O Itamaraty sempre foi o maior celeiro de talentos intelectuais do Brasil ao longo da história. Também pudera. Seus quadros eram tra...

Marcos Azambuja: memórias de um embaixador

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O Itamaraty sempre foi o maior celeiro de talentos intelectuais do Brasil ao longo da história. Também pudera. Seus quadros eram tradicionalmente recrutados dentre os membros da elite brasileira (não necessariamente elite econômica, mas elite), uma tribo que possuía a melhor formação cultural do país, geralmente filhos de diplomatas, alunos dos melhores colégios, viajantes contumazes e poliglotas, e, após a instituição de concurso público para a carreira, dentre a meritocracia nacional, dadas as naturais exigências do processo seletivo. Ou seja, de uma forma ou de outra, até os dias de hoje, o Itamaraty tem contado, em termos de recursos humanos, com o que temos
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de mais capacitado. Não é à toa, portanto, que o índice de diplomatas, de careira ou não, que integraram e integram a Academia Brasileira de Letras sempre foi alto. Atualmente podemos citar, por exemplo, Celso Lafer, João Almino, Evaldo Cabral de Melo, Geraldo Holanda Cavalcanti e Edgar Telles Ribeiro.

A diplomacia talvez seja a careira mais prestigiosa do nosso serviço público, fenômeno que provavelmente se repete em outros países. E os diplomatas, por força do ofício, estão sempre muito a par dos assuntos políticos, os oficiais e os oficiosos, de modo que sabem, ouvem e veem muita coisa no exercício do cargo, nas embaixadas e fora delas, de tal modo que terminam por ser verdadeiros repositórios ambulantes de informações sobre a história e seus personagens. O embaixador Marcos Azambuja, recentemente falecido, já nonagenário, foi uma dessas testemunhas da segunda metade do século XX, com muita coisa para contar, já que, entre outras funções relevantes, representou o país na Argentina e na França. E o fez, ou seja, contou, através de vários depoimentos, os quais acabam de ser publicados pela Editora CEBRI (Centro Brasileiro de Relações Internacionais).
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É uma leitura que se recomenda aos que se interessam pela história recente do Brasil e do mundo, no que ela tem de acontecimentos públicos e também de ocorrências nem tão públicas assim. A seguir, destacarei alguns pontos do livro que me chamaram a atenção e que poderão servir de aperitivo para algum leitor mais curioso.

Começo por Juscelino Kubitscheck. Azambuja escreve: “O impulso desenvolvimentista tem no Brasil uma espécie de felicidade, de vigorização do país, e a ideia de que, finalmente, nós tínhamos entrado nos eixos. O grande momento nosso, interno, é Juscelino. Nós vamos a uma Operação Panamericana, e ela foi um pouco um aborto. Ela não vai muito além. Prosperará depois, com Kennedy. Mas, pelo menos, o Brasil flexibilizou os músculos. Teve a ideia de que podia ter ideias”. Para mim, é uma visão positiva de JK, que coincide, em linhas gerais, com o julgamento da posteridade a respeito do carismático mineiro de Diamantina. De fato, no governo JK o país deu um salto (cinquenta anos em cinco?) de progresso significativo, não só na economia mas também na cultura, sem falar na atmosfera efetivamente democrática que se respirou nesse período.

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Juscelino Kubitschek (1902–1976), médico, governador de Minas Gerais e presidente do Brasil entre 1956 e 1961, nascido em Diamantina-MG. ▪ Fonte: Wikimedia
Passo agora a Jânio Quadros. Do curto governo do controverso paulista, o diplomata destaca a chamada Política Externa Independente, que pretendia desligar o Brasil de um alinhamento automático com os Estados Unidos, com vistas a conquistar uma presença mais autônoma no cenário internacional. E assim afirma: “O primeiro momento nosso externo significativo, na minha lembrança, são as viagens do Presidente Jânio Quadros eleito, mas não empossado. Ele faz uma viagem dramática a Cuba, e uma série de outras viagens, nas quais sugere, na época do Chanceler Afonso Arinos, que o Brasil quer um espaço além daquele círculo mágico anterior, de inserção
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1960: Jânio Quadros (direita), ao lado de Fidel Castro, em visita a Cuba. ▪ Fonte: Wikimedia
apenas panamericana, sul-americana”. Talvez esse seja o maior legado de Jânio, pois ainda hoje repercute na política externa brasileira, sem que se dê o devido crédito ao seu formulador. É bem possível que o instável presidente estivesse apenas em busca de protagonismo no mundo dividido da guerra fria, mas não importa. Com ele, o Brasil esboçou um desejo de não ser subserviente aos EUA e isso não é pouca coisa.

