História de um eletrodoméstico
muito sensível
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Catarina sabia quais eram seus defeitos. Resmungar estava no topo da lista, seguido de perto pelo mau humor matinal. As críticas só a faziam piorar, teimosa que era.
Seu ritual ao acordar era automático e imutável: emburrada, fazia o café, preparava o pão e abria a geladeira para pegar o queijo. Sempre com o mesmo tédio.
GD'Art
Chegou uma moderníssima, linda, estacionada ao lado do fogão. Portas com visor digital, função de gelo automático, água retirada na porta e, o melhor, silenciosa.
Na primeira manhã com a nova companheira, manteve o mau humor de sempre. Preparou o café, o pão e foi pegar o queijo na geladeira. Mas a porta não abriu.
Puxou com delicadeza, forçou um pouco, tentou com as duas mãos e nada. Procurou por algum botão mágico, trava de segurança, controle remoto. Nada que indicasse o que a abria. Com desconfiança, recorreu ao manual.
GD'Art
De camisola e bastante descabelada, pensou em apelar ao vizinho para perguntar o que significava aquela frase, além do óbvio.
Resolveu ser educada com a geladeira.
— Por favor, abra a porta.
Nada.
Passou a mão gentilmente no visor. Nada.
Com uma vergonha enorme, resolveu elogiar:
— Geladeira, você é linda, um luxo só.
GD'Art
Depois do susto, Catarina desatou a gargalhar intensamente. Uma gargalhada sincera, dessas que não saem há tempos. Não tinha coragem de contar o ocorrido para ninguém, pois, claro, a achariam louca.
Encontrou na geladeira o humor para o dia inteiro. Às vezes, sem motivo nenhum, passava pela porta fechada e dizia:
— Querida, seu tom de branco está especialmente mais brilhante.
A porta se abria e ela, com prazer, pegava um suco.
Teve que se adaptar e fazer elogios durante o dia inteiro. Resolveu fazer isso com os outros objetos da casa:
GD'Art
— Samambaia, que verde vibrante é esse, garota.
E até para ela mesma se elogiava:
— Cabelo, você está lindo, nem parece que dormiu espremido no travesseiro.
Elogiar virou hábito. Descobriu que isso, estranhamente, a deixava feliz.
Deu-se conta do quanto as palavras abriam ou travavam portas. Ela, que resmungava o dia inteiro e buscava motivos para reclamar de tudo, tornou-se a rainha do bom humor.
Começou a fazer do elogio sua estratégia para melhorar o dia de outras pessoas. Passava pelo porteiro e dizia que ele era muito atencioso. Já o rapaz da padaria, elogiava a agilidade com que atendia às pessoas.
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Viu que talvez todos fossem um pouco geladeiras também: abriam-se com carinho, ao ouvir palavras elogiosas.
Descobriu que uma palavra dita com sinceridade promove mudanças positivas na vida das pessoas e cria um mundo mais motivador, mais encorajador e, certamente, mais amoroso.
Naquela manhã de domingo, enquanto pegava o iogurte com um elogio bem-humorado, ela não se contentou apenas em saborear a bebida. Com o coração leve, colou um bilhetinho na porta da geladeira, não apenas para o eletrodoméstico que mudou sua vida, mas para si mesma e para quem mais pudesse ler:
A vida é bem como você, geladeira: abre-se para a gente quando a tratamos com carinho. O elogio é a chave mais bonita para abrir corações e iluminar os dias das pessoas.

























