O vento tem gosto? O meu tem! O meu Amigo Vento só me desperta prazeres. Tomar um banho e me deixar secar ao vento é um deles: estimula a...

O sabor do vento

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O vento tem gosto? O meu tem! O meu Amigo Vento só me desperta prazeres. Tomar um banho e me deixar secar ao vento é um deles: estimula as catecolaminas, restaurando as minhas forças. Entre outras utilidades, meu Amigo Vento também me ajuda a forrar a cama e dobrar os lençóis: apenas dou uma sacudidela para cima, levantando, e ele se enfia por baixo, alinhando as pontas.

Quando menino ia pegar ondas na praia de Tambaú, pegar jacaré, como chamávamos. Para vir uma onda boa eu assobiava chamando o vento. Aprendí com o primo Ricardo Guerra Barreto. Hoje vejo com satisfação e uma pontinha de inveja pessoas praticando windsurf na Praia Formosa.

O vento às vezes se torna travesso e é capaz de algumas proezas, como levantar as saias das moças e fugir sorrindo! Como bem deixou registrado o saudoso
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Winslow Homer ▪ 1883
escritor Ronaldo Monte, em sua crônica “Segurem as saias, meninas, lá vem o Agosto”.

Moro numa das regiões mais quentes do país. No entanto, aqui em João Pessoa o calor não é problema, pois nós dispomos da brisa. Pois é, por mais que esteja quente ao sol, se dermos um passo para a sombra já nos chega o alivio.

Já o Alto Sertão paraibano é extremamente quente, não fazendo muita diferença com os outros estados, e não tem brisa. Quando ando por lá, de dia a sensação que eu tenho é que estou dentro de uma terrina de sopa: tanto faz estar na sombra como no sol, não tem diferença. Porém por mais quente que lá esteja, à noite passa pelas suas cidades um vento chamado de O Aracati. Velho conhecido dos nossos sertanejos, ele chega batendo as portas e janelas, e em algumas cidades ele marca a hora de recolher as cadeiras da calçada: “Lá vem o Aracati, hora de dormir!”

O vento tem muita importância para a natureza, auxiliando as mudanças de estação, colaborando para as chuvas, dispersando as sementes das árvores, e também aliviando o calor dos animais. E por tabela beneficia o Homem. Orienta o agricultor para saber qual é o melhor momento de plantar.

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Winslow Homer ▪ 1865
É claro que às vezes o vento exagera, provocando furacões que causam destruição. Mas isso é só pra quebrar a monotonia. E felizmente o Brasil não tem furacões. Tem outros males.

A mais recente utilidade do vento é a geração de energia limpa, a energia eólica. Nela está o futuro, junto com a energia solar é a esperança do fim da poluição ambiental causada pela energia obtida do combustível fóssil. Têm surgido controvérsias, mas ainda é muito cedo para se afirmar que possam provocar algum prejuízo ao meio ambiente.

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Winslow Homer ▪ 1880
No passado o vento foi o principal recurso que permitiu a expansão das civilizações, o descobrimento de novos continentes. Pois, como força motriz, tornou possível a realização das grandes navegações através dos oceanos. Quando faltava provocava revoltas.


Mas o vento pode ser uma má referência. É o caso do cabeça-de-vento, aquela figura doidivanas, que não mede conseqüências dos seus atos. E em São Paulo às vezes os pasteleiros são acusados de vender pastel-de-vento: sem recheios.

Na musicografia ele é muito bem citado. Em 1949, Dorival Caymmi gravou uma bela e misteriosa canção chamada O Vento:

“Vamos chamar o vento...”


Pertence ao longo repertório do autor, voltado principalmente para temas regionais, como, por exemplo, O Mar ou É Doce Morrer no Mar. Ambas gravadas em 1943, e muito bonitas.

Já Bob Dylan, confiou as suas respostas ao vento, na música Blowing in the Wind, gravada em 1963:

“The answer, my friend, is blowing in the wind...”

No cinema a citação mais célebre é ...E o Vento Levou, lançado por Hollywood em 1939, direção de Victor Flemming, com Vivien Leigh e Clark Gable.

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Porém, mais recentemente foi lançado um excelente filme africano, O Menino Que Descobriu o Vento, de 2019, do Malawi, com direção de Chiwetel Ejiofor. Linda história, aborda temas como humanismo, senso comunitário, ecologia, e demonstra que a educação cria oportunidades que permitam que gênios sejam revelados onde menos se esperava.

Na literatura, em 1949, Érico Veríssimo, um dos maiores escritores brasileiros, publicou a trilogia O Tempo e o Vento, que conta, através da saga de uma família gaúcha, a história da formação do Estado do Rio Grande do Sul. A história é épica, cobrindo 200 anos de evolução. É composta por três livros: Livro 1: O Continente; Livro 2: O Retrato; e Livro 3: O Arquipélago.


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Winslow Homer ▪ 1898
Pois é, esse é o meu Amigo Vento, celebrado na música Eternas Ondas como o formador das ondas que derrubam as cidades, de Zé Ramalho, gravada em 1997:

“E se teu Amigo Vento não te procurar...”

O vento tem me acompanhado desde menino, ao longo dessas décadas todas, agindo sempre como fator revitalizante para mim. E seguiremos juntos por muitos anos ainda.

Encerro ouvindo a linda música que a escritora e amiga Ângela Bezerra lembrou: Prece ao Vento, de Alcir Pinheiro, Fernando Luiz e Gilvan Chaves, gravada originalmente pelo Trio Nagô em 1954. Que beleza!

Prece Ao Vento
Vento que balança as palhas do coqueiro Vento que encrespa as ondas do mar Vento que assanha os cabelos da morena Me traz notícia de lá Vento que assovia no telhado Chamando para a lua espiar ô Vento que na beira lá da praia Escutava o meu amor a cantar Hoje estou sozinho e tu também Triste, mas lembrando do meu bem Vento diga por favor Aonde se escondeu o meu amor

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  1. Muito bom. Mostrou que o vento é quase uma entidade, coisa de fúrias e fadas na vida real.

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  2. Parabéns, amigo, linda crônica sobre um amigo que temos em comum: o vento!

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  3. É isto mesmo, caro Zé Mário.
    Eu, quase nascido nas praias de nossa terra, incorporei grande o vento com parcela parcela significante de minha vida, desde quando, ainda menino recém autorizado a usar calças compridas., sinal, naquela época, da linha divisória entre infância e adolescência.
    Frequentei consideráveis parcelas de nossas praias e, no centro desse meu universo lá estava Tambaú, seus coqueiros, suas gameleiras e seus pescadores a nos dar lições de vida e de coragem, nas suas jangadas de pau-a-pique, em que saiam nas madrugadas radiosas para cumprir seu destino de trazer o peixe que Caymmi canta e que ainda hoje faz nossas delícias.

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    1. Amigo Arael: a natureza exerce grande fascínio sobre mim. Vejo com alegria que não estou só, pois também atua sobre muitas outras pessoas, como as que aqui se manifestaram, às quais eu agradeço as palavras de incentivo.

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  4. A natureza exerce grande fascínio sobre mim. Vejo com alegria que também atua sobre muitas outras pessoas, que aqui se manifestaram, às quais eu agradeço as palavras de incentivo.

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  5. A natureza exerce grande fascínio sobre mim. Vejo com alegria que também atua sobre muitas outras pessoas, que aqui se manifestaram, às quais eu agradeço as palavras de incentivo.

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  6. A natureza exerce grande fascínio sobre mim. Vejo com alegria que também atua sobre muitas outras pessoas, que aqui se manifestaram, às quais eu agradeço as palavras de incentivo.

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