Sim! Eu mesmo. Esse tal de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, o TDAH, me aporrinhou a vida por um bom tempo, e sem ...

TDAH, eu?

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Sim! Eu mesmo. Esse tal de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, o TDAH, me aporrinhou a vida por um bom tempo, e sem que os que acompanhavam aquilo que seria o meu desenvolvimento percebessem.

Creio que o movimento de rotação de nosso planeta, para mim, girava noutra direção. Minha mãe chamava-me de “avoado”; pelo que percebi nos meus verdes anos, isso era algo que hoje chamaríamos de “leso”. E era, de certa forma, algo que não posso contestar. E nessas “mal traçadas linhas” ouso dar minhas justificativas.

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Nos meus oito anos já me via enfronhado com a leitura, atividade que era estimulada pelos meus pais. Os primeiros livros que li de ponta a ponta foram *Mamãe Coelha* e *A Horta do Juquinha*, dois epúsculos que ganhei de minha professora, Emília Rachid Meira. O paparico foi por eu ter obtido a melhor nota da sala em minha promoção da primeira para a segunda série do primário.

Voltando aos dissabores dessa fase, na “aurora da minha vida”, ou seja, nos meus oito anos, eu já estava agarrado à obra de Monteiro Lobato. Já lera *Caçada de Pedrinho*, *O Saci*, *Serões de Dona Benta* e estava de cara enfiada em *História do Mundo para as Crianças*. Aliás, foi a obra que jogou a Igreja contra Lobato, porque este abraçava o evolucionismo para nos explicar de onde havíamos vindo. O certo é que esse livro me encantava; lia e relia muitas passagens, e a época de ouro da Grécia era onde eu mais me magnetizava. E foi aí que a coisa pegou.

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Dona Júlia (Júlia Chainça Prianti) era uma professora que o que tinha de competente tinha de brava. Ali, na segunda série, era onde deixávamos o lápis para o uso da caneta-tinteiro. Dona Júlia não queria ver caderno borrado; tínhamos que dominar a caligrafia, saber empunhar corretamente a caneta para não ir passando a mão sobre o que acabávamos de escrever. Muito exigente essa senhora, e quando éramos arguídos, tínhamos que nos levantar para proferirmos a resposta. Uma manifestação de respeito. Antigamente era assim. Pois lá estava eu entretido com minha escrita, tomando todo o cuidado para manter o asseio no caderno, quando ouvi em alto e bom som:

— Luiz Augusto! (Esse, para quem não sabe, é meu nome de cartório e de pia.)

De pronto, já em pé, firme e altaneiro, respondi também em alto e bom som:

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— Melhor, combateremos à sombra.

Espantada, com aquela minha frase sem sentido e completamente fora de contexto, Dona Júlia só fez dizer:

— Amanhã, sem falta, quero falar com sua mãe.

Bem, ai de mim se não avisasse minha austera genitora, que compareceu na manhã seguinte e saiu com a recomendação de me observar porque, segundo Dona Júlia, “esse menino está com algum problema, não diz coisa com coisa e me parece viver no mundo da lua”.

Agora, minha defesa. Naquele momento em que a professora me chamara, eu estava viajando bem longe dali e muito atrás no tempo. Onde? Quando? É natural que estejam curiosos. Eu estava na Grécia, ali no Desfiladeiro das Termópilas, quando Xerxes ameaçou Leônidas e seus bravos 300 espartanos: “Nossas flechas serão tantas que cobrirão a luz do Sol.” Ao que Leônidas respondera: “Melhor, combateremos à sombra.”

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Meu estimado leitor, minha querida leitora, pergunto eu: como explicar essa sedutora viagem que eu fazia no momento em que Dona Júlia resolveu interromper aquele devaneio?

Ainda me lembro dessa e de outras passagens onde eu desligava do entorno de mim e ia me esconder onde me guiasse a imaginação. Ainda padeço dessas idiossincrasias. Pessoas do meu redor algumas vezes me tomam por mal-educado, grosseiro e outros adjetivos desse jaez. Falam comigo, cumprimentam-me e eu não respondo. Esclareço que não se trata de uma desatenção proposital; creio ser déficit de atenção ou algo parecido, porque quando isso acontece alma e corpo estão desgrudados.

Sendo assim, fica aqui registrado meu pedido de desculpas se faltei com minha atenção a algum amigo ou amiga. Ainda dou umas viajadas por aí, principalmente nos dias de hoje, onde a vida não está fácil, e acho mesmo melhor é fazermos como Leônidas e não nos importarmos com as flechas que atiram sobre nós: vamos combater à sombra. Cansa menos.

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