Não mais vi o vendedor de castanhas. Ele pontificava na calçada de um banco do centro, ao sol, muitas vezes, ou amparado numa generosa som...

Vendedor de castanhas

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Não mais vi o vendedor de castanhas. Ele pontificava na calçada de um banco do centro, ao sol, muitas vezes, ou amparado numa generosa sombra de carro estacionado. Homem simples, puxava conversa sobre políticos, inflação, enfim, temas tratados em circunlóquios pelos especialistas globais ou não. Em seu palavreado nada atrelado a esquemas tecnocratas, ignorava gráficos onde descem e sobem marcações.

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Totalmente descrente de um novo “milagre brasileiro” – “Milagre só quem faz é aquele Pai” – tirava o chapéu borrado de suor e apontava o céu. A decepção o levava a exorcizar todos os partidos, sem distinção, e a classe que toma assento nos contaminados poderes deste Brasil descoberto por Cabral. Cáustico, ia fundo na crítica, digamos, informal, popular, que muitos apelidam “senso comum”, destronando figurões, sentenciando gente de colarinho de qualquer cor e os colocando a arder no horripilante Hades, sob a batuta de Belzebu.

Comentava amargurado sobre a dificuldade em conseguir castanhas de caju. Fazia sua propaganda sobre o teor energético das “coroas” do fruto, que embalava em sacos transparentes. O labor escolhido para o sustento dele corria o risco de findar por escassez do produto. Uma lástima: viajava por socavões, pelos Estados vizinhos, e pouco conseguia, a preço sufocante. Um saquitel para vender custava puxados reais. Tinha mais saída nas festas do meio e do fim do ano. A conterrânea castanha de caju estava virando mercadoria nobre. Os fregueses iam sumindo. Badalavam conversas, mas não adquiriam quase nada.

Por várias tardes, procuro saber o roteiro do homem das castanhas. Outro dia, fui informado: está padecendo de enfermidade no aparelho respiratório. O estado do vendedor é preocupante. Sem plano de saúde, a doença se agrava, dia a dia. Não houve quem me informasse onde mora.

Sinto o vazio das embalagens de castanhas de caju novinhas postas na lateral do banco, numa sobra de parede, e ele, sentado, o inevitável chapéu, o protesto, o sorriso dos justos...


José Leite Guerra é bacharel em direito, poeta e cronista
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  1. Salve José Leite Guerra!! Trouxe- nos boas reminiscências desses personagens tão presente em nossas vidas!!!
    Parabéns👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻
    Paulo Roberto Rocha

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  2. Quando menino,lá em Sorocaba, ajudava uma vizinha a embalar em celofane balas de coco-e-mel que ela fazia pra vender. O pagamento pelo trabalho eram as grandes gargalhadas da dona Benvinda - como as de Radegundis Feitosa e Onélia Queiroga - e os passeios no assento traseiro que era, também, porta-malas, na "baratinha" do marido dela, o Pedrinho Mayoral. Seu personagem, José Leite Guerra, me lembrou aquela gente humilde - decantada, também, pelo Chico Buarque. É bom ler coisas assim.

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