Sem saber francês, Père Hucheloup conheceu o latim; querendo ser melhor do que Carême , o chef dos reis, igualou-se a Horácio. É assim, c...

Victor Hugo e o latim de ouvido

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Sem saber francês, Père Hucheloup conheceu o latim; querendo ser melhor do que Carême, o chef dos reis, igualou-se a Horácio. É assim, com uma ironia sutil, que Victor Hugo comenta uma distorção fonética, que, ajudada pelas intempéries, virou uma distorção ortográfica e acabou emulando Horácio, o poeta latino.

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Antigo proprietário do Cabaret Corinthe, ponto de encontro dos jovens estudantes, preparando a barricada da rue Saint-Denis contra Louis-Philippe, em 1832, Père Hucheloup tinha uma culinária peculiar e uma compreensão própria da língua francesa.

A pièce de résistence de seu estabelecimento eram carpas recheadas que ele chamava de CARPES AU GRAS, algo como carpas na gordura. De modo a chamar a atenção dos passantes para a sua especialidade, ele decidiu colocar um cartaz, com uma ortografia condizente ao seu entendimento fonético da língua francesa. Assim, na inscrição da parede do Cabaré Corinto, o prato virou CARPES HO GRAS.

Durante o inverno, as tormentas e as chuvas, às vezes, acompanhadas de neve, fizeram desaparecer o primeiro S e o G, ajudando a transformar CARPES HO GRAS em CARPE HO RAS (Parte IV, Livro XII, Capítulo I).

É aí que entra Horácio com o seu muito famoso e não menos incompreendido CARPE DIEM. Os que entendiam a inscrição viam ali a instigação para que se colhesse o proveito das horas, assim como o poeta Horácio adverte Leucótoe para que saiba colher o proveito do dia, sem se confiar, um minuto que seja, no amanhã.

Esta diferença entre o que se escreveu originalmente e o que vai permanecer no futuro, motivado por uma distorção ortográfica ou fonética, já havia sido utilizado por Victor Hugo em Notre Dame de Paris, romance de 1831, mal traduzido para O Corcunda de Notre Dame. O que aparece nesse romance é ainda mais curioso do que a transformação de Carpes Ho Gras em Carpe Horas, em Os Miseráveis.

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Em Notre-Dame de Paris (Livro VI, Capítulo II), Victor Hugo relata a história de Madame Rolande, de la Tour-Roland, que, por ocasião da morte do pai, em uma das cruzadas, abriu um buraco na muralha de sua casa, onde se encerrou por vinte anos, não antes de doar tudo que tinha aos pobres e viver da caridade pública, vestida com um saco negro, dormindo no chão, na cinza e sem travesseiro. Naquele buraco, ela viveu esperando a morte e orando, noite e dia, pela alma do pai.

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No momento de sua morte, antes de se efetivar a visita de A Indesejada das Gentes, Madame Rolande legou o buraco em que vivia às mulheres que quisessem se enterrar vivas, por causa de grande dor ou em grande penitência. Como se tratava de um lugar de preces, o muro da pequena cela recebeu, acima da janela, a seguinte frase latina, de fácil tradução e compreensão – TU, ORA. O povo sem refinamento algum para entender o chamamento à prece, que ali se encontrava, ou por pura galhofa, começou a chamar o lugar de modo diferente. Lendo com o acento francês e modificando-a com a inclusão de um R, a expressão latina virou TROU AUX RATS, consagrando a tradução pelo ouvido. O que era uma exortação à prece virou um BURACO DE RATOS, designando o local, não a intenção do local.

Juntando as passagens dos dois romances de Hugo, temos um excelente material que pode ajudar a compor uma teoria da tradução, além de valorizar o uso do latim, uma constante nos seus livros.


Milton Marques Júnior é doutor em letras, professor, escritor e membro da APL
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