Corria o ano de 509 a. C., Roma tinha em seu comando o rei Tarquínio , o Soberbo, que se apoderou à força do poder e instaurou a primeira m...

Você botaria a mão no fogo?

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Corria o ano de 509 a. C., Roma tinha em seu comando o rei Tarquínio, o Soberbo, que se apoderou à força do poder e instaurou a primeira monarquia hereditária da cidade. Seu filho, Sexto Tarquínio, queimando de desejos, estupra Lucrécia, mulher de seu primo Lúcio Tarquínio Colatino, dentro do recinto sagrado do altar doméstico da jovem. Sentindo-se desonrada e maculada, Lucrécia confessa ao pai e ao marido o estupro e se suicida. Esse ato ignóbil perpetrado por Sexto leva à expulsão dos Tarquínio de Roma e, com eles, da monarquia.

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Aproveitando-se de um momento de crise em Roma, o rei etrusco Porsena, resolve assediar a cidade, com o desejo de controlá-la, para poder expandir o seu poder por outras cidades do Lácio. Embora não deseje ser rei de Roma, Porsena dá, inicialmente, seu apoio a Tarquínio, o Soberbo.

O assédio de Porsena já durava o bastante para a cidade começar a sofrer fome. Um jovem romano, de nome Caio Múcio, resolve atravessar o Tibre a nado e invadir o acampamento do rei etrusco, com o intuito de matá-lo e, assim, livrar a cidade de um déspota. Múcio se engana de pessoa e mata o secretário de Porsena. O rei, tendo-o aprisionado, pede explicações para o seu ato, ameaçando o jovem de jogá-lo ao fogo. A resposta de Caio Múcio foi lançar a mão direita numa pira, que estava próxima e pronta para um ritual, olhando fixamente para Porsena, sem piscar, sem mover um músculo da face, mostrando-lhe que não tinha medo de ser morto queimado. Porsena, admirado, com o gesto do jovem, resolve libertá-lo, fazer uma aliança com os romanos, e acabar com o assédio de três anos a Roma.

Tito Lívio diz claramente que o jovem Caio Múcio jogou a mão direita no fogo aceso para o sacrifício (“dextramque acenso ad sacrificium foculo inicit”, Ab urbe condita, Livro II, 8, 13-15) e, depois de libertado por Porsena, adotou como cognome Scaeuola, canhoto, por ter perdido a mão direita.

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O que fez Caius Mucius Scaeuola colocar a mão no fogo? Múcio acreditava no novo sistema de governo, que se sustentava não mais em uma pessoa, mas em duas pessoas escolhidas pelo voto, como cônsules, para comandar, por um ano, a cidade. Os primeiro cônsules eleitos foram os primos Lúcio Tarquínio (do ramo bom da família) Colatino, marido da infeliz Lucrécia, e Lúcio Júnio Bruto.

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A cada ano, a dupla eleita deveria ser renovada e os dois cônsules eram obrigados a se revezar no poder, com a finalidade de que ninguém tomasse gosto pelo poder e nele quisesse se perpetuar, por si mesmo ou por seus descendentes. Era o enterro definitivo da monarquia, para sempre associada à força e ao estupro, e, ao mesmo tempo, o nascimento da res publica, a República, cujo fundamento é a coisa pública. Pela República nascente, Múcio colocou a sua mão no fogo, demonstrando plena confiança nos seus princípios.

Por que a mão direita (dextra)? A mão direita era a que se dava para se firmar o pacto (foedus); era entregar ao outro, desarmada, a mão da arma, para mostrar a confiança (Fides), no que fora acordado. A República, que data do ano 509 a. C., nasce tendo como cerne a confiança entre contrários, que se tornam concordes, para o bem de todos, mesmo que em sacrifício de suas individualidades.

Você colocaria a mão no fogo pela nossa República?


Milton Marques Júnior é doutor em letras, professor, escritor e membro da APL
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  1. Num regime em que tem sido comum “botar a mão no cofre”, não dá para botar a mão no fogo...

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  2. Anônimo2/9/20 16:16

    Boa, Chico!

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