O quadro que pretendeu representar um momento importante da vida brasileira (O Grito do Ipiranga) cobriu-se com um manto de irrealidad...

Na curva da transcendência (II)

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O quadro que pretendeu representar um momento importante da vida brasileira (O Grito do Ipiranga) cobriu-se com um manto de irrealidade do começo ao fim, embora para muitas pessoas da época, e do ponto de vista estético do Romantismo, essas apropriações autorais e tentativas de glamourização histórica fossem passíveis de ser enxergadas como uma atitude não apenas louvável, mas até recomendável.

A distorção gerada por uma inflamada percepção artística como a do Romantismo talvez pudesse ser vista até hoje como uma beleza não só extemporânea como atemporal, caso as revisitações históricas do futuro não se vissem na obrigação
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de buscar no passado a justeza dos fatos, e a verdade histórica nos diz que Pedro I tinha ido ao litoral paulista visitar a amante conhecidíssima (Marquesa de Santos), e na volta, montado em burros já que os cavalos brasileiros da época (não havia cavalos de raça como os pintados no quadro, extraídos da Guarda imperial de Napoleão, figura central da obra original) não conseguiam subir a serra, recebeu de um mensageiro a ordem vinda da Europa para que retornasse a Portugal. A impressão histórica que acabou se tornando recorrente em função da pomposa representação pictórica é que o Pedro I não tinha ido ao litoral santista visitar uma amante, na companhia discreta de um pequeno corpo de auxiliares, mas protagonizar um evento calculado, de pompa e circunstância, ao se negar a retornar para a corte portuguesa.

O baiano Rui Barbosa é outro prato cheio para quem gosta de lisonjear vultos marcados por dubiedade e/ou teatralidade politica. Por 3 vezes candidato ao cargo máximo da recém fundada República brasileira, constituíra-se numa recorrente opção eleitoral ao estar sempre compondo uma chapa onde era evidente seu papel de mero figurante, em uma democracia que jamais existiu em seus anos de vida, e que, por força da mais corriqueira ética humanista, precisaria mostrar-se avessa a sistemas escravagistas – o que em tempo algum ocorreu no Brasil. O que o torna irremediavelmente suspeito é o fato de estar sempre recebendo cargos e prebendas em função dessa suposta disponibilidade para
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uma politica de faz-de-conta, como quando foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional, um indiscutível prêmio de consolação por mais uma “campanha perdida”: uma vez no cargo resolveu destruir, de conta própria, o imenso arquivo de papéis e notas de compra e venda de escravos no Brasil, armazenados tanto no Rio de Janeiro quanto na Bahia, incendiando-o.

O que o nosso herói brasileiro – que havia aderido à Proclamação da Republica um dia após o levante antimonárquico – disse para justificar o crime da queima dos arquivos? que o fazia para não pagar indenizações devidas aos proprietários de escravos... mas como não pensou no passado genético dos milhões de pessoas de raça negra, tidas hoje como surgidas abruptamente do nada? e suas possíveis indenizações? mais incrível que isto só mesmo a fama de inteligente que a jovem imprensa escrita do Brasil espalhou a respeito dele.

Mas, como foi dito antes, algumas escorregadelas de “gênios” feito essa não passam por imperdoáveis num país de formatação histórica tão subjugada por forças externas quanto o nosso. Em vez de os condenar, precisamos – isto sim – vangloriar os milagres geridos por alcances visionários, porventura brotados do solo brasileiro. Falar nisso, um dos cérebros nacionais mais irrevogavelmente genuínos que nossa história registra, aparece na sua frente se você gritar por Euclides da Cunha.

Marcado por um pensamento social quase mecanicista, pelo seu Positivismo e Determinismo geneticista (um tipo de eugenia seletora cevada em etnocentrismo que, entre outros, perpassa Kant e Hegel), e por outro lado bombardeado pelos últimos afagos estéticos do Romantismo, Euclides trouxe para o que inicialmente pretendera ser uma reportagem de Jornal a respeito da guerra de Canudos,
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um arcabouço de concepções geopolíticas que inaugurariam no Brasil as primeiras tentativas de racionalização do severo distanciamento entre a elite litorânea e aquele Brasil profundo das gentes pobres, fugidas para os carrascais e rotas bandeirantes do interior.