Vejamos a ideia de Azambuja sobre o Itamaraty de seu tempo: “Havia uma grande tolerância no Itamaraty em que eu entrei com todas as formas de comportamento que não atingissem um dano à Fazenda Pública. O Itamaraty era implacável com a ideia de probidade pessoal, exatamente porque nas suas próprias contas, na sua própria contabilidade, na sua própria maneira de digerir, ele presumia que o gentleman não roubaria”. É muito possível que essa cultivada probidade tenha resistido às deteriorações morais do país das últimas décadas, pois não se tem conhecimento de escândalos de corrupção entre os nossos diplomatas. De fato, um verdadeiro gentleman não rouba. Mas ainda existirão gentlemen?

Sobre os chefes marcantes do Itamaraty: “Os grandes Chanceleres não são da casa. Essa ideia de que o Itamaraty gera os seus próprios Chanceleres é recente. Até então, as figuras exponenciais
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Marcos Azambuja (1935–2025), diplomata de carreira, nascido no Rio de Janeiro. ▪ Fonte: Wikimedia
eram Oswaldo Aranha, João Neves da Fontoura e José Carlos de Macedo Soares. Virtualmente, a Secretaria Geral era o limite natural do diplomata de carreira”. Lembrando a figura exponencial do Barão do Rio Branco, claro, não podemos esquecer Afonso Arinos de Melo Franco, o qual, se tivesse tido tempo no cargo, teria certamente sido um dos grandes a ocupá-lo. E provavelmente San Tiago Dantas também.

Sobre as qualidades exigidas de um diplomata: “Primeiro, a integridade. O diplomata que não é acreditado (‘acredito fulano junto à Vossa Excelência’) é um homem desacreditado. Não serve para nada. É uma profissão em que a palavra pessoal vale imensamente o prestígio... Da mesma maneira que o crédito é tudo, a esperteza é a desgraça. O diplomata astucioso, ardiloso, é uma desgraça para ele mesmo e para o seu país... A segunda qualidade, eu acho que é a inteligência... É difícil imaginar uma carreira diplomática com idiotas... A terceira coisa que acho essencial é que ela ainda é uma arte interpessoal, intergovernamental, intercultural, intercivilizatória. Requer a civilidade”. Probidade, inteligência e civilidade, três virtudes que fazem falta nos demais setores do serviço público brasileiro, não há dúvida.

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Carlos Lacerda (1914–1977), jornalista, escritor e político, natural do Rio de Janeiro. Foi governador da Guanabara e fundador da editora Nova Fronteira. ▪ Fonte: Wikimedia
O embaixador opina sobre alguns personagens da política e da cultura de seu tempo. Eis o que diz sobre Carlos Lacerda:

“Tenho a impressão de que uma das inteligências mais brilhantes que vi foi o Carlos Lacerda, que era extraordinariamente inteligente e orador. Se o Carlos Lacerda voltasse reencarnado, ele era capaz, de novo, de tumultuar este país, porque tinha uma capacidade subversiva extraordinária”.
E assim seguem as memórias de Marcos Azambuja, um gentleman que encarnou como poucos as qualidades de um bom diplomata, acrescentando-lhes, como bom carioca, o savoir vivre, aquela pitada de tempero que dá gosto à vida. Aos que apreciam esse tipo de leitura, está feita a sugestão.

Para concluir, um pitoresco “causo” que, bem-humorado, ele gostava de contar e que não consta de suas memórias: Encontraram-se Perón e Eurico Gaspar Dutra. O argentino, ao se aproximar do brasileiro, abriu os braços e exclamou com entusiasmo: “Hermano Dutra!”, ao que o outro respondeu baixinho: “Hermano, não, Eurico”.

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