O planeta inteiro apenas para os dois irmãos povoarem! Um coordenaria e outro executaria o ousado projeto. Tal como uma tela em branco, pe...

Poema de fogo e luz

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O planeta inteiro apenas para os dois irmãos povoarem! Um coordenaria e outro executaria o ousado projeto. Tal como uma tela em branco, perante a qual o pintor se depara sob prévia inspiração, foram incumbidos de moldar inúmeras formas de vida sobre aquele paraíso nada morto. Não havia limites. Toda criatividade era permitida, obviamente para resultados ao nível do berço em que brotariam privilegiados seres.

Então se inicia a grandiosa obra de arte: idealizar as espécies que habitariam terra, céu e mar do formidável mundo. Répteis, pássaros, peixes, mamíferos, todos deveriam ser meticulosamente planejados em função do equilíbrio que garantiria a imprescindível harmonia. Os atributos de cada um lhes confeririam capacidade específica para lidar com peculiaridades do habitat, defesa própria, interação com os demais e desafios da sobrevivência. Tudo em perfeita sintonia com a magnitude da importante missão.

Tempos se passaram e ei-los diante da obra fenomenal que sequer haviam imaginado em todos os milênios. Quase pronta! Faltava aquele que seria o animal mais perfeito, o mais astuto, capaz de dominar os outros e que coroasse triunfalmente a primorosa realização. Afinal, eles, os criadores, eram filhos de titãs, entidades supremas que estiveram acima dos deuses olímpicos, antes de serem vencidos por Zeus, a divindade soberana que ora lhes incumbia de grandiosa façanha.

Os seres humanos foram assim concebidos. E, com a ajuda da deusa da sabedoria, Atena, bafejados com o sopro divino da inteligência, para o júbilo final.

Logo, porém, os dois irmãos se aperceberam de que o discernimento, o raciocínio, por si só, não assegurava àquele ente virtuoso o domínio sobre animais agressivos, encorpados, inclusive ferozes. O pupilo bem elaborado precisaria de algo que o tornasse superior, não apenas intelectualmente. Após meditarem sobre diversas possibilidades, uma perigosa ideia emergiu. Dar-lhes o fogo! A poderosa arma capaz de elevar o homem acima de todos os seres então gerados. Com o fogo lapidariam, forjariam, cozinhariam, e se armariam com poder inigualável sobre os demais.

E a história se encarregou de eleger o lume ardente como marca da evolução que simboliza a hegemonia que nos distinguiu entre todos os terráqueos. Prometeu e Epimeteu são os irmãos protagonistas desta saga mitológica que iluminou diversas expressões de arte, música e literatura. Drama de gênese romântica acentuada pela fúria provocada nos deuses, ao tomarem conhecimento de que a tocha de fogo, guardada como artifício exclusivo, que só eles possuíam, fora furtada do Olimpo.

Zeus, o deus supremo, não gostou nem um pouco do que considerou traição. Vingou-se de Prometeu, tido como principal culpado, mandando acorrentá-lo no alto de um rochedo do Cáucaso, para que uma grande águia lhe devorasse, aos poucos, o fígado. Mas o titã era imortal, e aquele órgão fisiológico é o único de nosso organismo que se recompõe naturalmente.
O que fez com que a impiedosa ave retornasse diariamente para cumprir sua missão infindável.

Após várias eras, Prometeu é salvo por Hércules que o liberta, em uma de suas heroicas aventuras extras, como se desejasse premiá-lo pelo benefício concedido à evolução da humanidade. Um dom que se estendeu infinitamente, fazendo-nos galgar a partir da conquista do fogo, também interpretado como sabedoria, um alcance inimaginável, principalmente no universo das artes.

Necessário e gratificante é perceber o valor da mitologia grega, que, após milênios, mantém-se fonte inexaurível, tal como a “água que mata a sede para sempre”, fundamental para o sábio burilamento de nossa consciência. Na música erudita, o Mito de Prometeu, de 3 mil anos de idade, influenciou peças magníficas, sob variadas formas e estilos, dos sinfônicos aos corais, cantatas e recitativos, clássicos, românticos, pós-românticos.

No balé intitulado “As criaturas de Prometeu”, estruturado em abertura e 2 atos, com 18 partes, Beethoven trata o personagem central como responsável pela superioridade do ser humano, privilegiado pela sapiência. A obra se desenvolve com fulcro na dança, no chamado “balé de ação”, com coreografia representativa dos episódios da narrativa e a feição de suas criaturas. Liszt vai mais além, ao criar uma cantata que teve introdução consagrada como poema sinfônico, composta para orquestra, coro e textos da obra do filósofo alemão Johann Gottfried Herder — “O Prometeu libertado” —, declamados como prólogo de cada movimento, entre partes corais e instrumentais.
A “furiosa” abertura da cantata ganhou vida própria e se inseriu entre os 13 célebres poemas sinfônicos do compositor húngaro. A abordagem musical se concentra no roubo do fogo, no sofrimento perante a condenação do titã, seguida do sentimento de esperança e concluída com o triunfo do “Criador”. O que resulta em uma obra cravada de paixão e tragédia.

