Já tarde da noite, recebo dois zaps de voz de minha neta, Clarinha. Ela me pergunta o que é evolução. Achei a pergunta difícil, mas como...

Diálogos imaginários com minha neta

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Já tarde da noite, recebo dois zaps de voz de minha neta, Clarinha. Ela me pergunta o que é evolução. Achei a pergunta difícil, mas como envolve coisas práticas, respondi adequando ao seu universo de criança esperta. Disse que a evolução era a transformação por que passaram todos os seres vivos — os animais, as plantas, os humanos —, ao longo dos tempos, e ainda passam. Começamos, há muito, muito tempo, sendo pequenos seres como os micróbios e nos modificamos atingindo a forma que temos hoje, terminei dizendo a ela.

Logo em seguida, recebi uma mensagem de voz de meu filho, Daniel, pai de Clarinha, sorrindo, dizendo que não era EVOLUÇÃO, como eu tinha entendido, mas REVOLUÇÃO! Pronto! Agora complicou de vez, pensei, pois em lugar do, digamos, pragmatismo da evolução, teria que lidar com conceitos abstratos, inapreensíveis para uma criança de seis anos! Como fazer? Imaginei, então, três diálogos com ela, para tentar explicar, com muita imperfeição, diga-se de passagem, o que é revolução.


Primeiro Diálogo
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George Zagoudis
— Vovô, o que é revolução? — Este é um assunto muito difícil, Clarinha, para uma menina de 6 anos, como você, compreender. Vovô tem dez vezes a sua idade e ainda não compreende bem certas coisas. — Mas você pode me dizer o que sabe sobre revolução? — Vovô sabe muito pouco, mas vou tentar. Certo? — Certo. — Imagine a sua casa. Nela vivem você, sua mãe, seu pai e ainda uma gatinha e um cachorro. Não é assim? — Sim. — Quem coloca comida para os animais, diz se eles podem entrar ou não em casa e em que partes da casa podem ficar? — Sim, eu, mamãe e papai. — Eles podem dormir na cama de seus pais ou na sua? — Não. — Podem subir na mesa ou no fogão? — Não. — Podem fazer pipi no vaso sanitário? — Não. — Então, nós podemos dizer que você, sua mãe e seu pai, é que dizem, até certo ponto, o que a gatinha e o cachorro podem fazer e como fazer? — Sim, podemos dizer. — Isto significa que você, sua mãe e seu pai, têm uma força que obriga os animais a obedecer. — Sim. — Sabe como se chama esta força? — Não. Como? — Poder. Vocês três têm poder sobre a gatinha e o cachorro. Eles poderiam viver na rua, sem estar controlados pelo poder de vocês três, não é? — É, sim. Por que eles não vivem na rua? — É porque na sua casa, eles encontraram comida e água sem ter que procurar por isto, além de abrigo e carinho. Está entendendo? — Sim, mas eles não podem fazer o que querem, vovô. — Não podem e não poderiam mesmo que estivessem vivendo na rua, pois a natureza também impõe um poder a todos nós. A liberdade é sempre limitada. — Então, eles trocaram a rua, pelo abrigo, água, comida e carinho de nossa casa? — Sim. Entre uma liberdade limitada, a da rua, e outra, a de casa, eles preferiram a de casa, deixando que vocês digam como eles têm de se comportar. Isto é uma relação de poder. — Relação de poder? O que é isto? — É quando dois grupos vivem num mesmo espaço e se estabelecem regras de convivência. Há sempre nessa relação alguém que tem um poder maior do que o outro. Vocês têm poder sobre a gatinha e o cachorro, mas eles não têm o mesmo poder sobre você, seu pai e sua mãe. Entendeu? — Entendi. Quer dizer que eu tenho poder? — Sim, tem, mas porque seu pai e sua mãe estão unidos a você. Se fosse você sozinha contra a gatinha e o cachorro talvez você não tivesse poder nenhum. — Para ter poder tem que estar junto? — Sim, para ter poder tem que se unir. Quanto mais nos unimos, mais forte ficamos. — Entendi, vovô.


