Sim! Eu mesmo. Esse tal de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, o TDAH, me aporrinhou a vida por um bom tempo, e sem que os que acompanhavam aquilo que seria o meu desenvolvimento percebessem.
Creio que o movimento de rotação de nosso planeta, para mim, girava noutra direção. Minha mãe chamava-me de “avoado”; pelo que percebi nos meus verdes anos, isso era algo que hoje chamaríamos de “leso”. E era, de certa forma, algo que não posso contestar. E nessas “mal traçadas linhas” ouso dar minhas justificativas.
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Voltando aos dissabores dessa fase, na “aurora da minha vida”, ou seja, nos meus oito anos, eu já estava agarrado à obra de Monteiro Lobato. Já lera *Caçada de Pedrinho*, *O Saci*, *Serões de Dona Benta* e estava de cara enfiada em *História do Mundo para as Crianças*. Aliás, foi a obra que jogou a Igreja contra Lobato, porque este abraçava o evolucionismo para nos explicar de onde havíamos vindo. O certo é que esse livro me encantava; lia e relia muitas passagens, e a época de ouro da Grécia era onde eu mais me magnetizava. E foi aí que a coisa pegou.
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— Luiz Augusto! (Esse, para quem não sabe, é meu nome de cartório e de pia.)
De pronto, já em pé, firme e altaneiro, respondi também em alto e bom som:
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Espantada, com aquela minha frase sem sentido e completamente fora de contexto, Dona Júlia só fez dizer:
— Amanhã, sem falta, quero falar com sua mãe.
Bem, ai de mim se não avisasse minha austera genitora, que compareceu na manhã seguinte e saiu com a recomendação de me observar porque, segundo Dona Júlia, “esse menino está com algum problema, não diz coisa com coisa e me parece viver no mundo da lua”.
Agora, minha defesa. Naquele momento em que a professora me chamara, eu estava viajando bem longe dali e muito atrás no tempo. Onde? Quando? É natural que estejam curiosos. Eu estava na Grécia, ali no Desfiladeiro das Termópilas, quando Xerxes ameaçou Leônidas e seus bravos 300 espartanos: “Nossas flechas serão tantas que cobrirão a luz do Sol.” Ao que Leônidas respondera: “Melhor, combateremos à sombra.”
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Ainda me lembro dessa e de outras passagens onde eu desligava do entorno de mim e ia me esconder onde me guiasse a imaginação. Ainda padeço dessas idiossincrasias. Pessoas do meu redor algumas vezes me tomam por mal-educado, grosseiro e outros adjetivos desse jaez. Falam comigo, cumprimentam-me e eu não respondo. Esclareço que não se trata de uma desatenção proposital; creio ser déficit de atenção ou algo parecido, porque quando isso acontece alma e corpo estão desgrudados.
Sendo assim, fica aqui registrado meu pedido de desculpas se faltei com minha atenção a algum amigo ou amiga. Ainda dou umas viajadas por aí, principalmente nos dias de hoje, onde a vida não está fácil, e acho mesmo melhor é fazermos como Leônidas e não nos importarmos com as flechas que atiram sobre nós: vamos combater à sombra. Cansa menos.




























