Decorridos quase 90 anos, fica fácil a um dos meus interlocutores do Ponto de Cem Réis questionar o nome de João Pessoa dado em setembro d...

Celso Furtado e as domésticas



Decorridos quase 90 anos, fica fácil a um dos meus interlocutores do Ponto de Cem Réis questionar o nome de João Pessoa dado em setembro de 30 à cidade. E pior, atribuir a esse nome o emperro na Projeção turística merecida. “É esse nome que atrapalha” – insiste-se.

Mas por que João Pessoa atrapalha se Florianópolis (em homenagem a Floriano Peixoto) não atrapalha? Sem falar noutras cidades grandes e pequenas com nome que a maioria motivada, comovida consagrou?

No nosso caso, este batismo é o único nascido efetivamente de vontade autóctone, paraibana, fruto da espontânea comoção popular, sobretudo de sua mocidade. Dos restantes topônimos, o que não veio imposto de fora (Filipeia, Frederice) foi Parahyba, que por vir do rio o historiador José Leal queria o Estado no masculino, Estado do Paraíba, como Estado do Rio de Janeiro.

Nascida de sua mocidade? Sim, da mocidade livre das escolas lideradas, na capital, pela ala feminina, pelas meninas da Escola Normal, do Colégio das Neves, que antecipavam um momento especial da projeção da mulher em sonhos de emancipação cultural e social. Nos jornais e revistas dos anos 1930, sobretudo nas revistas e almanaques do gosto da época, a frequência da mulher em suas páginas emula com a dos varões. Desde a “Era Nova” dos anos 1920 que as Analyce Caldas e Eudésia Vieira ganhavam espaço.

E o fervor político de 1930 dispôs desse arrojo trazido às ruas pelas mulheres do povo. Celso Furtado, menino de poucos anos, vem dar esse testemunho em suas memórias. As mulheres eram o maior contingente nas passeatas e procissões que beiravam a sua janela da General Osório, rua que terminou encenando o capítulo inicial do romance de outro menino que descobria o mundo e a paixão desvairada dos seus moradores por um dos postigos que filtravam o tumulto o Virginius da Gama e Melo em seu “Tempo de Vingança”.

E se faltassem outros testemunhos mais vivos desse protagonismo límpido, sem interesses subalternos da mulher, recorra-se ao de d. Olívia Athayde, com seus 102 anos, em entrevista à “A União” de quinze anos atrás. Ela que falou pela juventude na hora em que o presidente Álvaro de Carvalho sancionava a lei que dava nome cívico, verdadeiramente cívico, à capital. No ato do Teatro Santa Roza falaram apenas o deputado Lima Mindelo, representando a Assembleia Legislativa, a senhorita Olívia Athayde, e o governador. A voz incitante do apelo feminino deu força à assinatura do chefe do Executivo paraibano, um catedrático do Liceu, homem de pensamento e de letras, fundador da nossa Academia de Letras, até ali ainda um tanto relutante:

“Proclamo que estais, nesta hora histórica, sendo um distinguido paraibano. Andais, quanto possível, de acordo com o povo. E é isto, precisamente, o que o povo quer. (...) Contai conosco e não leveis a mal uma solicitação de nossa brava gente. A Paraíba nova deu o nome de João Pessoa à nossa linda capital. Nós esperamos, exmo. sr. presidente, o vosso apoio moral para a bandeira com as cores do heroísmo e do sacrifício – rubro e negro”.

Não foi sem motivo que Celso Furtado, homem de emoções depuradas, não se comportou muito diferente da jovem que falava em nome das normalistas: “O assassínio brutal desse homem (...) provocou uma tal angústia coletiva que ainda hoje não posso recordar sem me emocionar. Várias vezes acompanhei aquelas domésticas em longas procissões (...) seguindo um andor sobre o qual ia uma fotografia de João Pessoa de corpo inteiro”.

Não foi um batismo de cima para baixo, imposto pelo rei ou pelo general vencedor.


(Alaurinda Romero) A beleza da vida está nas nossas escolhas, no nosso livre arbítrio e nas responsabilidades que tomamos para nós. A primei...

Autenticidade



(Alaurinda Romero)

A beleza da vida está nas nossas escolhas, no nosso livre arbítrio e nas responsabilidades que tomamos para nós. A primeira vez que vi Carlos foi quando fui buscar o meu irmão, João Bosco, em sua casa, e ele estava na entrada do portão. Então, eu perguntei: “o senhor é o pai de Germano?” - “Sim. Eu vim buscar Bosco”.

Carlos simplesmente olhou para mim, e foi aí que não me detive apenas no seu olhar. Senti-o tão forte e profundo que até hoje não encontro palavras para descrevê-lo. Aliás, por mais nítidas e bem escritas, em nenhum idioma as palavras serão capaz de definir com exatidão aquilo que sentimos, aquilo que nos emociona.

Nessa mesma noite, fui convidada para um jantar, na casa de Carlos, oferecido após o concerto de nossa Orquestra Sinfônica – da qual fiz parte, como violinista, durante 30 anos –, em homenagem ao pianista Nelson Freire, à cantora lírica Maria Lúcia Godoy e ao grande maestro Eleazar de Carvalho, na época, nosso regente titular.

A noite só foi minha e dele. Fomos à sua biblioteca, folheamos muitos livros, conversamos sobre viagens, música, literatura. Tudo o que eu mais gostava estava ali com ele. Eu nunca fui tão autêntica, tão eu mesma e ele era ele. Uma verdadeira comunhão de pensamentos e vontades. No dia seguinte, Carlos me telefona e pergunta se poderia me levar para o ensaio da orquestra. “Sim” - respondi.

Quando chegou, vi que ele estava ainda mais bonito, no seu modo lento e cordial de ser. Como é bom ver e sentir a autenticidade transparente de uma pessoa verdadeira... Carlos, durante quase 30 anos, sempre foi e sempre será o mesmo, desde que o conheci. Compreensivo, íntegro, sincero, discreto, elegante, nunca alterou o tom de sua voz mansa e tênue. Quando eu insinuava uma discussão, ele apenas dizia: “Lau, meu anjo, eu não tenho mais tempo para ser infeliz”, e esboçava apenas um sorriso. E assim, costumava dizer, carinhosamente, que eu era “um anjo que apareceu em sua vida”.