Franz Schubert, Hugo Wolf, Augusta Holmès e Johannn Reichardt escreveram seus “Prometeus” em forma de lieds inspirados na concepção místico-filosófica de Goethe, contida no impetuoso poema sobre imaginários diálogos entre Zeus e Prometeu. A música flui com o texto em torno dos sentimentos de inveja e ciúme do deus olímpico, ao ver gestado o que estimou como a mais perfeita forma de vida da Terra.

O francês Gabriel Fauré emoldurou o mito em alto estilo incluindo em sua ópera Prometheus, de 3 atos, a tragédia lírica escrita pelos poetas franceses Jean Lorrain e André-Ferdinand Hérold. Aclamada pela crítica como “Grand Cantata”, marcou o início musical do século 20, quando estreou para um público de 10.000 pessoas, em Béziers (sul da França), em agosto de 1900, envolvendo 800 intérpretes com orquestra sinfônica, dois conjuntos de sopros, coral e 15 harpas.

Há outras notáveis criações musicais do final do século 19, inspiradas no tema épico, a exemplo da abertura de autoria do alemão Wolfram Bargiel, do coral cenográfico do britânico Hubert Parry e do “concerto-abertura” do austríaco Karl Goldmark.

Entretanto, (e aqui pode haver algo de pessoal) foi Alexander Scriabin o compositor que conseguiu manifestar-se com absoluta excepcionalidade no seu extraordinário “Prometheus, o Poema do Fogo”, composto em 1910, referido como a “Quinta sinfonia”, assim como o “Poema do Êxtase” é tido como a Quarta. Estes dois últimos trabalhos são exemplares de sua ousadia mística, pois, como grande visionário, Scriabin escreveu em fina sintonia com as convicções espirituais e extrapolou limites inatingíveis de transcendência cósmica.


É o Prometeu mais rico em imagens, sequências episódicas e sonoridades justapostas como espetáculos que, à primeira escuta, podem parecer desconexos em virtude da diversidade emocional que sugerem. Mas, sob ouvidos e olhar atentos, aprimorados por sensibilidade musical ampliada, faz-se nítida a unidade de sua conjuntura conceitual.

Logo na introdução retrata-se o que foi mencionado no início: a paisagem desolada, misteriosamente espantosa da Terra desabitada, erguida no cosmo e musicada com intensa força de expressão. Uma perfeita descrição sonora do panorama propício à criatividade titânica prestes a se consuma.

A composição inclui orquestra, piano, celesta, coral e órgão. Mas na integral original, Scriabin previu a inserção de efeitos sinestésicos por meio de instrumento de teclado inventado especialmente para exibir cores intrinsecamente relacionadas com a variação de sons e tonalidades. Um destes instrumentos, conhecido como clavier à lumières (teclado com luzes) foi idealizado pelo próprio autor para a execução especial, na cidade de Nova York, em 1915, ano de sua morte.

Na partitura, as notas correspondem às cores designadas por Scriabin como um sistema sinestésico, atrelado às modulações tonais (“ciclo das quintas”). Segundo a crítica, tais associações cromáticas foram influenciadas por inclinações teosóficas e noções de ótica de Isaac Newton, com as quais o autor nutria estreitas afinidades.

No ano em que o Poema do Fogo completou 100 anos, a Orquestra Sinfônica de Yale apresentou uma performance em New Haven especialmente produzida com tecnologia eletrônica para representar o êxtase experimentado por Scriabin ao imaginar a dimensão de sua obra.


A magnoeloquência criativa do compositor russo é tão assombrosa que apenas o prelúdio da última de suas obras — Mysterium — que restou inacabada, precisou de 72 páginas. Scriabin planejou a estreia de "Mysterium" para o sopé do Himalaia, na Índia, chegando a comprar um terreno onde montaria a audaciosa performance que duraria 7 dias e 7 noites, com efeitos sinestésicos envolvendo cores, tato e olfato, orquestra, coro misto, instrumentos de técnica visual, dançarinos, procissão, incensos, tudo articulado com cenografia, melodia e ritmos que produziriam atmosfera exuberante com ajuda de névoas e luzes, capazes de dar movimento aos contornos da arena e do relevo montanhoso.

Este sonho de Scriabin tinha caráter de premonição, algo profético, uma suposição de que, ao final do espetáculo, dar-se-ia a extinção do mundo com a imediata substituição da humanidade por espíritos com sentimentos mais elevados, iluminados numa espécie de insight,
uma catarse extasiante coletiva em consequência do poder purificador do “Mysterium”.

O megalomaníaco projeto não se realizou materialmente, mas se eternizou na imensa repercussão, a partir do material que Scriabin deixou com vistas à composição, que chamou de “Preparação para o Mistério Final”. Neste preâmbulo estavam reunidas suas crenças religiosas inspiradas pela teosofia de Madame Blavatsky, com a qual comungava abertamente. O manuscrito de 53 páginas resume uma obra coral e orquestral, não concluída, com finalidade apenas de habilitar o público para a experiência transformadora do Mysterium.

