O supermercado, muitas vezes, é uma fonte de inspiração para os cronistas. Outro dia, estava eu na fila do caixa e avistei uma amiga de infâ...

Sobre meninas e avós

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O supermercado, muitas vezes, é uma fonte de inspiração para os cronistas. Outro dia, estava eu na fila do caixa e avistei uma amiga de infância — hoje já distante — a andar pelas latas de ervilha com três saltitantes garotas lindas. Netas, possivelmente. E fiquei a pensar nas meninas. Lembrei até do conto de James Joyce, Araby, em que ele fala do primeiro amor.

Como um assunto puxa o outro, veio o tema sobre a sedução das mulheres, que começa tão cedo. Quando mocinhas, lá vêm o batom, a cinta, a meia, o sutiã, os decotes, os babados, as sedas... o corpo. Desviava tanto da minha, pela timidez e, principalmente, como forma de resistência. Claro que não tinha propósito nem tanta consciência como vim a adquirir depois. Existiam o incômodo, a negação e o desejo de fazer diferente. Era muito magra, tinha problemas (ainda tenho) com saltos. Desdenhava os frufrus e tudo o que era feminino me era estranho.
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Desejava ir por um outro caminho: o da subversão. Usar roupas masculinas (calças largas, camisas de marinheiro) e esconder o corpo desse padrão normatizado.

Queria, também, conversar assuntos de homem, beber, transgredir os véus e as transparências. A calça jeans rasgada caiu como uma luva para o meu padrão solitário no Cine Municipal e na Lagoa. Como o sentir ainda era nebuloso, sofria. Queria uma roupa destoante. Queria um vestido solto que não fosse solto. Minha mãe, que fazia nossas roupas, enlouquecia nos debruns e cortes desestruturados, que nunca ficavam ao nosso gosto.

A minha sedução, com certeza, nunca passou pelos vestidos das meninas. Nem passa! Tudo que se impõe me causa irritação. Em minha lua de mel não houve camisola de núpcias. Nem núpcias! Já fui de uma geração que não se esperava tanto. Tínhamos urgência e o sexo se antecipava pulsante.

Por entre os pacotes de feijão, no supermercado, fiquei também a filosofar sobre o que é ser uma menina. Não é de hoje que falo que ser menina é querer ser mulher antes do tempo. É lidar com o perigo iminente da violência sexual! Naquele momento, pensei do "ser menina antigamente", quando eu própria fui uma delas. Brincar de roda, sentar com as pernas juntas, não responder aos mais velhos, uniforme das Lourdinas no joelho, usar meia combinação, fazer cozinhado no quintal e tudo o mais.

Sou a mais velha de uma casa feminina. Quatro irmãs. E por meio de bonecas, saias, modess, sutiãs e namorados, vivi. Não tive filhas. E há muito vivo longe do universo das meninas. Recentemente, convivo com minha sobrinha Hanna, que já é uma adolescente, e quer lonjura do mundo das garotas pequenas. As mulheres lhe interessam!

Ao observar minha amiga com suas netas meninas lindas, fiquei a pensar de como seria como avó. E por favor meninos meus: vejam se quando forem pais, me trazem alguma menina!! Já estou satisfeita com o mundo dos homens.
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Em casa, digo! Que tipo de avó serei? Como lidarei com esse amor que dizem ser a cereja do bolo?

Fico pensativa ao testemunhar as mulheres/avós da minha geração. Percebo que, de modo geral e com raras exceções, os netos preenchem um espaço gigante em suas vidas. Muitas avós agem como se não tivessem mais uma vida toda sua; sem interesses outros, como se só os netos restassem, como se toda a seiva da vida jorrasse desse único caminho, como se a vida dos adultos tivesse ficado opaca e finda. Nada de namorar os maridos nem trabalhar nem socializar nem ler nem ficar sem fazer nada nem encontrar amigos, conversar, participar ativamente das atividades que um dia gostaram. Tudo fica resumido à escola de neto, aniversário de neto, natação de neto, correr com neto, balanço de neto, creches, comidinhas para os netos.

Nada contra os netos. Aliás, bem vindos os netos! Fico a lembrar de outras mulheres alhures que morrem de amor pelos netos e, no entanto, mantêm-se mais distanciadas, para que possam também viver as vidas outras e não somente a vida e avós. Falo assim porque ainda não tenho os pequenos. Pode até ser, mas pela mãe que fui e sou, com todas as presenças e ausências que fui capaz de exercer, e uma vida toda minha que demorei tanto a construir, tentarei incorporar os netos, mas não gostaria de ter todo o meu dia pautado pelo papel de avó. Terei sempre meus interesses outros, minhas necessidades outras e minhas solidões outras também, seja lá o que esses "outros" signifiquem.

Olhando a minha amiga a passear com as netas por entre bananas e abacaxis, pude vislumbrar uma cena: eu mesma levando algum neto para fazer a feira e comprar-lhe um doce. E falar de amor, esse artigo de luxo!
Em tempo: Hoje tenho uma neta, Luísa, de um ano e três meses, e tenho me deliciado com ela. Mas ainda não a levei para fazer a feira comigo. Em breve!


Ana Adelaide Peixoto Tavares é doutora em teoria da literatura, professora e escritora
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