Meia dúzia de vezes que andei por São Paulo - uma delas para entrar na fila sem fim (e como fazia frio!) do hospital público das Clínicas;...

Não havia melhor hora

gonzaga rodrigues cronica ambiente de leitura carlos romero

Meia dúzia de vezes que andei por São Paulo - uma delas para entrar na fila sem fim (e como fazia frio!) do hospital público das Clínicas; algumas para consulta médica particular, e, as vezes restantes, em missões profissionais – de nenhuma delas cheguei aqui com vontade de voltar.

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J. Pessoa
Das vezes que desci no Recife e terminei de carro experimentando a felicidade de reembolsar-me à Rua da Palmeira, só eu sei o conforto desse momento.

Sim, porque a Rua da Palmeira é a rua que deveria ser de entrada de todas as cidades natais do mundo. São Paulo não tem Rua da Palmeira, nem o Rio, nem Paris. De nenhuma dessas fantásticas cidades a gente sabe a rua do começo. Sabe onde ficam o monumento aos Bandeirantes, o Pão de Açúcar logo de cara, o Louvre; mas a rua da Palmeira, a antiga e abençoada rua de chegada, do reencontro com a terra e conosco mesmos, nunca se sabe, fora daqui, onde encontrar. Como os meninos da Rua Paulo, clássico da juventude remota do húngaro Molnár, a da Palmeira não deve fazer diferença para meninos e frangotes como os filhos do Dr. Arnaldo, os Paulo Melo e os que a ela se acostavam, os Sérgio de Castro Pinto, os Martinho Moreira.

Está aí uma das melhores coisas que podiam me acontecer sem sair de casa
Ocorre, às vezes, que as cidades, pesadas ou monumentais que sejam, não são tão irremovíveis quanto nos parecem. Nem tão duras, impenetráveis, que um telefonema, uma soltura antiga de linha não possa trazê-las de passagem ao mirante do nosso coração.

Vejam só o que aconteceu neste fim de semana. Reparem em como São Paulo ficou perto, como se passou num instante para o meu lado de dentro.

...
Quem é? – perguntei contrariado, de olho no 011, supondo aquelas vozes gravadas que começam pedindo o CPF. Já ia bater o telefone quando ouvi a voz de saudade gravada no vinil de outros tempos. Voz recôndita, isto, e que aos poucos foi se chegando, se opondo à prisão do Corona. “É Bira, Luiz, Ubirajara do Censo de 1950...”

Ele é a última testemunha viva dos nossos 7 anos de idade. Ele com 6, levado ao sítio de tia Tonina pela mãe, irmã de criação de minha mãe, quando nos acamaradamos.

“Tás onde, Bira?!”/ “Estou onde sempre estive, em São Paulo, preso, como Lula, aqui em São Bernardo”.

Está por lá desde que nos despedimos, há setenta anos, encerrado o Censo de 1950. Deve ter ingressado no comércio como “paraíba” e vindo sair como paulista, membro da Associação Comercial. Nos vimos aqui há uns sete anos, ele de férias na colônia do Sesc. Bem de vida e de simpatia: “Que privilégio esse teu mar, Luiz!”

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S. Bernardo
Está aí uma das melhores coisas que podiam me acontecer sem sair de casa. Bem entendido, sem sair do cerco fechado que, unidos, suprapartidários, governo de estado e prefeito, vêm me impondo a pretexto da fraqueza dos meus anos em face da peste.

Não havia melhor hora. O chamado de Bira, sem exigir meus passos, trouxe um agrado, um sentimento, que não sei se é felicidade. Ainda melhor por não ser preciso sacudir essa velha árvore de muitas cascas, longas raízes, para contar nos dedos as amizades que restam ainda penduradas. Sem largar o ramo, o pedúnculo, como dirá um outro da árvore, o camoniano Oswaldo Duda Ferreira.


Gonzaga Rodrigues é escritor e membro da APL
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