Mas, o anjo era ele, que tanto me ensinou. Ah, como aprendi com ele! Às vezes, eu não encontro palavras para me expressar e dizer o quanto Carlos foi e continua sendo valioso para mim. Os livros que ele me indicava, os filósofos que mais amava… Bertrand Russell, Michel de Montaigne e tantos outros. Uma vez perguntaram a Montaigne, porque ele gostava tanto e admirava tanto o seu grande amigo, Étienne de La Boétie? Ele apenas respondeu: “Porque ele era ele”. E é por isso que eu amei e continuo sempre amando o meu Carlos. Porque ele era ele e eu me via nele.

“Amor, eu te amo. Você, fofinho, possui o meu pensamento. Vou tentar conviver com essa saudade eterna, mas, sempre com o consolo e a certeza de um novo reencontro.

De sua Lau”.

(Chico Viana) Há de tudo neste mundo. Li na internet a entrevista de uma estilista alemã especializada em roupas para defuntos. A princípio ...

Vestido para morrer



(Chico Viana)

Há de tudo neste mundo. Li na internet a entrevista de uma estilista alemã especializada em roupas para defuntos. A princípio achei a idéia esquisita, depois me dei conta de que não é tão absurda assim. Ninguém se enterra nu; logo, não é irrelevante que o indivíduo se preocupe com a roupa com a qual vai adentrar a última morada.

Talvez só os muito vaidosos dêem importância a isso. Para a grande maioria, pouco importa o que vestir no caixão. Esse pouco caso teria a ver com o que Machado chama de “o desdém dos defuntos”, que envolve a moda e todo o resto.

A estilista mostra, no entanto, que é muito importante escolher a roupa adequada a ocasião tão especial. Afinal de contas, vai-se passar o resto da vida (ou melhor, da morte) com ela. O apuro com que o defunto está vestido concorre para a imagem que ele vai legar aos parentes e amigos. É preciso evitar comentários do tipo: “Viu que desleixado? Nem morto soube se arrumar”.

Um dos inconvenientes de não escolhermos a própria mortalha, segundo a entrevistada, é que corremos o risco de ser enterrados com uma roupa que não nos agrada. Aquela camisa berrante, aquele paletó apertado, aquela cueca áspera que roça e avermelha as virilhas.

Para evitar esse tipo de constrangimento, é melhor definir o figurino e deixá-lo no guarda-roupa. Assim como existe a indumentária do trabalho e a do domingo, existe a do repouso eterno. Ela ficaria ali, esperando o momento de entrar em cena. E indiretamente nos soaria como uma advertência sobre a efemeridade da vida.

A estilista já escolheu o que vai usar, e faz questão de dar sugestões aos clientes. O ideal é que o tecido seja leve, simples, despojado. Por dois motivos. Primeiro, porque lá embaixo faz calor. Segundo, porque não convém nessa delicada e misteriosa viagem sugerir arrogância. A vestimenta simples indica humildade de espírito, atributo sumamente desejável em quem vai se submeter ao julgamento eterno.

(Milton Marques Júnior) Como é próprio à juventude ser soberbo, saber tudo! Eu também já fui assim; hoje, velho, não me iludo. Não te obrigu...

Pérolas da Web



(Milton Marques Júnior)

Como é próprio à juventude ser soberbo, saber tudo!
Eu também já fui assim; hoje, velho, não me iludo.
Não te obrigues a certeza, nem ser dono da verdade,
nem imponhas tuas crenças, tudo isso é vaidade.
Busca a paz no equilíbrio, não te nutras de ilusão;
pra quem quer sempre estar certo, que terrível solidão!
Ó efebo, desde já, vai tecendo esta verdade:
Não progride o Saber que desdenha a Humildade!



Quem não tem algum distúrbio, quem não tem algum conflito?
Só o feicibuquiano é histérico irrestrito.
A manchete já lhe basta, pra ativar a sua sanha
e repete, sem critério, toda e qualquer patranha.
Sem critério, não, Senhor! ele sabe como agir:
o critério que utiliza busca sempre confundir.
Distorcendo sempre os fatos, exacerba sem razão,
de um anão faz um gigante; de um gigante, um anão.
A caterva que o acompanha profetiza apocalipses,
num discurso verborrágico, todo cheio de elipses,
pois propaga o que não leu e se ler inda dirá:
De mentira em mentira a verdade morrerá.



O Pudor e a Justiça nos deixaram, foram embora...
É o que diz o grande Hesíodo em poema de outrora.
Sós, ficamos à mercê dos bandidos, dos ladrões,
do seu séquito de fâmulos, que ignora os padrões.
E tais fâmulos são piores que os bandidos que defendem,
ordenando que outros leiam, mas se leem nada entendem.
Meus queridos xerimbabos, de si mesmos tenham dó,
pois se alguém muito se abaixa, vai mostrar o fiofó.



A justiça no Brasil é injusta e morosa.
Para os ricos, vista grossa; para os pobres, poderosa;
pro delito irrisório, dura lex, sed lex;
para a grande corrupção, sobram malas e triplex;
para o roubo de um shampoo, o coitado amarga pena;
para malas de reais, liberdade sempre plena.
Pra justiça ser assim, colabora o imbecil,
defendendo os seus ídolos, sem defesa do Brasil. 
Não te esqueças, grande parvo, que reclamas retrocesso:
Corrupção e violência são sistêmicas, são processo
e se algo deu pra trás, é porque algo avançou,
algo infame, vergonhoso, que a cegueira edificou.

(garimpados do facebook do autor)

(Carlos Cordeiro) “Algumas coisas boas às vezes são ótimas”. Assim se expressaria o velho Conselheiro Acácio. Recorro a ele para dizer que a...

Um certo Carlos, cronista


(Carlos Cordeiro)

“Algumas coisas boas às vezes são ótimas”. Assim se expressaria o velho Conselheiro Acácio. Recorro a ele para dizer que as crônicas do Carlos, publicadas em seu blog - agora felizmente reaparecido por obra do seu filho Germano, como justíssima homenagem ao nosso cronista maior – estão nessa assertiva acaciana. Esclareço que a pecaminosa associação do nome de Carlos à imbecilidade conselheiral é apenas uma brincadeira de quem tem talento escasso, pois não existe ninguém menos acaciano que o Carlos.

