Minha primeira rua, numa cidade brejeira de interior, apesar dos longos anos de vivência e surpresas ante outras cidades, continua sendo me...

Anaísa e o obelisco

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Minha primeira rua, numa cidade brejeira de interior, apesar dos longos anos de vivência e surpresas ante outras cidades, continua sendo mesmo a primeira de minha experiência urbana. Nenhuma outra, por mais arraigada à existência, me infundiu maior admiração e gosto de viver nela. Não abria para nenhum cenário especial como Areia, cercada de montanhas; as casas, uma pegada com a outra, em nada se distinguiam, salvo a que hospedava o juiz, única com jardins laterais de papoulas multicores fechando o ângulo que se abria para dar lugar ao obelisco erguido no terreno de chão batido chamado de praça. Era a praça do monumento.

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Criado preso, vendo a rua sem passar da porta de casa, o monumento se interpunha no cotidiano externo do meu mirante. Era um obelisco de quatro a cinco metros de altura, a base deixando um banco circular onde a molecada se enturmava. Ficava a uns tantos metros da minha vontade de estar lá, preso à meia porta para não me botarem a perder, pois, a gosto de minha mãe, eu ia ser padre.

E levei esse tanto de vida resumido à espera de ver passar. Passar Seu Lindolfo para o sítio, um homem com quem papai não falava; passar seu Joca Leite se assoando, sempre se assoando na manga suja do paletó; passar o juiz, o dr. Lapércio, saindo de casa para o cartório; passarem Clarice, Mida, Beatriz, Alice, Cleide, Aracy, fitas diárias, de manhã e de tarde, no meu mirante. A porta sem se abrir, pois papai tinha fechado as outras duas de uma folha só com a mudança do armazém de meu apelido de menino, o Luiz da Farinha.

Eu via, só via, não me mostrando além da cabeça a espiar de queixo premido no alto da meia porta. Algumas vezes a ventania me ajudava e as saias mais largas vinham mais acima ao alcance dos meus secos olhos ansiosos. Que vento bom, meus Jesus!

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E o primeiro beijo, não meu, mas de Bibiu, na boca de Clenilde. Na boca, que até ali eu não sabia fosse para outro gozo. E descobri, numa das passagens, que, a cinco ou seis casas antes da minha, a moça de seu Lindolfo também não passava da janela. Não ia ser freira, mas era a lei de seu Lindolfo. Nessa passagem ouvi meu nome. “Você vai para o seminário?” / “Vou, terminei o admissão e preparam as roupas para isso”.

E enquanto não fui e deixei de ir, plantamos a mais pura das amizades. Ela do lado de dentro, eu do lado de fora, ela bem mais instruída, sacudindo os longos cabelos cor de mel a cada coisa que dizia. Entre essas coisas, não esqueço de duas, dentro do mesmo tema: a sua explicação sobre obeliscos, origem e significado e, a propósito, o que achava do juiz e da suma importância que ele mesmo se dava com aquela pose: “O doutor aí só perde para o monumento” - definiu e definiu-se.

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Ali atrás da janela assentava-se um modo de ver que não precisou muito para ser a esposa e mãe Anaísa das muitas que o Brasil precisa para não ser o país que vemos, mal educado, desigual, desrespeitoso, sem exemplo ao menos em sua sala principal, que é a do governante.

Comecei a semana sabendo por Alecy Mendonça, parenta sua e nossa conterrânea, que Anaísa “partira para o plano superior” ou, de certa forma, para onde já se encontrava. Foi além do monumento, do obelisco que distinguia a paisagem cultural de nossa terra, destruído para nada, há alguns anos.


Gonzaga Rodrigues é escritor e membro da APL
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