Fizeram ver a Marizete que o mundo era composto de milhões de pessoas iguais a ela. Que ela não era sozinha na imensa e infinda treva e...

Os olhos de Marizete

Fizeram ver a Marizete que o mundo era composto de milhões de pessoas iguais a ela. Que ela não era sozinha na imensa e infinda treva em que vivia. Que havia dia e que havia noite. Que a noção do dia era exatamente aquele calor que ela sentia no rosto. O calor, os ruídos, os passos, as falas e as buzinas. Que cada ruído, passo ou fala era sinal de alguém fora ela, milhões e milhões sobre a face da Terra.

Também lhe disseram que a associação do frio ao silêncio significava a noite, e a maioria, como ela, recolhia-se ao sono.

Jackson David
Ela aprendeu, então, que não existia sozinha. Que o tecido do seu vestido era alguém que fazia. Que os grãos do almoço vinham do irmão que plantava. Que a sandália era da mão remota que trançava. Que os acordes doces que ouvia saíam tangidos de dedos como os seus. Que em tudo que lhe chegava às mãos, aos sentidos, ou à vida, havia um sopro alheio, uma achega irmã, uma corrente prestimosa e solidária a ajudá-la, a colaborar com o seu viver.

Então Marizete associou-se à palavra da Criação. Não viu mas achou que era bom. “Deus fez a luz e viu que a luz era boa.” Ela nem viu nem achou, mas nem por isso perdeu a noção de Sua bondade. Bondade geral, repartida naturalmente para cada membro da vida. Ela só não experimentava a esplêndida bondade de ver.

Ensinaram-lhe a rezar porque da oração é que advinham todos os bens. Agradecer a Deus pelo café da manhã, agradecer pelo pequeno almoço, agradecer pela magra ceia. E ela fazia com gratidão e fé: “Abençoai, Senhor, a nós e a estes dons que a vossa liberalidade nos concede.”

Um dia faltou dinheiro e liberalidade. Ela não esqueceu de orar, não esqueceu de pedir, mesmo que o pão não chegasse.

Zsa Fischer
Descobriu, então, que o pão do café, o grão do almoço e o caldo da ceia não chegavam pelo amor que os outros lhe tinham: o padeiro amassando o pão de Marizete, o camponês plantando o cereal de Marizete, as máquinas fabricando o chinelo e a blusa de Marizete. Descobriu que o chinelo, o pão, o vestido, o feijão, tudo era impessoal. Quer dizer, não brotavam diretamente para Marizete. Que as pessoas e as máquinas trabalhavam para necessidades concretas de Marizetes abstratas. O número de pães era regido pelo número de moedas. Acabando a moeda, acabariam os pães, as padarias e também as Marizetes. Aprendeu que para fruir da vida, para gozar da liberalidade que Deus lhe concedia, necessitava também de fazer coisas concretas para criaturas abstratas.

E fez um esforço penoso para aprender sem ver. O tato que lhe servia de guia havia de servir no aprendizado. Começou a ler com os dedos, somar com os dedos: ensino fundamental, ensino médio, faculdade, formatura, tudo lhe chegando pelos condões táteis dos dedos.

Hoje não sei o que é de Marizete. Onde está, o que fez, o que conseguiu. Se notou alguma diferença entre o mundo das trevas e o mundo da luz. Entre o mundo bom e auspicioso da escuridão e o mundo de olhos abertos e corações fechados.

Ninguém me dá notícia de Marizete.

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