Na verdade, ele é exatamente o oposto - em vez das frases bombásticas e vazias que Eça habilmente dependurou nos lábios inertes do Acácio, encontramos no texto do Carlos uma “simplicidade profunda” – uma capacidade de falar de coisas que transcendem o raciocínio diário e comum por meio de frases e raciocínios de aparência semelhante. Uma “superficialidade profunda” (perdoem o oximoro) que esconde magicamente um mergulho no pensamento mais profundo, tarefa que não é para qualquer um. E nisso ele está, por exemplo, com Santo Agostinho, que em suas Confissões soube acondicionar tão destramente sofisticadas reflexões metafísicas em um texto leve, gracioso, de comovente simplicidade.

A gente sabe se o escritor é bom quando vez por outra acorre à nossa lembrança alguma frase, um pensamento, uma descoberta, que lemos uma vez e ficou para sempre impregnada na memória, para nos acudir em nossos momentos de perplexidade filosófica ante a aparência desconcertante de um mundo tão violento, injusto e desonesto em que nos foi concedido viver para apurarmos o caldo grosso de nossa vida cheia de pecados. Falando assim, parece que estou a dizer que o Carlos era um moralista intransigente, inflexível na condenação dos defeitos humanos e incapaz de ver na natureza simples e colorida que nos cerca um cenário preparado por Deus para aliviar-nos na pesada tarefa de viver.

Quantas vezes, ao ler suas crônicas, peguei-me surpreendido com sua capacidade de ver nos coqueirais de Tambaú, numa simples florzinha do mato, na brisa do mar que abençoa seu ninho fincado nos contrafortes do Cabo Branco, revelações de uma verdade maior, que só os artistas, seres antenados, conseguem captar e transmitir. A quem comparar o escritor Carlos, que literatura pode ser semelhante à sua, na beleza, na acuidade, na plácida sensibilidade? Há muitos, e não vou cansar algum caridoso leitor que tenha me acompanhado até aqui, com listas de falsa erudição e risco de omissões criminosas. Nem precisamos sair da Paraíba para encontrar seus símiles. Ocorre-me de pronto José Lins do Rego. Basta este para ajudar-me nesta comparação de estilo, de sensibilidade e de beleza.

Soube agora que sua companheira e irmã de alma Alaurinda, artista de sensibilidade igualmente refinada, está compondo uma espécie de “Espaço Carlos Cronista” (criei esse título por puro enxerimento, ninguém mo pediu), ao recompor com a indispensável colaboração do Germano, os lugares onde ele viveu seus momentos de intimidade familiar, seus longos colóquios com os artistas de sua predileção, às vezes na biblioteca, outras no aconchego de seu canto predileto. Grande, inestimável Carlos. Lembrei-me de parafrasear um texto sobre Guimarães Rosa escrito pelo Drummond: “O Carlos Romero existiu mesmo, de se pegar?”

(Ângela Bezerra de Castro) Narrativa Narrar é sobreviver. É vencer o tempo e as armadilhas da vida. É enganar a morte. Foi assim com Sheraza...

Deslindes da crítica e narrativa


(Ângela Bezerra de Castro)

Narrativa

Narrar é sobreviver. É vencer o tempo e as armadilhas da vida. É enganar a morte.

Foi assim com Sherazade e continua a ser com todos aqueles que dão sequência ao texto ou ao “risco do bordado” que a humanidade vai desenhando e tecendo ao longo de sua história.

Na força da narrativa o real se transfigura, permanece e se eterniza, mesmo quando a referência temporal que lhe deu origem já se apagou na paisagem do mundo ou na memória dos homens.

É esse poder de recriar o mundo, de restaurar o tempo, de reinventar a vida que atrai e consagra o narrador, e tem contrariado até hoje as vozes que se arriscaram a profetizar o fim do romance e da literatura.

                              

Crítica literária

A Crítica Literária não se pode restringir a uma atitude individual e muito menos reduzir-se ao elogio vazio ou de conveniência.

A crítica é um saber exercitado através de século que, na segunda metade do século XX, atingiu um nível de competência e objetividade impossível de ser confundido com o discurso da banalidade.

Crítica é Leitura especializada, instrumentada pela Teoria Literária, pela História da Literatura e por outros conhecimentos que o texto-objeto exija, na decifração dos seus códigos. É análise rigorosa e conclusão fundamentada. Criação e descoberta. Luz que ilumina o texto para revelar as armadilhas da construção e suas estruturas de sentido. Ponte que faz mais segura a travessia dos leitores que empreenderão depois a mesma viagem.

É isto a Crítica. A verdadeira Crítica que se incorpora definitivamente à historia do texto literário estudado e não pode ser ignorado pelos novos leitores, tal a procedência de suas descobertas e a exatidão de suas lições.

(excertos do livro “Um certo modo de ler”)

(Davi Lucena) Meu caso de amor e amizade com Carlos Romero começou em 1994, mais exatamente no mês de abril. Foi o começo de um valioso rela...

Carlos Romero, meu bom companheiro de viagem


(Davi Lucena)

Meu caso de amor e amizade com Carlos Romero começou em 1994, mais exatamente no mês de abril. Foi o começo de um valioso relacionamento de pai e filho. Estava eu com os meus 27 anos, recém-estabelecido em João Pessoa. Ele nunca gostou de conversar sobre idade e coisas do passado. Quando fomos apresentados, com um aperto de mão, a primeira coisa que dele ouvi foi: “não me chame de senhor”. Jamais obedeci, por causa da reverência que a figura dele me impunha. Naquele mesmo ano, em outubro, fizemos nossa primeira viagem. Nos preparativos, ele brincava dizendo que detestava fazer as malas, coisa que, na verdade, ele jamais experimentou.

Desembarcamos em Bruxelas. Ele, Alaurinda, Germano e eu, numa tarde ligeiramente fria. Era minha primeira viagem internacional e meus olhos reviravam com as belezas do velho mundo. Tudo era novidade: as casas bem alinhadas, os bosques de pinheiros, as igrejas milenares, as pessoas conversando em outras línguas. Ficamos no centro da cidade, pertinho da Grand Place e meu entusiasmo, ao debutar naquelas paragens, me impelia a querer estar na rua a todo instante, para ver o movimento, as bicicletas, os bondes, as pessoas. Logo percebi que meu companheiro de viagem, Carlos, que já tinha cruzado o Atlântico, não se dava muito a deslumbramentos. Com seu inseparável caderno de anotações, ele costumava sentar num banco da praça e escrever seus rabiscos, enquanto observava as pessoas indo de um lado a outro. Naquele pequeno papel, o cronista registrava curtas impressões, que mais tarde eram processadas e transformadas em sensíveis exposições do cotidiano. O vento, as nuvens, as pernas que passavam apressadas pelas ruas, os pombos à procura do milho que os transeuntes bondosos jogavam… tudo era inspiração para os textos do escritor.

