Estava decidido. Após a visão que experimentou diante daquela cena, sua jornada se tornara imprescindível. Contrataria um barqueiro na manhã...

A ilha transcrita para a eternidade

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Estava decidido. Após a visão que experimentou diante daquela cena, sua jornada se tornara imprescindível. Contrataria um barqueiro na manhã seguinte. E lançaram-se ao mar. O tempo sombrio convidava-os ao silêncio. A circunspecção de Rachmaninoff não lhe permitia palavra alguma. A visão que o motivara à travessia não saía de sua imaginação. Desde o dia em que viu a tela de Arnold Böckling, a “Ilha” se entranhou ao seu imaginário.

1m09s
E assim começa, o idílico poema sinfônico, “A Ilha dos Mortos”, de 1908. O ritmo ondulado a simular as vagas que conduzem o barco pelo Mediterrâneo, logo se percebe no grave sussurro dos baixos e metais (1m09s).

3m03s
3m20s
De repente, algo se move no mar, em dois arpejos ascendentes, (3m03s a 3m09s) mas incapaz de desviar a atenção do maestro em direção à proa (3m20s) e à paisagem que seu destino descortina.

5m09s
Mais à frente, delicados violinos entoam a primeira aparição do tema principal (5m09s), pelo qual Rachmaninoff se lembra de como este e outros mares foram capazes de inspirar poetas, artistas, escritores, músicos, irmanados ao que conhecem o verdadeiro amor. Paixões, romances e respectivos ardis vêm à sua mente e crescem ao sabor dos instantes seguintes.
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8m05s
8m24s
Entretanto, a obstinação que o destinou a estar ali é mais forte justamente quando avista a enevoada silhueta da Ilha (8m05s a 8m25s).Imponente, sombria, já se ergue ao longe, anunciada pela contorção melódica cujo ápice se mistura às ondas, agora mais revoltas (8m24s a 9m30s).

9m35s
10m36s
Imediatamente os ímpetos se aquietam (9m35s). É quando ele pede ao barqueiro para reduzir a velocidade. Precisa contemplar o que vê, com mais calma. Lentamente, o barco se aproxima para atracar, ralentando no ritmo dos baixos em pizzicato (10m36s).

10m48s
Eis que a imagem da bela composição de rochas e ciprestes põe-se, enfim, à sua frente (10m48s), deixando-o completamente abismado. Ele quase não acredita que conseguiu finalmente estar à frente da Ilha dos Mortos. Uma intensa comoção, pouco a pouco, invade o seu espírito, refletida em nova aparição da essência temática, trazendo a lume todo o romantismo pujante que imprimiu em sua grandiosa obra preenche-o de entusiasmo.
12m04s
12m40s
Como se as três sinfonias colossais, os quatro apaixonados concertos para piano, prelúdios e sonatas, acerbados pelas marcas de sua vida intensa, entre prazeres, dificuldades e decepções se fundissem à paisagem. Esse conjunto se agiganta em efusivo “crescendo” (12-44) e culmina com a visão agora divisada por completo, diante de si próprio sob a nitidez luminosa da orquestra em tutti, ao reiterar o fundamento motívico (12m40s).
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13m26s
13m45s
E o poema se engrandece pomposo (13m26s), mesclando beleza à fatalidade do contexto em que a criação de Bocklin se insere. Os temas agora convergem atônitos para tormentoso suplício (13m45s). Crescem profusamente (14m55s) até explodir nos tímpanos.
14m55s
15m45s
E a epopéia sinfônica segue, encorpada pelo coro de metais, numa angústia existencial crescente que culmina ao evocar a fatídica célula de 4 notas percutidas na abertura da “Sinfonia do Destino”, a quinta de Beethoven, (15m45s) , composta há exatos 100 anos, em 1808! Um instante de êxtase.

16m08s
17m02s
A seguir, o coração de Rachmaninoff se acalma (16m08s). Em introspecção resignada, as cordas ligeiramente trêmulas expressam o sentimento de missão cumprida (16m30s). O sonho realizou-se. É hora de voltar, sob o convite que ressurge no oboé (17m02s), acalentado por delicados trinados.

17m38s
18m33s
As trompas soam nostálgicas e reforçam a iminência crepuscular (17m38s) que lhe sugerem o ocaso do idílio tão sonhado. No retorno, avista o mar (18m33s), mas é convidado ao derradeiro adeus (19m03s), fitando a Ilha que agora não é mais dos mortos. Perpetuar-se-á na lembrança de um dos cenários mais lindos que viu, tornando-o capaz de transcrevê-lo para a eternidade, no seu opus 29.



Germano Romero é arquiteto e bacharel em música
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  1. Que madrugada, esta que viveu o Ambiente de Leitura!
    De almas da perna-de-pau à quase tenebrosa Ilha dos Mortos, nosso editor deveria ter tido pesadelos.
    Só não teve pela beleza da música.
    Excelente texto, muito bem escrito (e descrito!).
    Germano “toca” músicas com as teclas do computador.
    Muito bem acompanhado pelo acompanhamento da melodia.
    Parabéns por mais essa crônica, Germano!

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    Respostas
    1. Obrigado, nosso médico.escritor! Um grande abraço

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  2. Ângela Bezerra de Castro23/9/20 13:23

    De joelhos. Os sons reconstituídos em palavras, transfigurados numa narrativa, consubstanciados em imagens para a sensibilidade da percepção.

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  3. O texto... Caro Germano é a narrativa escrita como fora composta por Rachmaninoff.. impregnada com todo o detalhamento emotivo.
    Ler primeiro... Ouvir na releitura!!!
    Parabéns...Excelente👏🏻👏🏻👏🏻

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