De mansinho, os primeiros pingos descem dos colchões de espuma que manhosamente caminham pelo céu. A presença espaçada de flocos de algodão...

Tempo que deságua


De mansinho, os primeiros pingos descem dos colchões de espuma que manhosamente caminham pelo céu. A presença espaçada de flocos de algodão super brancos muda e o teto da Terra ganha tons cinza-azul escuro, contornos de cinza completo, ou um negro tempestuoso em belas barras viajantes no vento leste/sudeste.

A música das primeiras gotículas tímidas, em rápidas visitas noturnas, constância comum do abril, amplifica a melodia. Os sons se tornam agora mais frequentes durante as horas diurnas, molhando parques, folhas e flores, o asfalto, os corpos que se arriscam em tempos de reclusão.

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Estamos na temporada da "primavera das chuvas", quando se abrem nas cabeças humanas as flores alegóricas de guarda-chuvas e sobrinhas multicoloridas. De abre-alas, outro espetáculo, o arco-íris. 


Maio já vai pela metade e a cada semana a sinfonia chuvosa é presença com maior intensidade. Menos receosa, senhora da sua força, permanece no palco por horas. E chama a atenção da plateia lacrimejando as janelas, tamborilando os telhados e cobertas das garagens.


Outono partido ao meio vê avançar a chuva pelos quarteirões da cidade como uma banda marcial, cadência perfeita, engolindo num grande abraço as residências.


Eu corro a recepcioná-la com os olhos, mãos, sorrisos. Raramente num abraço de corpo inteiro, exceto ao ser surpreendido no meio da rua. Quando criança era festa, precipitação plena, livre para o contato com o aguaceiro ao desfazer-se do céu. A mente livre e brincante de Millor Fernandes foi capaz de traduzir o sentido da brincadeira: "Olha, entre um pingo e outro a chuva não molha!".


Não mergulhar no encantamento da chuva é algo impensável. Diria uma temporada contemplativa, não triste
E o tempo junino se aproxima. Gosto de imaginar que foi em um dia assim que cheguei por aqui. Milhões de pingos em saltos sem para-quedas para banhar a vida milhares de metros abaixo de seus colchões voadores movidos a vento. 


Serão dias inteiros de invernada, com a terra penetrada, possuída pela enxurrada, gesto de amor natural. Junto ao chamado friozinho invernal. Será possível abrir a boca e deixar a língua provar da fonte, ter os cabelos molhados, o líquido pela face, escorregando entre os dedos. Ou apenas manter os olhos em algum ponto além da janela para pintar quadros com molduras de tijolos. 


Não mergulhar no encantamento da chuva é algo impensável. Diria uma temporada contemplativa, não triste. Hora de beber de si mesmo em outros tempos, outras fontes, perceber as gotas saltitando no retrovisor da vida, em meio à chuvarada iluminada por uma luz de um poste, de outro farol, de um par de olhos. 


Soltar a mente das nuvens, ser como a chuva que se faz e refaz, que após tocar o solo e beijar a terra inicia um novo ciclo, vaporiza-se para tornar-se uma nova chuva. E se do pó há o retorno ao pó, com a chuva, pensemos em barro, tijolo, (re) construção.


Clóvis Roberto é jornalista e cronista
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