Passei a conhecer melhor Frutuoso Chaves em inícios da década de 1970, quando me entrevistou para o jornal “ A União”. Na oportunidade, ...

Papo de rede

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Passei a conhecer melhor Frutuoso Chaves em inícios da década de 1970, quando me entrevistou para o jornal “ A União”. Na oportunidade, recém-chegado de Curitiba, onde eu fora receber um dos prêmios do Concurso Nacional de Contos do Paraná, em plena ditadura Médici, ele me provocou: “O que você acha da proibição da exposição das obras eróticas de Picasso no território brasileiro? ” Remeto o leitor para o texto “Sérgio e Picasso”*, publicado no presente livro, que revela o repórter desassombrado que ele sempre foi.

De outra feita, na condição de editor do já extinto jornal “O Norte”, convidou-me para colaborar com uma coluna semanal sobre literatura. Declinei do convite por conta dos muitos afazeres que me tomavam praticamente todo o tempo. Na ocasião, sugeri o nome de Hildeberto Barbosa Filho, que foi de pronto aceito por ele. Fiquei lisonjeado, pois, naquele tempo, Hildeberto apenas tateava nos caminhos tortuosos da crítica e da poesia.

Na imprensa paraibana, Frutuoso foi copidesque, repórter, editor, isso sem contar a função de correspondente dos principais órgãos da imprensa brasileira: “O Globo”, “Jornal do Commercio”, revista “Algomais” etc. Faltava-lhe, tão somente, dar perenidade aos seus textos, enfeixá-los em forma de livro, o que o faz agora com “Papo de Rede”.

Mas, o que dizer do Frutuoso desse livro? Que escreve como quem faxina. Ou seja: não permite que o menor cisco, por mais insignificante que seja, turve ou tisne a sua linguagem solar. Para ele, então, uma palavra a mais, um período a menos, adquirem a mesma proporção da pedra drummondiana, a qual ele remove do meio do caminho para assegurar a desenvoltura do texto. Bem sei que outros, a exemplo de João Cabral de Melo Neto, preferem “a educação pela pedra”, a palavra “como grão imastigável, de quebrar dente”, cuja tarefa consiste em obstruir a “leitura fluvial, fluviante”, para açular, instigar, a atenção do leitor. Frutuoso, diferentemente, deseja que a sua linguagem flua “mansa e pacífica como um rio canalizado”.

A sua formação jornalística o levou a primar pela objetividade, evitando os circunlóquios, as tergiversações, os excessos. Aliás, a faxina do texto já denota a incorporação de um estilo em que ele privilegia o principal em detrimento do acessório, corroborando, assim, a sábia lição de Tchecov: se a espingarda não exerce uma função determinante no interior do núcleo dramático, convém ao autor expurgá-la da narrativa.

No seu caso, a concisão não recalca o subjetivismo, os ditames do eu profundo, do contrário enquadrar-se-ia entre aqueles que Nelson Rodrigues denominou de “idiotas da objetividade”.

Já o título desse livro – “Papo de rede” – resulta de um feliz achado, qual seja o de não só fazer menção às redes dependuradas nas varandas das casas como também às redes sociais – onde, originalmente, os textos aqui reunidos foram publicados – dependuradas em satélites. E o que o autor deseja com esse título inventivamente ambíguo? Apenas – o que não é fácil – embalar textos que envolvam e prendam o leitor como uma conversa caseira, amena, extrovertida, inteligente, destituída de qualquer ranço professoral. No que obtém pleno êxito, mais ainda se for levado em consideração o quanto é difícil ser simples sem ser simplório.

Por último, permito-me uma sugestão: que Frutuoso Chaves selecione e reúna em outro livro as reportagens e entrevistas dispersas em jornais, revistas e outras publicações do gênero. Se o fizer, propiciará ao leitor uma espécie de manual, de guia prático do jornalismo, fonte de aprendizado destinada aos leitores de um modo geral e em particular aos alunos de Comunicação.

*Conto esse episódio no texto 'A Poesia é meu estandarte', inserto no livro “ Sérgio de Castro Pinto: 70 anos de vida e 50 de poesia” (Ideia Editora, 2017), organizado pela minha filha primogênita, Maria Cecília de Castro Pinto Almeida: “Em 1972, recém-chegado de Curitiba, onde fora receber um dos prêmios do Concurso Nacional de Contos do Paraná, em entrevista ao jornalista Frutuoso Chaves, para o jornal ‘A União’, critiquei a proibição da exposição das obras eróticas de Picasso no território brasileiro: ‘O ministro Alfredo Buzaid confundiu a obra de arte do mestre Picasso com a pica de aço do mestre de obras”. // Segundo soube depois, a entrevista por muito pouco não provocou a demissão de Frutuoso e do jornalista Antônio Barreto Neto, que ocupava a função de editor do jornal no governo Ernani Sátiro, homem de extrema confiança do regime militar”.
◼ Prefácio do livro Papo de rede, de autoria de Frutuoso Chaves, a ser lançado

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