Ele logo passou a me chamar de “Deivis”, na forma mais carinhosa que poderia existir. Quando me encontrava de manhã, no lugar do clássico “bom dia”, ele olhava pra mim e repetia a palavra 3 vezes: “Deivis, Deivis, Deivis”, como se fosse um mantra ou uma forma de benção. Carlos adorava cooper. Ainda na casa de seus 80 anos, com uma vitalidade impressionante que a genética lhe presenteou, ele singrava quilômetros, incansavelmente, e nos levava todos juntos em suas caminhadas. Com ele aprendi a ver o mundo por prismas que jamais tinha imaginado. As viagens, que muitos veem como oportunidade de compras e de festas, para nós eram momentos de renovação cultural e espiritual. Sua paixão por livros levou-me a conhecer grandes livrarias mundo afora. E não só isso. A nossa convivência potencializou ainda mais a minha inclinação pela leitura. Foi a espiritualidade de Carlos Romero que me deu a oportunidade de ouvir palestrantes de renome, a visitar a loja em que Allan Kardec trabalhou, a cidade em que nasceu, o túmulo no cemitério Père Lachaise. Por causa dele, fui apresentado a orquestras, pianistas, condutores, óperas, balés. Atravessamos riachos, passeamos por desfiladeiros, cruzamos mares e percorremos grandes distâncias, por terra, mar e ar. Em alguns momentos, sua voz ecoava de forma mansa, com uma observação sobre as ovelhas e vacas que pastavam nos campos. Sim, é isso mesmo, ele pensava alto e parecia conversar com os seres que o cercavam, inclusive os inanimados.

Já chegando aos 90, sua estrutura física deu sinais de declínio, mas sua vivacidade mental permaneceu acesa, a todo vapor, como um alegre trem sobre os trilhos, transporte no qual ele mais gostava de viajar. Nas escadarias, ele apoiava o seu braço no meu e puxava alguma conversa só pra disfarçar a ajuda de que precisava para escalar os degraus. Continuou vaidoso. Escondia a bengala para tirar fotografias e se recusava a entrar em filas prioritárias. Adorava camisas coloridas, abotoadas até o pescoço. Sempre exaltava a música erudita, e considerava relevante comparecer aos eventos de paletó e gravata. Certo dia foi presenteado com um chapéu Panamá e nunca mais quis deixar de usá-lo. “Esta é a minha marca registrada”... dizia ele.

Não reclamava de nada. Se a comida servida no restaurante era boa, elogiava. Se não estivesse apetitosa, elogiava do mesmo jeito. Diante de um prato de bacalhau fresco, então, seus olhos brilhavam. No carro, durante os trajetos, a paisagem soberana composta de árvores, campos e nuvens resplandecia lá fora, mas a atenção dele ela toda para a sua bonequinha, Alaurinda. Gostavam muito de conversar, discutir sobre arte, filosofia, religião, e, vez por outra, engatilhavam umas “briguinhas”, porque ela queria responder todas as enquetes que ele fazia durante os passeios. A Germano, a quem ele chamava de “meu anjo”, pedia sempre para colocar no som do carro um concerto de Bruckner ou Beethoven.

E assim as viagens transcorriam como uma festa, singela, divertida, cultural. As paradas serviam para um pequeno descanso e para contemplação. Na margem de lagos espelhados, ele colocava apelidos nas montanhas e recolhia seixos para levar como lembrança. Ao ver um gramado, estendia-se ao sol, sem querer saber de mais nada, só dos raios que acariciavam seu rosto. Nos jardins, parques e praças, pedia para ser fotografado entre as flores. Não podia ver uma estátua ou busto, que logo queria saber de quem se tratava. Do frio não gostava muito, mas nada o impedia de querer sair às ruas, passear nas calçadas, folhear um livro em algum recanto, fazer suas anotações para futuras crônicas.

Trago na lembrança aquele olhar sereno, aquele sorriso simpático, aquela companhia que sempre tornava agradável qualquer ocasião. Passamos por turbulências e navegamos em voos tranquilos. Vencemos tempestades e nevascas. Descansamos na calmaria. E ele, já impedido de ficar em pé por muito tempo, servindo-se do conforto de uma cadeira de rodas, participava de tudo, tirando o melhor que a vida tinha a lhe oferecer, sempre cantarolando alguma canção e fazendo com que todos o acompanhássemos em coro.

Será difícil, senão impossível, enfrentar alguma outra viagem sem a companhia física de tão adorável ser. Não sei se a dor da saudade permitirá. Mas, com certeza, ele irá nos incentivar a continuar fazendo aquilo de que mais gostava. Rodar o mundo, contemplar as belezas do planeta. Se isto acontecer, será ele, agora, que me dará apoio com o seu braço… e eu sei que vou ouvir aquele sussurro de incentivo e amizade em meu ouvido, a repetir, com carinho, “Deivis, Deivis, Deivis”.


(Chico Viana) A gripe é sobretudo uma agressão moral. Você sabe que ela não vai lhe matar, mas o estado a que o reduz é lastimável. Não dá p...

Gripado



(Chico Viana)

A gripe é sobretudo uma agressão moral. Você sabe que ela não vai lhe matar, mas o estado a que o reduz é lastimável. Não dá para fazer selfie com o nariz vermelho e os olhos injetados. E o pior é o defluxo que dele emana (prefiro o termo “defluxo” ao escatológico “catarro”).

A medicina criou um nome pomposo para designar a gripe – influenza, que vem do italiano. É um termo simpático e que até nos dá vontade de passar pela experiência. Parece haver certa nobreza numa afecção cujo nome evoca a pátria de Dante e Michelangelo. Mas a empolgação acaba quando vêm os espirros e a febre (ou melhor, a febrícula, com esse sufixo derrisório). Seu moral começa a balançar, e o corpo pede cama.

