A melhor definição que já vi para o epigrama encontra-se em Os sertões, de Euclides da Cunha. O escritor fala da organização metódica do M...

Um epigrama malévolo da História

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A melhor definição que já vi para o epigrama encontra-se em Os sertões, de Euclides da Cunha. O escritor fala da organização metódica do Marechal Carlos Machado de Bittencourt, então secretário de Estado dos Negócios da Guerra, posto equivalente ao do antigo Ministro da Guerra, tomando as providências para criar uma base de operações, de modo a fazer fluir os comboios e apoio para as tropas da quarta expedição sitiadas em Canudos. Euclides traça o seu perfil como o de homem “friamente, equilibradamente, encarrilhado nas linhas inextensíveis do dever. Não era um bravo e não era um pusilânime” (“A Luta”, Parte IV – Quarta Expedição, Capítulo VIII, p. 541). Homem das normas, Machado de Bittencourt “tinha o fetichismo das determinações escritas.
Carlos Machado de Bittencourt ▪ 1840—1897
Não as interpretava, não as criticava: cumpria-as” (Penguin Classics Companhia das Letras, 2019, p. 541-542).

Diante do caos que se apresentava, com as expedições sendo, uma a uma, desbaratadas pelos jagunços, numa feroz guerra de guerrilha, Machado de Bittencourt resolve combater os ímpetos heroicos e, de maneira tenaz, traçar planos pragmáticos, embora parecessem ridículos aos olhos da impaciência que gerava a impulsividade e dava azo a que os jagunços continuassem infligindo derrotas humilhantes às forças do governo brasileiro, chamadas ironicamente de “fraqueza do governo” (“A Luta”, Parte II – Travessia do Cambaio, Capítulo III, p. 313). Sem os rasgos brilhantes dos estrategistas, nem a impetuosidade dos lidadores, Machado de Bittencourt, na sua impassibilidade tenaz, “organizava comboios e comprava muares” (Parte IV – Quarta Expedição, Capítulo VIII, p. 546).

Nem gênio, nem herói, o marechal apela para a praticidade, que o levaria à vitória, terminando, como disse Euclides da Cunha, por onde deveriam ter começado (Capítulo VIII, p. 544). É quando surge a genialidade do escritor para dar uma imagem adequada à situação, sem qualquer imagem rebuscada, a partir de um símile, mas com um conteúdo dos mais substanciais podemos encontrar:

“Dispensava o heroísmo, desdenhava o gênio militar, excluía o arremesso das brigadas, e queria tropeiros e azêmolas. Esta maneira de ver implicava com o lirismo patriótico e doía, feito um epigrama malévolo da História, mas era a única. Era a forçada a intrusão pouco lisonjeira de tais colaboradores em nossos destinos. O mais caluniado dos animais ia assentar, dominadoramente, as patas entaloadas em cima de uma crise, e esmagá-la...”.
— p. 546 —

A imagem é perfeita. Com o epigrama, dá-se a passagem, na poesia do assunto heroico e grave da épica, para o assunto comezinho e prosaico da vida cotidiana, cuja melhor representação está no cotidiano e na ironia que ele veicula. Ao ímpeto guerreiro do coronel Moreira César, baleado e morto no início da sua expedição, e à obstinação heroica do general Artur Oscar, enfrentando com denodo a guerrilha de tocaia dos jagunços e os atiradores de escol, em que “a caça caçava o caçador” (Parte IV – Quarta Expedição, Capítulo IV, p. 473), mas avançando com suas tropas ainda que lentamente e sob fogo constante, para pôr um pé em Canudos, Machado de Bittencourt prefere coordenar o apoio às tropas, municiá-las, de armas e de provisões de boca, vencendo na paciência, na persistência, no cálculo.

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5 de setembro de 1897 ▪ Militares, jornalistas e observadores reunidos em missa realizada no distrito de Cansanção, Monte Santo, Bahia, onde ficava o quartel-general do exército durante a Guerra de Canudos ▪ Fotografia de Flávio de Barros ▪ Arquivo Histórico do Museu da República.
Machado de Bittencourt, no seu pragmatismo de homem indiferente e contrafeito aos discursos inflamados, às “manifestações ruidosas”, aos “versos flamívomos” e aos “oradores explosivos” (Parte IV – Quarta Expedição, Capítulo VIII, p. 542), arrancou a campanha do ufanismo que se derramava em notícias de “vitórias certas” e “fanáticos visivelmente abatidos” (Capítulo V, p. 513-514), transmudando “um conflito enorme em campanha regular” (Capítulo VIII, p. 545).

O epigrama, na sua ironia e no seu prosaísmo, revela, através da campanha regular de seu discurso, a vida nos seus desdobramentos humanos, alternando erros e acertos, pondo-se distante das ações altaneiras dos heróis épicos, mais próximos às divindades do que do homem comum, cegado muitas vezes pela sua vaidade e seu orgulho. Gênios e heróis têm o seu lugar na história, assim como a épica o ocupou por muito tempo, mas são os medianos com as suas medidas práticas, que dão sustentação ao curso da vida. A épica é de uma eloquência que exalta, mas o epigrama é de uma praticidade que desnuda a fanfarronice. Afinal, como disse Euclides da Cunha, diante das medidas tomadas por Machado de Bittencourt, “mil burros mansos valiam na emergência por 10 mil heróis” (Capítulo VIII, p. 546).

É o epigrama desnudando para o terra-a-terra, o heroísmo que, em muitas ocasiões, se revela inócuo, como Heitor correndo de Aquiles.

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  1. É muito bom ver quem tão bem escreve sobre o texto de Homero, faça o mesmo com Euclides da Cunha.

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  2. Milton Marques Junior Carlos Romero
    Dois mestres da escrita lapidar.

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