Os corredores eram compridos. Diziam que aquela casa abandonada era um abrigo de idosos, no início do século passado. Antes de ser o refúgi...

Tudo imaginação

ambiente de leitura carlos romero cronica poesia literatura paraibana jose leite guerra casa mal assombrada fantasmas imaginacao

Os corredores eram compridos. Diziam que aquela casa abandonada era um abrigo de idosos, no início do século passado. Antes de ser o refúgio dos que lá se exilavam, fora uma pensão, digamos classe “A”, onde se hospedava a nata pura da sociedade da época.

Dizem que a dona do albergue se esmerava em bem servi-los e, por isso, eram retribuídas com benfeitorias ou até monetariamente pelas benesses. O que chamava a atenção de todos era um objeto que ficava exposto próximo à luxuosa sala de refeições: uma perna de cera usada pelo finado marido da proprietária da pensão.


Por que motivo a insistência da mulher em conservar aquele irritante e inconveniente “souvenir”? Ela explicava com os olhos marejados não ter coragem, nem disposição em dar-lhe fim, pois pertencera a seu extinto marido, um general de brigada. Perdera o membro inferior numa batalha, durante a Segunda Guerra Mundial, mais precisamente no Monte Castelo, na Itália.

Contavam-se coisas escabrosas sobre a referida “herança” deixada. Muitos fugiam de se hospedar naquela pensão por conta das estórias inventadas (e muitos diziam serem verdadeiras) referentes ao aludido troféu. O exemplo mais clássico era o de que, nas noites de lua nova, os hóspedes já recolhidos a seus leitos escutavam um pausado toc toc pelos corredores. Às vezes, a caminhada sofrida parava diante das portas, o que vinha a aumentar o medo e a angústia de quem se agasalhava sob os lençóis. E, não se sabe se por exagero, o portador da deficiência batia, insistentemente, como querendo entrar nos aposentos. Quem teria coragem de abrir?

Havia os descrentes que nada escutavam, nem acreditavam em tal fenômeno. Era um caso (se é que estivesse ocorrendo) a ser elucidado por alguém expert no assunto, um parapsicólogo, digamos. Mas as coisas sobrenaturais sempre exercem um estranho fascínio patológico nas pessoas vivas e ainda no tempo. A própria dona da pensão, jamais deixaria investigar nada.
ambiente de leitura carlos romero cronica poesia literatura paraibana jose leite guerra casa mal assombrada fantasmas imaginacao
Mesmo por que, pessoalmente, nunca houvesse se apercebido, muito menos acreditado em tais ocorrências. Invenções para fechar a pensão. Marketing nocivo da concorrência entendia dona Josefina, mulher baixinha, de terço à mão, devota de todos os santos achados e perdidos ou por ainda canonizar. Afirmava, com toda a categoria e experiência, de que almas do outro mundo ficavam lá até o Julgamento Final e não vinham perturbar ninguém.

O fato é que, anos adiante, quando houve a completa decadência e a pensão fora obrigada a fechar. O prédio foi adquirido por um empreendor interessado em inaugurar um abrigo de idoso. Mesmo assim, um dos albergados dizia escutar passadas incomuns e ritmadas corredor afora. Ninguém acreditou. Tudo imaginação, diziam.

D. Josefina levou consigo a prótese. Não havia perigo de continuarem as faladas assombrações. Tudo imaginação...


José Leite Guerra é bacharel em direito, poeta e cronista
COMPARTILHE
comente via facebook
COMENTE
  1. BRRRR! Que medo!
    Boa história para se ler à noite!

    ResponderExcluir
  2. Me fez evocar meus tempos de “medo de almas”! Hoje as almas que me assustam são mesmo as deste mundo.

    ResponderExcluir

leia também