O bom é que, deitado, você momentaneamente se subtrai à atual confusão político-institucional do Brasil. Esquece por um tempo a reforma da Previdência, o Coaf (a única coisa que lhe evoca essa sigla é o cof-cof da tosse), a disputa entre os três Poderes (bem que os próceres da República mereciam uma gripe bem forte para lhes moderar a vaidade e a ambição. Não dá para gritar “Quem manda sou eu!” com os olhos lacrimejando). O espírito vagueia, mas a influenza não se esquece de continuar o seu trabalho. Inerte e sorumbático, você não passa de um espectro mucoso a passar o lenço (o quarto já) pelo nariz.

Então a mulher vem e lhe oferece um chá. Pergunta se você quer vitamina C (pelo seu gosto, você tomava todo o alfabeto). Um antitérmico também ajuda. É o máximo que se pode fazer contra uma patologia para a qual não há remédio – a não ser humildemente esperar.

A gripe é sobretudo um teste de paciência. Não há como evitá-la, mesmo com as vacinas. Periodicamente um exército de novos vírus ameaça o nosso organismo para demonstrar o quanto somos suscetíveis às agressões do ambiente e à roda das estações. A gripe modera a nossa soberba e, se nos põe na cama, é para que depois nos levantemos humildes e mais compenetrados da nossa humana condição. Se é inevitável adoecer, que seja ela a nos fazer dar o devido valor à saúde.

(Bráulio Tavares) Todo mundo sabe que no Cemitério das Profecias Apressadas o túmulo dos que preconizaram o fim da poesia com métrica e rima...

"Rimar é como dançar"


(Bráulio Tavares)

Todo mundo sabe que no Cemitério das Profecias Apressadas o túmulo dos que preconizaram o fim da poesia com métrica e rima fica a apenas duas aleias de distância do mausoléu dos que decretaram o fim da pintura figurativa.

Modernismos literários à parte, a poesia de forma fixa continua a ser praticada no mundo inteiro, convivendo em paz com as formas mais recentes, que incluem a poesia não-discursiva, a poesia visual, o poema-objeto, o poema-performance, e por aí vai.

Rimar é como dançar. Exige intuição e exige técnica. Para efeito deste artigo vou considerar apenas a chamada rima exata ou rima consoante, onde as duas palavras que rimam precisam ter som igual a partir da vogal da sílaba tônica (rima / prima; tônica / eletrônica; precisa / camisa, título / capítulo; etc).

É diferente da rima toante, em que basta haver uma certa semelhança entre os sons: longe / onde; olhos / relógios; estrada / mata. Em geral, a rima toante se funda na vogal tônica, que é a mesma, como nos exemplos anteriores, ou parecida, como nestes: automóvel / ouro; quente / parede; profundo / pulso.

O Rei da Rima Toante chama-se João Cabral de Melo Neto.

O poeta é o dono do seu poema. Ninguém o obriga a nada. Quando põe o lápis no papel ou o dedo no teclado, ele é livre para escrever palavras até de cabeça para baixo, se quiser (Carlos Drummond já o fez, em “Amar/Amaro”).

Acontece, no entanto, que nessa Metrópole da Liberdade Absoluta existe uma região chamada O Bairro das Formas Fixas, como o soneto, o hai-kai, a sextilha, a décima... São fixas porque o prazer de cultivá-las está nas regras que devem ser seguidas. O jogo poético tem um componente de desafio técnico. Grande parte da sedução dessas formas poéticas é o esforço de estar à altura de uma exigência radical. A prática das formas fixas é uma espécie de esporte radical poético. Não é para qualquer um. É para quem pode.

O poeta que usa essas formas precisa mostrar que as conhece e as domina, tal como um músico que empunha o violão ou senta ao piano deve mostrar domínio do instrumento. Sem isso, dificilmente ele vai produzir algum efeito estético.

As palavras que rimam são utilizadas pela semelhança de som. O poeta inexperiente, que tem pouco vocabulário, tende muitas vezes a terminar uma linha com uma palavra qualquer e, ao chegar na próxima linha onde a rima deve aparecer, colocar no papel a primeira rima que lhe vem à cabeça. O poema é romântico. Ele diz à amada: “Eu te amo, e por isso estou aqui”. Mais adiante, precisando de algo que rime com “aqui”, vê-se obrigado a enfiar no poema um abacaxi ou um índio guarani, que não têm nada a ver com o que está sendo dito. Estão ali somente para não perder a rima. É o que chamamos de rima forçada, rima apelativa, usando palavras que entraram no poema como Pilatos no Credo.

A palavra que rima está sendo usada pelo som, mas é preciso fazer com que pareça estar sendo usada pelo sentido. Como se nenhuma outra palavra pudesse ter sido colocada ali, a não ser aquela, que, aliás, vejam só a coincidência! – rima exatamente com a palavra de uma ou duas linhas atrás.

Vi uma discussão sobre aquela antiga canção, “Mamãe” (Herivelto Martins, David Nasser e Washington Harline), que diz:

Mamãe, mamãe, mamãe...
Eu te lembro, chinelo na mão,
o avental todo sujo de ovo...
Se eu pudesse eu queria outra vez, mamãe,
começar tudo tudo de novo.

É evidente que o letrista queria encerrar a canção com estas duas últimas linhas, certamente as primeiras que ele pensou para este trecho. Ele precisava de uma palavra que rimasse com “novo” – e que se encaixasse no contexto. Podia ter usado povo, louvo, comovo... A solução encontrada (que alguns contestam) me parece boa, porque o avental sujo de ovo se encaixa perfeitamente na memória de infância proposta pela letra. A palavra fornece a rima, mas também tem tudo a ver com o assunto.

Palavras que têm poucas rimas forçam o poeta (ou o letrista de música) a repetir eternamente um pequeno repertório. Uma passada de olhos pela música popular brasileira nos mostra que o uso da palavra samba acaba levando os autores a se referir a muamba, corda bamba, a corda e a caçamba e assim por diante. A palavra Brasil, curiosamente, tem centenas de rimas possíveis, mas alguma pressão cívica empurrou inúmeros poetas ao uso de varonil, céu de anil, eventualmente fuzil ou cantil.

