Quando passávamos pelas várzeas do Rio Paraíba e chegávamos à região do Brejo, num olhar às enseadas ou chãs onde existem plantações de cana...

As capelas dos engenhos 

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Quando passávamos pelas várzeas do Rio Paraíba e chegávamos à região do Brejo, num olhar às enseadas ou chãs onde existem plantações de cana, flamboyants e pau d’arcos floridos, com as capelas ao redor dos antigos engenhos, o deslumbramento se completava.     

As capelas estão presentes nas construções de muitas cidades, desde os mais remotos tempos. Foi uma pequena capela de taipa erguida nas imediações do Rio Sanhauá que marcou a pacificação entre portugueses e índios, e o início da construção de nossa capital.  

Na nascente civilização brasileira, em alguns Estados do Nordeste, cinco séculos atrás, pelas mãos de jesuítas e franciscanos, em povoações e pequenas aglomerações rurais que se formavam em torno dos engenhos, surgiam capelas como relevante símbolo do Cristianismo e da fé na adolescente cultura religiosa no novo Continente, que hoje, em certos lugares, ainda estão presentes no que restou destas edificações que foram surgindo no decorrer dos tempos.  

   As imagens do Engenho Pau d’Arco ganharam vida nas páginas do “EU” pela criatividade poética de Augusto dos Anjos, mesmo recordadas com nostalgia. Outras são encontradas nos romances telúricos de José Lins do Rego, com páginas de relevante valor estético de nossa literatura que falam desses ambientes das casas-grandes e das capelas dos engenhos. Lugares, onde existe uma força mítica misturada ao sabor da garapa de cana e do cheiro das frutas tropicais, perpetuados na palavra escrita, mesmo que o desleixo de alguns proprietários contribuiu na destruição de muitas delas.

   Ainda existem resquícios de antigos engenhos ou fazendas de café no Brejo, com grossas paredes que sustentam no alto uma cruz, símbolo milenar da fé cristã, mesmo cobertas pelo melão-de-são-caetano. Muitas paisagens dos livros de José Lins ganham vida nas mentes e trazem emoção aos corações de visitantes ao contemplar esses ambientes centenários, em alguns casos, guardando suas antigas características.  

Por volta de 1850, junto do primeiro engenho de Serraria, foi construída no sopé da elevação uma pequena capela dedicada a Nossa Senhora da Boa Morte, originando-se, então, a cidade que se estendeu pelo cocuruto da serra, onde cinquenta anos depois iniciaram a construção do imponente monumento sede da Igreja do Sagrado Coração de Jesus. 

Quando perambulando pelos canaviais de Serraria, contemplo a paisagem dos morros pouco além de nossas cabeças, parecendo estar junto das nuvens, e vendo os velhos engenhos de fogo apagado, lembro-me da importância dos pequenos monumentos religiosos erguidos como proposta de símbolo da solidariedade e da confiança no transcendental. Cada capela com sua simplicidade arquitetônica guarda o registro daqueles que ajudaram na construção da civilização do açúcar e do café, em cujo ambiente circundam esplendor invisível.  

Nas regiões do Vale do Rio Paraíba e no Brejo, com o tempo, muitos engenhos e fazendas, lugares onde também se cultivava algodão e criava-se gado, desapareceram, levando de reboque as capelas. Seus novos donos, na maioria, não se deram conta da importância dos monumentos que marcam a riqueza histórica da região e o passado das famílias.  

Nem todos se dão conta de que a arte é o meio mais cauteloso para fugirmos do mundo opressor e por meio dela nos vincularmos à vida. Semeia um gozo de liberdade quando estabelecemos uma relação genuína com esses antigos ambientes, e também com a natureza que os rodeia. 

As capelas não são apenas adornos ao ambiente em redor das casas-grandes e dos engenhos, mas surgiram como sinais das visões místicas dos antepassados, e deixam os lugares mais belos. 

José Nunes é poeta, escritor e membro do IHGP
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  1. Bem lembrado José Nunes ...as belezas arquitetônicas erigidas e ambientes de trabalhos diversos e sem as necessárias adequações. Mas que foram, em si "Artes Sacras".
    Parabéns��������

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