A ideia era tão espetacular que estimulou o músico russo Alexander Nemtin, nascido 20 anos após Scriabin, a trabalhar por 28 anos para, por fim, registrá-las em gravações, inclusive interpretadas pelo maestro e pianista russo Vladimir Ashkenazy, com a Sinfônica de Berlim.

A arrebatadora ideia permite remontar ao universo colorido de “Prometheus, o Poema do Fogo”, a última peça orquestral de Alexander Scriabin, contornada com a luminosidade que conceituou todo seu trabalho, idealizado sob profunda consciência cósmica.

O tema principal , uma sequência ascendente de 8 notas, está presente sistematicamente em todo o poema. É solene, instigante e sempre anunciador de algo dramático, trágico, mas, ao mesmo tempo, reveste-se de delicadeza em várias cenas. Como se Scriabin sintetizasse nestas aparições fragmentadas a diversidade de situações do mito, constituídas e entrelaçadas numa só tessitura. Ora soam impressionistas, debussynianas, no vaporoso tilintar do piano, ora esbravejam heroicamente nos trompetes e percussão. As exposições ocorrem sob a mais variada gama de formas, seja em diferentes tonalidades, frases curtas ou estendidas, ora fortes, ora suaves, em que este “grito” mitológico é constantemente lembrado.

Todas as cenas do Poema do Fogo são descritas nesta fantástica narrativa grega quase cronologicamente. A paisagem terrena original, a lapidação inicial das criaturas, a poesia que contempla a criação, os sucessivos resultados, o surgimento dos humanos, o atributo da inteligência, a ideia de lhes conceder o fogo roubado dos deuses, a ira vingativa de Zeus, tudo caminha coeso até o final vitorioso da sagração da humanidade como ápice da evolução, divinamente representado nas partes corais.

A virtuosística participação do piano, de caráter técnico dificílimo, reflete também, em marcantes passagens, o instrumento esculpidor das criaturas, nos vibrantes diálogos com o criador estabelecidos ao longo da narrativa, com intencional dramaticidade sonora. Em contraponto, instantes voláteis de filigranas bem-humoradas, e até mesmo jazzísticas, se perfilam a conferir certas doses de leveza às nuances poéticas, na diegese e exegese da simbólica trama.

É, sem dúvida, uma obra completa em todos sentidos, pois abriga o espírito do compositor de maneira integral. Scriabin colocou-se por inteiro dentro deste poema sinfônico. Fez alusões ao caráter épico de suas sinfonias, ao romantismo de seu concerto para piano e orquestra, à monumental criação para piano solo, sobre a qual a crítica se referiu como “fluida e diáfana como a recordação de um sonho”, e aos portentosos corais inseridos nas invenções orquestrais. No piano, é incontestável a presença e confluência estilística simultânea de seu antecessor Chopin (romântico) e dos contemporâneos Rachmaninoff (romântico tardio), e Debussy (impressionista).

Entre as análises críticas de suas peças, há uma que bem define os princípios inspiradores: “Escutando Scriabin, entra-se noutra galáxia: não há contornos definidos nem sentido de progressão óbvio, ‘apenas’ ondulações e cintilações”. No livro “Inventário da Música Contemporânea” (1924) o compositor, professor de artes e crítico musical escocês Cecil Gray associou a música de Scriabin a substâncias psicotrópicas. Há quem considere que o autor “talvez tivesse o ‘proto-psicodelismo’ de Prometheus em mente”.

O antigo mito grego, portanto, é uma história que possui a força que simboliza a criação da arte, o poder de transmutar a ordem da natureza em cultura, sob civilizadora influência do conhecimento. Reúne ideais de iluminação interior, por vezes ambíguos e controversos, em direção à libertação da mente e do espírito.

Na Música descobre-se uma nova forma de ler não apenas o mito em epígrafe, mas muitas outras páginas da literatura universal. Uma forma abstrata em seu delineamento, mas nítida e concreta nos efeitos que promove na intimidade de quem a desfruta.

Scriabin não realizou o Mysterium, intento final acima dos limites imaginários de sua época, pois retornou ao mundo espiritual com apenas 43 anos. Mas, sob os méritos de sua contribuição à arte e das emoções que até hoje extasiam a humanidade, decerto encontrou por lá muito mais do que imaginou no sopé do Himalaia...

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  1. Ângela Bezerra de Castro13/12/20 13:39

    Aprendo, cada dia mais, lendo seus textos sobre música.
    É um sublime prazer acompanhá-lo nessa aventura de sensibilidade e erudição. Escrever é isso. Abrir caminhos para que descubram novos horizontes.

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  2. Caríssimo Germano Romero!!!realmente aprendemos insistentemente com seus textos!!
    Paulo Roberto Rocha

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  3. BRAVO! Mais uma Aula Magna que você nos oferece!
    Meu Deus, quanta erudição! Bravíssimo, Germano!

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    1. Segundo meu filho Henrique, o Mundo se acabará ao som de Carmina Burana, executada por André Rieu. Concordo com ele.
      Eu acrescentaria Live and Let Die, executada por Guns N’Roses, para dar sequencia a Carmina Burana, se ainda restar alguem para ouvir!

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