Drummond já abriu um poema (“Consideração do Poema”) anunciando: “Não rimarei a palavra sono / com a incorrespondente palavra outono”. Drummond nunca foi inimigo da rima. Rimou fartamente ao longo de sua obra, mas esse pontapé na mesa era para que as rimas fossem pensadas, e tivessem uma motivação maior além da mera sonoridade. Ou seja – que parecessem estar ali não pelo som, mas pelo sentido.

Pode-se falsificar uma rima? Há exceções? Claro, e exceções ilustres. Um caso clássico de rima apelativa foi produzido por Victor Hugo, no seu poema de tema bíblico “Booz endormi” do livro La Légende des Siècles (1855-1876). Dizia ele:

Tout reposait dans Ur et dans Jérimadeth ;
Les astres émaillaient le ciel profond et sombre ;
Le croissant fin et clair parmi ces fleurs de l'ombre
Brillait à l'occident, et Ruth se demandait, (…)

(Em tradução rápida, ou seja, sem pretender reproduzir todos os efeitos do original:

Tudo estava em repouso em Ur e em Jérimadeth;
os astros cravejavam o céu fundo e sombrio;
o crescente fino e claro, entre as flores da sombra,
brilhava no ocidente, e Ruth se inquiriu...”

Muitos críticos se dedicaram a buscar essa referência geográfica à cidade de Jérimadeth, até que se percebeu que era um trocadilho do poeta com “J’ai rime à deth”, “eu tenho uma rima para deth”. Rimas inventadas para “quebrar o galho” de um autor não são coisa rara, mas o fato disso ser feito pelo maior poeta francês não apenas legitima em parte o processo, mas aos meus olhos deixa o poeta, que era tão sisudo, com uma imagem mais bem-humorada e simpática.

Muitos poetas, antes de começar a redigir uma estrofe, fazem uma pequena lista das rimas possíveis. A lista de rimas é um pequeno mapa dos caminhos que ele poderá percorrer para dizer o que pensa. Ações metódicas como esta não comprometem a espontaneidade da escrita. Pelo contrário: mostrando antecipadamente as alternativas, ajudam a escrita a fluir de modo mais espontâneo, e deixam o poeta mais seguro, já sabendo por onde pode passar para chegar ao objetivo.

Se o poema vai ter rima obrigatória, não custa nada fazer antes uma lista de palavras com essa rima. E procurar entre elas as palavras que pareçam mais naturais, que desenvolvam o assunto da melhor maneira. É preciso evitar o perigo da primeira rima que vem à cabeça. Geralmente é ruim.

Por toda parte vemos poemas onde o autor, escrevendo meio de improviso, põe no fim do verso uma palavra com poucas rimas. Digamos que ele escreveu “cinza”. Agora, por causa disto, precisa escavacar a memória atrás de uma rima correta, e só acha “ranzinza” – e aí vai ter que encaixar essa palavra tão específica dentro do assunto que vinha tratando. Às vezes, dá. Geralmente, não. É aquele caso de “pintar o piso e se encurralar num recanto”. Fica sem escolhas.

Há livro para o qual retornamos às suas páginas buscando o prazer da leitura, embalado pela ansiedade. Livros que nos fazem lembrar passag...

Crispim e outras lembranças



Há livro para o qual retornamos às suas páginas buscando o prazer da leitura, embalado pela ansiedade. Livros que nos fazem lembrar passagens da vida profissional, porque encurtam a distância entre o autor e nós.

Oito anos depois retorno ao livro de crônicas “Eu e outros arrecifes” de Luís Augusto Crispim, rememorado nossas paisagens, lembranças perdidas no tempo porque inicialmente construídas nas distantes tardes da redação do velho jornal O Norte. Lugar aonde ele chegava com passos lentos e gestos majestosos, corpo esbelto, destacável à distância. Desejava um boa-tarde, cumprimentava a todos, sentava à mesa e batia à máquina a crônica do dia seguinte. Era o tempo de quando esculpia minhas primeiras páginas, com letras nervosas. Dele, artesão tarimbado da palavra escrita, recebia o estímulo para continuar escrevendo.

Nunca recorri aos seus ensinamentos sem um retorno favorável, validando o menor gesto de nossa parte, porque se revelava no espírito de fraternidade, base para a construção de uma sólida amizade. Não que eu tivesse intimidade de adentrar no seu terraço como fazia com relação à Nathanael Alves e depois da ausência deste, com igual familiaridade em relação a Gonzaga Rodrigues, mas quanto a Crispim obtive livros que faltaram no meu roçado, quando morei em Serraria e Arara.

Retornei ao “Eu e outros arrecifes” rodeado de lembranças do abraço que fertilizava nossa amizade, cuja releitura trouxe-me à mente as palavras que a professora Ângela Bezerra de Castro usou, por ocasião do lançamento do livro, quando revelou os caminhos da crônica trilhados por este jornalista morto quando estava na melhor fase de escritor.

Era um final de tarde. O dia adormecia com seus derradeiros raios cobrindo o Rio Sanhauá e sobre os casarões em redor da Academia Paraibana de Letras sibilava o vento, enquanto era lançado o livro de crônicas recolhidas por suas mãos dias antes da sua passagem ao Infinito, onde repousa.

Ângela fez um passeio ao mundo do amigo ausente, ao tempo em que a emoção contaminava a plateia silenciosa. Cada um recordando no silêncio uma frase, um abraço, a leitura emocionada do texto a qual tínhamos acesso todas as manhãs, completando nosso café.

Como por ocasião da primeira leitura, agora retornei ao livro recordando cada palavra da professora, palavras que construíram a personalidade do amigo, compondo a minha pequena lista de saudade de ausentes.

A emoção de Ângela, naquela noite, recordando o amigo confidente, espontaneamente remeteria às recordações da amizade construída na sinceridade recíproca, fez com que nunca nos esqueçamos de Crispim, admirado como ser humano lapidado pela educação e o bom trato. Num texto publicado à época no jornal O Norte, eu falava que um dia retornaria a leitura do livro, que faço agora com emoção, ao lembrar-me do amigo que está a cobrar culto à sua memória.

A exaltação da professora ao mestre e amigo misturada aos acordes do vento naquela boca-de-noite, ainda ressoa como ruídos de um címbalo, não se apagará de nossa memória.

