NENHUM OLHAR Nem um olhar Nenhum olhar Que ninguém veja. Há apenas o silêncio Em conserva, Preservando nosso Sopro de vida, Esse ...

Temporal

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NENHUM OLHAR
Nem um olhar Nenhum olhar Que ninguém veja. Há apenas o silêncio Em conserva, Preservando nosso Sopro de vida, Esse vento de morte Essa boca atada, Calada sobre tudo, Prostrada sobre o mundo. E eis que sou convocado A acordar o mundo Depois que o imundo Interceptou o sexo, Tomou-me sem nexo, Depois que o verbo Foi adjetivado. Descobri que não sei A gramática dos afetos. A sintaxe do tempo Virou somente ausência, Semântica sem morfologia, Afônico amor, A nos sugerir A preposição do (per)verso Na conjunção da carne. Todo silêncio é refletido Quando a voz é passiva. Todo silêncio é reflexo Da voz ativa. Sinto falta da voz recíproca. Eu quero um “a gente” Paciente. Eu quero um nós Que possa ser Conjugado em todo Tempo, modo, pessoa. Quero um sujeito plural Que seja singular.
TEMPORAL
Tempo (in)vestido nos teus olhos. Tenho revertido em meus olhos o íntimo que já não se intimida, ao revelar uma eternidade que já se mostra utópica. Nostalgia talvez seja o ressentimento de todas as expectativas frustradas pelo eu e as circunstâncias às quais nos rendemos e de que somos reféns Se ao menos eu pudesse ser mais pai de mim quanto Deus é do nada, mas eu sinto que há um Tudo que se emerge nos delicados sinais: Ele está no aparente desconexo, no surpreendente sexo, suspenso num abraço infantil. Ninguém me ofertará voz enquanto eu oscilar entre o desejo e a vontade. Ainda assim, assim ainda serei perverso. Por ser humano, satura do mundo
NINFA
Você engravida a vida Como uma ninfa recostada No pântano de si mesmo. Eu já não recitava nenhum poema Sob lasca alguma de luz, Mas seus anseios insistem em escutá-los, Sem questionar o que te move a mantê-los. Teu calcanhar são meus versos Que te fazem perder uma guerra, Na qual nunca entrou. Por que cruzar doçura Com a violência de seus beijos Se um poeta já não vale nada Se é que um dia valeu… Não te inflas, não te inflamas, Não inflamada e inflada fiques. Porque é preciso que tu partas Se quiseres ser inteira.
TRANSGRESSOR
Perplexo não me mexo Diante do reflexo Do cheiro do tato No ato disfarço O peso da luz Que soberana sobre mim. Quero mostrar que Sou mais velho, Que estou ponderado, Que minha lucidez Transcendeu o romantismo, Mas que a pragmática Não me retirou os sentimentos. Ainda tenho memória E, se os fantasmas dormem, É porque estou De-ma-si-a-da-men-te Acordado. Fiz um acordo comigo: Entre os meus lençóis Não haverá mais freio, Não haverá mais receio, Perdurarão meus pés Atravessando o mundo.
RESSUSCITAR
O que ressuscita em mim É o que me mata É aquilo que nunca morre É a palavra (re)contada O aceno (des)esperado A voz cortada e cortante. É o segredo desvelado É o meu desejo velado; Meu livro sobre um corpo Fechado. Temporal, tempestade, tempestivo. Tempo. É o que não temos E o que nos sobra. Soçobra em mim o vento, Relento, o invento: Raiz que quer ser fruto.

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