Segundo Diálogo
— Mas você ainda não me disse o que é revolução, vovô! — Chegaremos lá, Clarinha! Imagine, agora, que você, seu pai e sua mãe acordam, um dia, e quem está mandando em tudo é a gatinha e o cachorro. — Mas não pode acontecer isto! — Sei. Mas imagine se pudesse. O que você acha dessa nova situação, em que os animais de sua casa mandam nos seus donos. — Mas é uma mudança muito grande! Ia ficar tudo diferente! — Exatamente! Vocês iriam dormir fora de casa e eles dentro de casa. Vocês iriam comer ração e eles comida de gente! Esta mudança muito grande, como você diz, é uma mudança extrema. Uma transformação radical. — Extrema? Radical? O que é isto? — Mudanças extremas e radicais são aquelas medidas últimas de que nos utilizamos, quando já tentamos de tudo e não teve resultado. — Como assim? — Vejamos. Se você está com os pezinhos sujos e as mãos, de tanto brincar, mas está na hora de dormir, será que é preciso tomar um banho completo ou só precisa lavar as mãos e os pés? — Só lavar as mãos e os pés (sorrindo). — Exato. Lavar as mãos e os pés são medida alternativas. Tomar um banho numa situação dessas é uma medida extrema. — Sim (sorrindo). — Agora imagine que você está completamente suja, da cabeça aos pés, lambuzada de lama. Lavar as mãos e os pés resolveria a sua situação? — Não. Papai e mamãe me mandariam tomar banho. — Certo. Só a medida extrema e radical do banho resolverá a situação. — Então, se a gatinha e o cachorro começarem a mandar em nós é uma mudança extrema e radical, não é? — Sim. Sabe como se chama esta mudança extrema e radical? — Não. Como? — Revolução. — Revolução? Mas esta revolução não é possível! — Não, não é. Mas como eu lhe disse é um exemplo para que você saiba o que é revolução. Assim, aos poucos, poderemos chegar ao sentido mais concreto de revolução. — Certo, vovô.


Terceiro Diálogo
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George Zagoudis
— E, então, Clarinha, pronta para saber mais alguma coisa sobre revolução? — Sim, vovô. — Saiba que a historinha que vovô imaginou com a gatinha e o cachorro ganhando poder e fazendo uma revolução em sua casa, acontece com os seres humanos. — É mesmo? Como? — Você, sua mãe e seu pai, são uma parte da sociedade. — Sociedade? — Sim. É a reunião de várias famílias, como a sua e outras diferentes, vivendo num mesmo local, com as mesmas leis. Na sua rua tem muitas casas? — Sim. — Em cada casa tem uma família. Em todas as ruas, existem muitas famílias. E até famílias que moram na rua, como a daquela menininha que você conheceu e que morava embaixo do viaduto, lembra? — Sim, lembro. Por que moravam embaixo do viaduto e eu moro em uma casa? — Todas essas muitas famílias formam uma sociedade. Algumas têm casa e outras não, porque existem muitos problemas na sociedade e há algumas pessoas com muito poder, muito poder, mais do que você, sua mãe e seu pai têm sobre a gatinha e o cachorro, que não querem resolver estes problemas. — Por quê? — Porque não interessa a elas. Elas são muito gananciosas. — Gananciosas? — Sim. Querem sempre mais e mais. Não se contentam com o têm e não se preocupam com o que falta para os outros. — E essas pessoas que moram embaixo do viaduto não ficam com raiva? — Sim, ficam, mas não têm poder. Ou não sabem que têm poder. Estão tão enfraquecidas com o sofrimento que esquecem que têm poder. — E elas podem se lembrar, um dia, que têm poder? — Podem, sim. — E o que vai acontecer? — Elas poderão se unir e exigir mudanças. — Mudanças alternativas ou radicais? — Dependendo do poder delas, as mudanças serão radicais. — Então, elas podem fazer uma revolução? — Acredito que sim. — E com a revolução tudo muda para muito, muito diferente? — Às vezes, sim; às vezes, não. — Por quê? — Porque o ser humano ainda está muito apegado aos bens materiais e ao individualismo, querendo sempre mais. — Individualismo? — Sim. É quando alguém só pensa nele mesmo e só quer as coisas para ele próprio. — Como Julinho, que não deixa ninguém brincar com os brinquedos dele? — Mais ou menos. — Então, a revolução pode não mudar? — Pode. — E quando uma revolução pode mudar tudo? — Bem, Clarinha, só quando todos puderem se amar sem pedir nada em troca. — Mas isto é possível? — Sim, com muito esforço de cada um de nós, porque precisamos mudar, antes de qualquer coisa, a nós mesmos. — Como mudamos a nós mesmos, vovô? — Sendo bom e procurando sempre ajudar e respeitar as outras pessoas. — Quer dizer, então, vovô, que se respeitarmos e amarmos as pessoas, podemos fazer uma grande revolução? — Sim, meu amor. A mais poderosa de todas as revoluções vem pelo Amor.


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  1. Parabéns Milton Marques Júnior👏👏👏Belíssimo texto !!Didático a todos do universo humano..Do infantil.. Junenil..adulto e eteceteraetal...tão simples e profundo!!
    Paulo Roberto Rocha

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  2. Muito bom. E bonito o final ��

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