Crispim é daquelas pessoas que separamos para admirar. Era diferente. Tinha um olhar para as artes e outro para a vida, e isso o fez um homem notabilíssimo, um homem cordial.

(Milton Marques Júnior) Na situação em que me encontro - e isto é uma reflexão minha, particular - consigo discernir alguns momentos de avan...

A Civilização e o Vaso Sanitário


(Milton Marques Júnior)

Na situação em que me encontro - e isto é uma reflexão minha, particular - consigo discernir alguns momentos de avanço da civilização.

O momento um, vamos chamar assim, foi quando o homem, no sentido genérico do termo, começou a usar o vaso sanitário.

O momento seguinte foi a descoberta da tampa do vaso sanitário, compreendendo que era menos nocivo dar a descarga com o vaso tampado. E efetivamente é.

O terceiro momento é a epifania que o homem teve - agora no sentido restrito do termo, de sexo masculino - ao assimilar que deveria levantar a tampa do vaso para fazer xixi.

O quarto momento foi a grande descoberta de deixar o vaso limpo, após cada uso, considerando que alguém vai usá-lo, principalmente quem partilha a moradia com ele.

O quinto momento civilizatório se dará quando o homem masculino começar a fazer xixi sentado no vaso.

Eis chegado o momento supremo: quando após ter assimilado todos os passos anteriores, o homem lavar as suas mãos, antes de sair do sanitário. Lavar bem, não apenas molhar as mãos.

Se conseguirmos cumprir todos estes passos, respeitar o outro será fichinha.

Música cheia de vida, planta cheia de vida, cidade cheia de vida. Cheia de vida, expressão cheia de tudo. De brilho, de viço, de ânimo, de...

Cheia de vida

marcia steinbach kaplan jose alberto kaplan
Música cheia de vida, planta cheia de vida, cidade cheia de vida. Cheia de vida, expressão cheia de tudo. De brilho, de viço, de ânimo, de cor, e humor. De boa conversa, contagiante, enérgica, vibrante. Márcia Kaplan era assim. Cheia de vida. De muita vida.

(por Odilon Ribeiro Coutinho) Creio que há uma relação misteriosa entre o individuo e a paisagem. Quando andei pelas praderias da Mancha, di...

A “irredutível integridade” de Ângela Bezerra de Castro


(por Odilon Ribeiro Coutinho)

Creio que há uma relação misteriosa entre o individuo e a paisagem. Quando andei pelas praderias da Mancha, diante das planícies que fugiam, céleres, de minha vista até se perderem no horizonte, demarcadas apenas por uma pequena árvore ou simples arbusto, situados a longo intervalo um do outro, apoderou-se de mim uma sensação de espaço intemporal e o imenso vazio que se fez sentir, comunicou-me a impressão de que o espírito ia, aos poucos se desgarrando da terra

Então, compreendi o delírio do fidalgo manchego Alonso Quijano, que não é outro senão D. Quixote. Na Úmbria aconteceu a mesma coisa. A paisagem desse pedaço da terra italiana está impregnada de uma humildade tão doce, que o coração se enternece a ponto de se depurar de todo orgulho.

As suaves colinas que ondulam na Úmbria têm um ar de tanta mansidão, que logo se imagina que São Francisco de Assis se deixou tocar pela doçura e humildade daqueles arredondados montes, marcados nostalgicamente pela presença, no seu macio cimo, de um cipreste solitário.

Curiosamente, D. Quixote foi o primeiro herói literário que conquistou a imaginação de Ângela Bezerra de Castro. Os sonhos e a impávida galhardia com que o heróico manchego defendeu os ideais da Cavalaria, parecem encontrar no espírito da escritora paraibana, semelhanças e afinidades que se revelam na sua admirável vocação para a resistência e na sua irredutível integridade.

E São Francisco, que Chesterton disse ser o único verdadeiro democrata que existiu até hoje, é o santo da paixão de Ângela, que o quer como companheiro em todos os recantos de sua casa, onde há uma dezena de imagens espalhadas por todas as dependências.

Detrás das muralhas de granito, na solidão de um refúgio que lhe oferecia a segurança de uma cidade, confinada, quase tão somente, à convivência do circulo familial, vigiada pela severidade do perfil de rochedos imemoriais, espreitada pelos olhos invisíveis de seres misteriosos que parecem cruzar os ares da Serra da Confusão, a escritora forrou seu ser moral com metais que não se enferrujam.

(Trecho do discurso do escritor Odilon Ribeiro Coutinho para recepção da Professora Ângela Bezerra de Castro à Academia Paraibana de Letras, em 1999)

(Linaldo Guedes) As coisas as coisas não surgem do mar a não ser na bahia de todos os cantos onde todos os afluentes deságuam negrumes salga...

Três poemas


(Linaldo Guedes)

As coisas

as coisas não surgem do mar
a não ser na bahia de todos os cantos
onde todos os afluentes
deságuam negrumes salgados

tambores em versos gregorianos
temperos no auriverde pendão do pelourinho

- e caetano me falando de outros santos que não rezavam agonias
- e das baianas com estranhas liturgias dentro das anáguas

oração na igreja do bonfim: as coisas só surgem se amar.

Lugares

gosto de estar em lugares que já li
- ser cúmplice das angústias e presepadas
de riobaldo, de quaderna, de macunaíma
(eles sabem mais de mim do que o terapeuta que nunca vou ter)
com eles, construí um pacto com o cramunhão
para ser o gênio da raça brasileira
mas, anti-herói que sou, não sai dos livros
e dos lugares que ainda serão lidos.

Ladainha

um oásis se constrói com desertos
perto
(ou)
longe
um oásis se constrói em desertos
perto
(e)
longe
um oásis se constrói
(e os desertos?).

(Do livro, ainda inédito, "Cabo Branco e outros lugares que não estão no mapa")

(Lustração: Pintura de Bruno Steinbach."Cabo Branco, visto da Praia do Seixas". Óleo/tela, 50x70 cm, dez 2006, João Pessoa, Paraíba, Brasil. Coleção: Marcelo Steinbach Silva (in memoriam)

Nem sei mais quando conheci Gonzaga. Faz tempo! Mas confesso que, só mais recentemente é que leio sua coluna com mais assiduidade. Sempre ...

