Em um papo de lista de discussão feita só de mulheres, espontaneamente surgiu o assunto relativo à infância. Uma verdadeira viagem ao vale...

No Vale das Bonecas

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Em um papo de lista de discussão feita só de mulheres, espontaneamente surgiu o assunto relativo à infância. Uma verdadeira viagem ao vale da subjetividade feminina, quando rememoramos, durante alguns dias, o nosso tempo de brincadeiras com as bonecas.

Teo Zac
Alguns homens talvez se perguntem: "— mas essas mulheres só conversam isso" (sic)? Puro engano. O debate flui sobre os mais variados assuntos, desde a violência local, os filmes do Oscar o calor escaldante da cidade aos cartões corporativos da ministra Matilde Ribeiro. São muitas as pautas. De quando em vez, alguns assuntos lancinantes e de igual importância política nos tomam de jeito. As bonecas, por exemplo. Bonecas de louça, de pano, Beijocas, as que faziam xixi, choravam...

Algumas mulheres vivenciaram experiências riquíssimas com essas criaturinhas: cuidavam, alimentavam, costuravam para elas e aprendiam a serem mães... ou simplesmente exerciam uma maternidade infantil, que mais tarde viriam a querer exercê-la ou não. Foram tantos relatos com as “amiguinhas" e "moranguinhos” da vida... Ao ler as estórias, me dei conta do quanto essa vivência faz parte do nosso imaginário e como brincamos de ser adultos em nossa infância. Muitas das brincadeiras nos submetiam a certos padrões de comportamento, a armadilhas ou a estereótipos, dos quais nem sempre tínhamos consciência. Mas outras tantas vezes era o lúdico, os espaços enoooooooormes da imaginação ou dos alpendres, que nos proporcionavam dias felizes de um passado longínquo. Como foi dito na lista de discussão: “Que felicidade a de termos sido aquinhoadas (adorei essa palavra!) com a possibilidade de sermos urbanas, mas com ricas experiências rurais”. Sim , pois sempre tinha uma granja, um sítio, uma fazenda ou simplesmente um quintal com um pé de manga.

Não falarei da peça de Ibsen, "Uma Casa de Bonecas" (The Doll´s House, 1879), porque nunca li. Sei, no entanto, da importância desse texto para o teatro moderno e de sua significação para a libertação das mulheres. Em 2005, por ocasião do Seminário Mulher & Literatura, assisti a uma palestra com a teórica feminista Toril Moi (autora de “Sexual/Textual Politics”, 1985),
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Refika Günyaktı
na qual ela se reportava ao clássico da literatura norueguesa, afirmando não só que a peça era um “chamado à transformação das mulheres” como também reiterava uma das reivindicações de Simone de Beauvoir na obra "O Segundo Sexo" (1949): “As mulheres deviam ter acesso ao universal”, uma vez que esse universal, pelo menos no que dizia respeito ao trabalho artístico, era masculino.

Em se falando de literatura, gosto muito de um conto da escritora neozelandesa/inglesa Katherine Mansfield, igualmente intitulado "The Dolls House" (A Casa de Bonecas, 1922). No texto, em uma linda casa de vidro, de bonecas, temos um retrato não muito feliz de uma infância, marcada por preconceitos, competições e antecipações das crueldades do mundo adulto. Sei que a infância, como todas as outras fases da vida, não é feita só de mel. Para algumas mulheres, trata-se de um período doloroso, sem bonecas, grandes ou pequenas.

Particularmente, não gostava muito de brincar de bonecas, nem tinha tanto apreço assim pelos cuidados para com elas. Freud explica! Era daquelas que gostava de desmontá-las. Pernas pra cá, cabeças pra lá. Um quebra cabeça – um mosaico! Quem sabe já estivesse, à época, me antecipando aos estudos da subjetividade que hoje me move e me estimula ao abismo de não ser devorada... adiantando a vontade de decifrar o espaço vertiginoso que é essa subjetividade. Ironias à parte, não é à toa que o psiquiatra Luiz Cuschnir, no livro “A mulher e Seus Segredos” (2008), compara a teia intrincada da complexa identidade feminina às bonecas russas, em que uma vem dentro da outra.

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Takahiro Taguchi

Mas quando minha mãe costurava umas roupinhas de bonecas, aí sim, o meu lado “modista” surgia e me perdia nas horas a trocar aquelas criaturinhas, as poucas que ainda permaneciam inteiras. Tudo sempre com lanchinhos de ki-suco, bolachas cream-craker e goiabada de lata.

De conversa em conversa, muito me atrai esse mundo, se não exclusivamente feminino, um mundo onde são permitidos pedaços de brincadeiras e de vida, onde tais diálogos transformam-se em matérias para trocas, reflexões e (por que não?), temas da nossa própria existência.


Ana Adelaide Peixoto Tavares é doutora em teoria da literatura, professora e escritora
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