A foto de 5 crianças posando para uma simulada selfie na qual uma sandália de plástico faz a vez do celular que não possuem, é um petardo ...

Baterias da mente

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A foto de 5 crianças posando para uma simulada selfie na qual uma sandália de plástico faz a vez do celular que não possuem, é um petardo de alegria que vem pela internet ultrapassando latitudes e longitudes há mais de 2 anos.

Diante da foto, qualquer um de nós dá-se o direito de pensar na possibilidade daquelas crianças estarem talvez mais felizes ali, onde o princípio tecnológico da ação foi abolido em favor de uma fantasia compartilhada, do que estariam caso tivessem à mão um celular de verdade, e isso nos leva a crer na possibilidade de uma proeza metafórica poder as vezes resultar num tipo de alegria mais expansível que outras mais duramente enquadradas nos delimites da realidade,
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FonteBreath of Joy
já que podemos duvidar da graça que essa imagem despertaria em usuários da rede, caso surgisse escalpelada desse ingrediente teatralmente cômico revelado na foto.

Isto nos dá o direito de supor que aquilo que muitas das vezes faz uma alegria de espirito pode, sim, depender mais da efusão de um sentimento abstratamente construído do que propriamente possa emanar de algum objeto que, apesar de sua concretude, nos seja alheio e de difícil alcance, e ainda, que essas coisas situadas em dimensões praticamente intangíveis entre si como esse objeto externo e aquele sentimento interno, podem, sim, muito bem conectar-se através desse liame falho e incerto da representação teatral. Dito isto, talvez possamos sacudir o mofo das asas como faz um pássaro antes de empreender uma subida íngreme aos vazios do espaço, e dar, no nosso caso, um pequeno voo em direção às origens remotas da arte e seus registros icônicos mais primitivos, que a seu tempo expressaram, ou protagonizaram recursos ritualísticos de magia, anteriores até mesmo às representações religiosas de imagens sagradas como a Estatueta de Willendorff (imagens), que representa uma mulher com seios, barriga e vulva destacados, simbolizando alto poder de fertilidade, achada que foi em uma escavação arqueológica próxima ao Rio Danubio, e apontada depois pelos testes de carbono-14 com idade entre os 24 e 26 mil anos a.C.

Muitas são as dúvidas e hipóteses levantadas por estudiosos do assunto a respeito dessa suposta Deusa-Mãe, embora algumas dessas conjecturas venham a fazer inegável sentido. Vejamos. Construída com oólito – material próprio do Periodo Jurássico francês –, inencontrável na região austríaca da coleta, uma circunstância geofísica que praticamente nos obriga a conceder a essa pequena estátua a propriedade transportável dos talismãs, produzida por um tipo de sociedade nômade caçadora/coletadora, e, em que pese uma informação tão remota, o registro desse tipo de apelo não nos traz muita novidade, afinal os escapulários e crucifixos de pescoço vendidos aos fiéis pela igreja católica durante todo o medievo e até os tempos modernos, carregaram em si uma portabilidade salvacionista bastante similar. Por outro lado, é bem razoável
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WikipediaHK Museum
supor naqueles caçadores nômades uma busca por proteção que fosse do tipo mais corpórea que espiritual (levando-se em conta também para o nomadismo daquela mãe em trabalho de parto, uma grande apreensão pela elevada mortalidade não só de rebentos quanto de parturientes nesse paleolítico inferior), além de suas naturais aspirações à fortuna na caça, para a qual, além das armas e armadilhas com as quais o grupo se provia, carregavam também seus amuletos da sorte.

Mas para os dois casos – a estatueta transportável e o celular de bateria movida à imaginação – a transcendência se torna um elo de ligação. Os dois transcendem à sua exata conformação material para se tornarem instrumentos de transformação da realidade, veneração e poder social. A mulher que carregava a estatueta se queria poderosa e importante para o bem-estar e sucesso do seu grupo. O menino que maneja a sandália será visto como um prestidigitador, uma espécie de mago capaz de romper por instantes as limitações da pobreza material de seu grupo. Em maior ou menor escala, essas crianças da fotografia, mais do que simplesmente falsificar uma atitude, fazem uma mimese de sua momentânea idade biológica com a própria infância da humanidade situada no paleolítico inferior, cujos avanços mais significativos incluíam certamente uma crença poderosa na magia.

Certamente sem se dar conta disso, o grupo das 5 crianças produziu uma divertida, alegre, mas não pouco significativa síntese da caminhada humana, desde os seus primeiros passos na Idade da Madeira até essa atual, do Silício, deixando embutidas na cena captada pelo celular de borracha os milênios de dureza que foi atravessar as idades do Ouro, Bronze e Ferro. Como se não bastasse, essas crianças, assim como quaisquer outras dos variados lugares e condições sociais vigentes na terra, nos dão a impressão de nascer já com com um tremendo domínio no uso desses incríveis computadores de bolso.

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