É quase impossível que Euclides não tenha sofrido a influencia que o francês Arthur Gobineau exerceu como diplomata no Rio de Janeiro. Antes de ser nomeado como embaixador plenipotenciário no Brasil, O autor de “Ensaio sobre as diferenças raciais”, 1855, havia se tornado referência mundial na farsa cientifica da Eugenia Racista (uma “boutade” daquele terraplanismo filosófico do século XIX defendido por Gobineau, cujo credo suprematista iria redundar nos extermínios praticados por nazistas na 2º Grande Guerra). Eis aqui uma de suas frases mais famosas: “Não creio que viemos dos macacos, mas acredito que estejamos caminhando nessa direção”. Ou seja, os brancos ocidentais não deviam misturar-se a vermelhos, amarelos, pretos, pardos ou azuis, para não sofrer retrocesso civilizacional... acreditava ele que, em duzentos anos, a decadência biológica naturalmente gerada por uma miscigenação quase completa já teria dizimado a população brasileira. Para adiantar-se à sua supressão nesse período de tempo, o governo português precisava desde logo começar a importar uma raça mais forte – mais pura.

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Em suas conversas com Pedro II, ele chegava a expressar estes absurdos, embora, ao que tudo indica, esse “papo furado” entrava por um ouvido e saia pelo outro de nosso último governante português, comprovadamente um homem possuído por élan surpreendentemente progressista ao ponto de manter sólidas ligações intelectuais com a Paris da época – tenha-se em vista a animosidade histórica entre a monarquia portuguesa e os governos decorrentes da Revolução Francesa –, e que, ao invés de seguir o catastrofismo barato de Gobineau, prosseguiu sendo um entusiasta das culturas humanas e das ciências naturais, para tanto tendo investido seriamente em pesquisas e expedições cientificas não apenas sobre a natureza do solo e climas brasileiros, como aquela que revelou o talento do jovem Pedro Américo, mas também sobre monumentos culturais antigos como as pirâmides do Egito (esta ultima chefiada pessoalmente pelo próprio imperador).

Fosse como fosse, da erudição e esforço verborrágico de Euclides brotaram análises do solo, do clima e das gentes, num tom fatalista e impossível de não causar profunda impressão, pois aquele seu extenso cardápio de contrastes e conflitos apoiava-se numa mais que recorrente “Fossa Mariana da desigualdade social brasileira”, como se fora esta um destino natural de raças e sub-raças no Brasil, e não a continuidade de um processo de estrutura social implantado por uma monarquia que, mesmo em seu final de carreira, insistia em forte enraizamento feudal.
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O simples fato de encarar essas diferenças numa nova e surpreendente roupagem cientificista, marcou profundamente os brasileiros encarregados pela elite politica de criar um design sociológico condizente com o modernismo. É daí que surgirão nomes como Gilberto Freire com seu “Casa Grande e Senzala”, ou José Américo de Almeida com o seu “A Paraíba e Seus Problemas”.

Nem precisaremos lembrar aqui que esse tipo de fatalismo cientificista, umas poucas décadas antes havia atingido nosso poeta maior, Augusto dos Anjos. Incendiados todos eles pelos revérberos literários e geopolíticos de Euclides da Cunha e do fogo final que dizimou Canudos.

“Eu, filho do carbono e do amoníaco”, famosa linha de verso que inicia o poema “Eu”, de Augusto, instala em nós uma leve suspeita: por acaso esta surpreendente e quase aleatória combinação química não estaria fazendo alusão metafórica à miscigenação racial expressa pela junção do negro carbônico e da fervilhante amônia branca? Sacudidos que estariam sendo os dois pelo tubo de ensaio cerebral deste autêntico e alquímico gênio das letras paraibano.

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