Feliz Aniversário, Clarice , lançado pela editora Autêntica (2020) — de São Paulo e Belo Horizonte —, em comemoração ao centenário de ...

Feliz Aniversário, Clarice

Feliz Aniversário, Clarice, lançado pela editora Autêntica (2020) — de São Paulo e Belo Horizonte —, em comemoração ao centenário de nascimento de Clarice Lispector, foi uma proeza organizacional de Hugo Almeida, que convidou seus amigos autores do país todo para a criação de contos a partir da obra da
homenageada. Por isso, aí estão, entre outros, um conto meu — “O dia adia” — e um de Marília Arnaud — “A mulher do casaco marrom”.

Não foi a primeira vez que fiz trabalho nessa linha para o Hugo. Em 2016, participei de Nove, Novena — variações, da Olho d’Água, pois Hugo é tão apaixonado pela autora de A Hora da Estrela quanto por Osman. Também para Rinaldo de Fernandes, colaborei em Quartas Histórias — homenagem a Guimarães Rosa —, em que meu ponto de partida foi o conto “Sarapalha”, e em Capitu Mandou Flores, homenageando Machado, para o qual escrevi “Capitu. E Escobar”, em cima de Dom Casmurro.

Qual a “graça” de recontar uma obra-prima, como se alguém pudesse aperfeiçoar o ovo?

Eu conto:

Tião Cordeiro Braga em cena do espetáculo teatral A Verdadeira Estória de Jesus (1986), de W. J. Solha ▪️ Acervo do autor
No Festival de Inverno de Campina Grande, de 89, fui convidado a levar meu espetáculo A Verdadeira Estória de Jesus para outro festival — o de Sorocaba —, mas Melânia Silveira, que fazia o papel da personagem de codinome Lucas, deu-me a má notícia de que iria passar para o grupo de Moncho Rodrigues. Como o meu elenco queria muito a viagem, tive de preparar outra atriz, que nunca fizera teatro, mas era colega, no coral da UFPB, dos “meninos”. Foi fascinante ver a diferença de interpretação de Melânia Silveira para a de Ana Luísa Camino — duas grandes figuras do teatro paraibano — para o mesmo ser humano que eu havia criado, sob a minha mesma direção.

Daí que, não tendo nada em comum com Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Machado ou Osman, senti que poderia reproduzir na literatura o mesmo estranhamento — mágico — que tivera no teatro, contando exatamente a mesma coisa, mas com outra performance, outra interpretação.

No caso atual, trouxe a narrativa para a minha cidade, João Pessoa, e para a minha época, esta. Isso me foi tão rico e desafiador quanto fazer o papel de um camponês na miséria, em A Canga, e o de um “coronel” dos anos 30, dono da casa-e-capela do sítio Acauã, que foi do pai de Ariano Suassuna, em Antoninha. E imagine quando vi meus versos de cordel, no Oratório Via-Sacra, em 2005, com sinfônica e coral, e Mahler, e Stravinsky, e Beethoven, e Manuel de Falla, com que a genial professora Ilza Nogueira os vestira.

Para os cultores de Clarice Lispector, nossa melhor forma de homenagem.

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