Sim, Mário de Andrade da Revolução Modernista de 22, do herói sem nenhum caráter, Macunaíma, esse mesmo!
Pois é. Passa em Pedras de Fogo, em Entroncamento, depois aparece em Caiçara, noutro passo em Alagoa Grande, toma cana em Rio Tinto…
Pedras de Fogo (Paraíba) ▪️ Foto: Egberto Araújo
Está na Paraíba para isso, para descobrir folhetos, coco de roda, caboclinhos, “gente predestinada para dançar e cantar. (…)” Um velhote movia o torneio batendo no bombo e tirando a solfa. Mas o ganzá era batido por um piazote que não teria seis anos, coisa admirável.
Mário chega ao pátio do Convento de São Francisco e fica assombrado. É ele quem diz:
“Eu já conhecia a igreja de fotografia, porém fotografia ruim, péssima como todas as que tiram os fotógrafos do Brasil. (…) Estou assombrado. Do Nordeste à Bahia não existe exterior de igreja mais bonito nem mais original que este. E mesmo creio que é a igreja mais graciosa do Brasil — uma gostosura que nem mesmo as sublimes mineirices do Aleijadinho vencem em graciosidade. (…) Na frente de tudo, o cruzeiro é um monolito formidável. Estou assombrado. A Paraíba possui um dos monumentos arquitetônicos mais perfeitos do Brasil. Eu não sabia… Poucos sabem.”
Pátio do Convento de São Francisco, em João Pessoa ▪️ Foto: Rogerio121402
“Dia inteiro de trabalho. Assim mesmo, almocei na casa do general Cavalcanti e jantei na praia de Tambaú com a gente do José Américo. Depois fomos ao bairro de Cruz das Armas, de operários, ver um ensaio de caboclinhos. Formidável coreografia bruta. Mistura de instintos primitivos estonteantes com a monotonia formidável da gaita, bombo e ganzá. Coisas de africanos, ameríndios, incaicas e russas. Saí besta da sala apertada do clube, um calorão pavoroso e o cheiro dos corpos suados quando, na dança de despedida, dançando então todos, foram tomados de um frenesi demoníaco espantoso. Saí besta, não tem dúvida.”
Folclore nordestino Caboclinhos ▪️ Instagram: @brasilis_regnum
Os olhos maravilhados de Mário, habituados com a Mantiqueira, com os Órgãos, com a Serra do Mar, também tocaram nos escondidos da Onça, da Paquivirã, do chapado europeu “em pleno verão tropical”. Se fosse menos bíblico, menos universal, Pedro Américo teria levado esta serra para a Europa na mesma medida em que trouxe os meios-tons europeus para o Brasil. Verde opulento e bárbaro que encheu as vistas e os quadros dos pintores do conde Maurício, no Brasil.
Mário de Andrade (1893-1945), autor de O Turista Aprendiz, Macunaíma, Pauliceia Desvairada e Viagem ao Nordeste Brasileiro 1928-1929 – Álbum de Fotografias ▪️ Fonte: IEB-USP
O poeta e folclorista fala de coisas que hoje nos parecem estrangeiras, como coco de roda, Nau Catarineta, caboclinhos, bombo, ganzá, manifestações vivas do povo que só existem nos livros de Mário. E, aqui, nos de Altimar Pimentel.
Onde estão o povo e os espetáculos “afro-ame-ríndios, incaicos e russos” tão ostensivos aos olhos do escritor paulista?









