Contam que Gaspar morava lá para as bandas da Índia. Era, com seus 20 anos, um jovem gorduchinho. Foi ele que levou incenso ao Menino Santo. Baltasar, retratado como um homem de pele negra, levou mirra desde as cercanias do Golfo Pérsico, onde vivia. Por sua vez, Melquior, associado à Arábia, ofereceu ouro ao filho da jovem Maria.
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Mateus, que pouco escreveu sobre o tema, não disse que os visitantes guiados pela mais famosa das estrelas eram três nem que eram reis. Foi este seu relato: “E tendo nascido Jesus em Belém da Judeia, no tempo do Rei Herodes, eis que uns magos (sábios?) vieram do Oriente a Jerusalém. Herodes, todos sabemos, não gostou daquilo que lhe foi perguntado: “Onde está aquele que é nascido Rei dos Judeus?”. Mas o bom Mateus fala da estrela-guia. E conta daquela adoração em conjunto.
Conta, ainda, que os visitantes foram em sonho avisados para o não retorno a Herodes com o endereço da criança. Também, que José, igualmente desperto por um sonho providencial, acordou Maria para
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Admitamos que o Menino Santo tenha mesmo vindo ao mundo em data coincidente com a do calendário que usamos, o Gregoriano. Com o Natal em 25 de dezembro, a visita aqui tratada teria ocorrido em 6 de janeiro. Doze dias de manjedoura, então? Esqueci de perguntar isso a Dona Dapaz, quando eu me preparava para receber do Padre Gomes a minha primeira hóstia. Perdão meu bom vigário, também a última.
Minha catequista, certamente, teria a resposta na ponta da língua. Falou-me, e aos demais candidatos à Primeira Comunhão, da Epifania do Senhor. Enquanto o Natal foca no nascimento, a Epifania celebra a revelação do bebê aos “gentios”, ou seja, a outros povos, por meio de Gaspar, Baltasar e Melquior, aceitemos. Li que na Igreja Católica Ortodoxa a Epifania diz respeito ao batismo
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O 6 de janeiro é a data recomendada para o desarme das árvores de natal. Será que alguém por aí se esqueceu dessa providência? Não precisei lembrar disso, aqui em casa. Tenho, afinal, uma companheira atentíssima ao tema. Contudo, não estou certo de que, mais nova do que eu, ela saiba que esse também é o dia da queima das Lapinhas que há muito não vemos. Falo da manifestação natalina que, ao menos no Nordeste, celebrava com danças e cantos o nascimento de Jesus. Nos meus dias de menino, essa festa tinha palco com uma cigana, uma mestra, uma contramestra e pastoras distribuídas em dois grupos: um de azul, outro de encarnado. Será que ainda existem?
Lembro dos versos da cantiga mais famosa: “Boa noite, meus senhores todos. Boa noite, senhoras, também. Somos pastoras, pastorinhas belas e alegremente vamos a Belém”. Eu torcia pela ala vermelha, menos pela cor e mais pela terceira garota daquela fila. Meu primeiro alumbramento, viu Bandeira?
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No sexto dia do Ano Novo, dava-se a última apresentação. Desfazia-se o Presépio com a retirada da Sagrada Família, a do trio de visitantes e a dos animais da estrebaria.
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O transcurso do tempo fez o octogenário que me tornei esquecer parte daquele enredo. Até porque aquilo tudo sumiu dos Natais, há décadas. Sei que era uma adaptação popular da narrativa bíblica. Continha algo da jornada em busca manjedoura, o anúncio do anjo, previsões da cigana, ciumeira entre a mestra e contramestra e, no conjunto, a adoração do Menino Jesus.
Noutros recantos, de 24 de dezembro a 6 de janeiro, foi menor, certamente, a ocorrência da Folia de Reis. Gradualmente menosprezados, os costumes desse gênero têm-se limitado a comunidades rurais pequenas e cada vez mais raras. Neste caso, o folguedo também é uma tradição cristã de origem europeia. Inclui grupos (ternos) que circulam com seus cânticos, de casa em casa, para o anúncio do advento do menino Jesus.
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Resta o lamento: Institucionalmente ignorados, os festejos populares dessa espécie não mais sobem aos palcos dos dezembros e janeiros feitos, ano após ano, nas capitais e municípios interioranos, de rock, pagode e música sertaneja. O esvaziamento das nossas mais legítimas manifestações fere, então, de morte a identidade de um povo inteiro.
E pensar que as lapinhas, os pastoris, os cavalos-marinhos, as naus-catarinetas, as folias de reis poderiam compor, também, sem sacrifícios, os calendários festivos de Prefeituras que espremem cofres magros para bancar milionários cachês enquanto agravam o empobrecimento cultural de gerações sucessivas. Quem assim lamenta, preciso dizer, não o faz por mero saudosismo. Lastima, sobretudo, o prejuízo irreparável ao patrimônio imaterial de uma Nação.





























