Sobre os poemas de “A Chave selvagem do sonho” (Editora Tribuna, João Pessoa, 2020), de Anna Apolinário, faço minhas as palavras do poeta ...

Trouxeste a chave?

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Sobre os poemas de “A Chave selvagem do sonho” (Editora Tribuna, João Pessoa, 2020), de Anna Apolinário, faço minhas as palavras do poeta e ensaísta Walmir Ayala a respeito de uma poeta brasileira: “Embriagada pela palavra, mas jubilosa em sua embriaguez”.

Com efeito, embora os poemas possuam ressonâncias do surrealismo, percebo na consecução da maioria deles um sedento eu lírico a beber e a dar de beber as palavras ao leitor também ávido e jubiloso pela embriaguez que elas provocam.
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Diria mais: a junção de palavras que abolem a relação causa e efeito em alguns dos poemas desse livro decorre menos da escrita automática do que da vertigem lúcida que elas provocam no eu lírico. E tanto é assim que o prefácio de Floriano Martins, poeta não só surrealista como também disseminador desse movimento no Brasil, não faz, pelo menos explicitamente, qualquer referência ao fato de Anna Apolinário abeberar-se ostensivamente do conteúdo programático dessa corrente da vanguarda europeia, cujo principal ideólogo e mentor foi André Breton.

Já no Primeiro Manifesto Surrealista, o poeta francês observa: “(...) Ponham-se no estado mais passivo, ou receptivo, que puderem. Façam abstração de seu gênio, de seus talentos e dos de todos outros. Digam a si mesmos que a literatura é um dos mais tristes caminhos que levam a qualquer canto. Escrevam depressa, sem um assunto preconcebido, bastante depressa para não serem tentados a reler o tema preconcebido, bem depressa para não recordar e não ficar tentado a reler. A primeira frase virá sozinha”.

Conforme se vê, André Breton preconiza que o poema deve ser concebido sem o concurso do sujeito emissor, que este se subordine às zonas nebulosas do inconsciente, que abdique, enfim, da condição de sujeito ativo do discurso para se converter num quase objeto ou mero instrumento do texto que flui sob a égide da escrita automática.

Ora, no caso dos poemas em questão, bem que o eu lírico tem vontade própria e não se deixa subordinar tão-só pelo fluxo do inconsciente, do contrário não se debruçaria sobre o reino das palavras para escolher a dedo aquelas com as quais se inebria e inebria o leitor, um e outro jubilosos pela embriaguez que elas propiciam.

Mas o gozo provocado pela degustação das palavras nem sempre prescinde do entendimento do receptor com relação ao que elas expressam, ao que elas significam. Em última instância, para abri-las e desaferrolhá-las cabe ao leitor dar várias voltas na chave selvagem do sonho e levar em conta que os sonhos nem sempre possuem uma relação causal como reivindica o cartesianismo dos homens práticos de todos os tempos e lugares. Em suma, alguns sonhos não existem em “estado de dicionário”, assim como as palavras também não, o que me faz remontar ao questionamento do eu lírico do poema “Procura da poesia”, de Carlos Drummond de Andrade: “Trouxeste a chave? ”

Se a trouxe, talvez o receptor esteja apto para abrir alguns dos poemas desse inusitado “A Chave selvagem do sonho” e dele sair “embriagado pela palavra, mas jubiloso em sua embriaguez”.


Sérgio de Castro Pinto é doutor em literatura, professor e poeta, membro da APL
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