1 praça antenor navarro a cidade subiu a ladeira com jeito de quem ia ali perto e voltava mas criou asa voou e nunca mais deu o ar...

Passeio pela aldeia em dez estações


1
praça antenor navarro

praca anthenor navarro
a cidade subiu a ladeira
com jeito de quem ia ali perto
e voltava
mas criou asa
voou
e nunca mais deu o ar da graça

2
praça joão pessoa

praca joao pessoa
no centro da praça
que os poderes humanos reúne
o austero presidente em bronze
morre todo dia outra vez
- de vergonha

3
trincheiras

os sobrados mortos
as casas arruinadas
são a prova viva
de que dessa vida
não se leva nada

4
jaguaribe

em suas ruas mais calmas
o progresso não mudou nada
e as famílias inda põem
cadeiras na calçada

5
cruz das armas

o tempo passou sem que nada ocorresse
nem dentro nem fora do ordinário
que alterasse seu irresistível
destino proletário

6
lagoa

Lagoa joao pessoa
as palmeiras imperiais permanecem
como sentinelas de um museu:
guardam memórias que restem
do que abaixo delas
se deu

7
roger

joao pessoa
a paz do colégio de freiras
se espalha pela vizinhança
e ali o barulho do mundo
chega apenas na lembrança

8
tambiá

tudo se define pelo não:
não mais moradias
não mais o silêncio vegetal
e o cheiro noturno dos jasmins
que inundava o ar
já não há

9
miramar

no alto como em altar
permanece a indecisão
de ser cidade ou mar:
confusão

10
tambaú

na praia que era longe e plácida
a gente ávida atravancou
de carros e prédios altos
a beira do mar mais verde que azul
e agora brinca (sofre) de ser
carioca zona sul

* fotos gentilmente cedidas por Reginaldo Marinho


Francisco Gil Messias é cronista e ex-procurador-geral da UFPB
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