes, também não-gente. Se embriagariam pela vida e pela morte, como ovelhas antes da degola. Embriagados pela noite e pela sombra lancinante daquele navio que os tragaria de volta aos porões da miséria


Adriano de Léon é doutor em ciências sociais, professor e escritor
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  1. excelente construçáo narrativa. Náo chega a ser uma analogia porque é um apontamento direto do horror capitalista.

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    1. Muito grato pela sua leitura. Seus textos são de um extremada realidade, mas com muito mais poesia.

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