Gonzaga Rodrigues



Nem sei mais quando conheci Gonzaga. Faz tempo! Mas confesso que, só mais recentemente é que leio sua coluna com mais assiduidade. Sempre o encontro nos eventos literários. E também sabia que tinha conhecido meu pai, Romero, nos tempos de outrora.

Gosto do seu estilo de crônica (simples, sofisticada, única e poética), e assim como toda a torcida de todos os times, o seu talento. Confesso que, quase sempre não conheço as pessoas de quem fala nas crônicas, seus lugares queridos, Alagoa Nova, e tantos outros recantos da sua prodigiosa memória. Pouco importa. Para quem tem aquele saber, aquela facilidade poética das esquinas, seus amores pela cidade, pelos amigos, e pela vida, nem se precisa conhecer os atores. Um passeio pelas suas vírgulas, já basta.

Também já tive oportunidades de ouvi-lo falar – com maestria. Homem simples, direto, erudito, simpático, e que tenho no seu olhar, uma ternura à toda prova. Uma empatia que sinto. Amor à primeira vista. Com todo o respeito. Ele sempre solícito e sempre carinhoso com meus afagos, abraços e cordialidades.

Nos últimos tempos, por conta dos livros, eventos comuns, e encontros mais costumeiros, esses afagos e abraços sempre mais assíduos. E eu, de longe, aproveitando sua fala, seu humor, e seu sorriso de olhos fechados. Uma unanimidade esse Gonzaga! Que tem no nome, ritmos de outro mestre. Um ritmo que vislumbra em passos devagarzinho, através do seu corpo magro, bem vestido em cortes de linho azul claro, cabeleira vasta, e olhos negros, hoje com uma ligeira névoa de quem já viu, olhou, contemplou , um tanto da vida – Longing day and night! Eu diria em outra língua.

Pois semana passada, fui convidada por amigos, a ir almoçar com alguns, e dentre eles estaria Gonzaga , o Neguinho, como é carinhosamente apelidado pelos seus. Imagina, o luxo de, dividir uma galinha de capoeira, uma cervejinha, cachacinha, ou o que fosse, com esse moço dos olhos risonhos.

Foi uma tarde inteira com ele sentado à minha frente. A discorrer sobre as ladeiras e percalços de suas histórias maravilhosas. Causos. Piadas até. Sua singeleza (sim! Essa é uma palavra boa para adjetiva-lo) e boas risadas de alegria, fizeram meu coração pinotar feito criança com brinquedo novo.

Lá pelas tantas, como se a felicidade não bastasse, comecei a situá-lo em relação ao meu pai. Ele arregalou os olhos – aqueles que riem de espanto, e identificou direitinho o meu pai querido, e o seu lugar de trabalho na Praça Antenor Navarro. Lembrou do seu escritório, das visitas, da generosidade do meu pai, contou até alguns segredos dos dois , confianças, admirações mútuas. Gentil e surpreso, mostrou sua alegria em me descobrir nos teclados das Remingtons que meu pai vendia. Teclados esses através dos quais, escreve suas preciosidades, reconhecidas e aplaudias pela vida toda. E eu ali, com o olhar perdido no passado, ouvindo emocionada, esse elo de afeto!

Sou uma leitora anônima, assim como toda uma cidade, que lê entusiasmada , seus passeios públicos e mais íntimos; sobre suas perplexidades diante do Ponto de Cem Réis; seus pertencimentos da vida; suas alegrias/tristezas da existência.

Ah! Gonzaga! Arvoro-me à essa pequenina sobremesa, ao nosso mais que idílico almoço, que ainda teve direito à performance de João Batista de Brito e seu texto sobre O Anjo Azul e Marlene Dietrich, e gargalhadas com o pai de Brooke Shields! Aí é assunto para uma outra crônica.

Obrigada Gonzaga! Martinho Moreira Franco, João Batista Brito, Mariângela Wanderley, e Luiz Paiva. Voltei pra casa literalmente rodopiando feito bailarina, não sem antes ter te dado um grande abraço que máquina nenhuma conseguiria registrar. Essas coisas do instante! E do afeto!

Meu quintal mede poucos metros e é lindo. Dele eu enxergo o mundo. De um lado, vejo uma nesga do mar, do outro, vejo o entardecer colorido ...

De meu quintal enxergo o mundo


Meu quintal mede poucos metros e é lindo. Dele eu enxergo o mundo. De um lado, vejo uma nesga do mar, do outro, vejo o entardecer colorido com todos os tons de laranja. No meu quintal cabe uma rede e pequenos vasos de plantas que cuido com o carinho de mãe zelosa. Às vezes, sou presenteada com flores e me sinto a pessoa mais privilegiada do mundo.

Tudo se resume em ter um olhar que saiba enxergar.

Olhar é o mais comprometido, descomprometido ato da nossa percepção.

Olhar é exercício de vida e entendimento. É captar na retina da memória e do coração o que nunca esquecemos: a emoção quando desvendamos o rosto do filho recém-nascido, o olhar de aconchego quando enxergamos reciprocidade nos olhos de alguém por quem estamos apaixonados e o mais dolorido olhar, cheio de pavor abissal, é quando enxergamos a vida se findando no olhar de quem amamos.

Olhar o tempo é sentir certa melancolia de quem sabe que a vida é passageira e por isto mesmo, bela. Olhar é um ato de humildade diante da eterna dívida de haver nascido em um mundo absurdo e detonado pelo caos, mas que ainda nos dá a oportunidade de enxergar e reverenciar uma natureza pródiga de céu azul, mares verdes e flores amarelas.


Cristina Lugão Porcaro é bacharel em artes plásticas, psico-pedagoga e escritora

(José Nunes) No livro “O Idiota”, uma das obras-primas da literatura universal escrita pelo russo Fiodor Dostoievski, encontra-se a frase qu...

A beleza salvará o mundo


(José Nunes)

No livro “O Idiota”, uma das obras-primas da literatura universal escrita pelo russo Fiodor Dostoievski, encontra-se a frase que remete à mediação da beleza como princípio para salvar o mundo. Os gregos apontavam nessa direção do belo como fundamental à união das pessoas num único sentido da vida, da mão estendida na mesma direção. Foi com esse sentimento que há dois mil anos Jesus, que viveu nas terras áridas da Galileia, propunha o ensinamento da fraternidade.

“A beleza salvará o mundo”, escreveu o autor russo acreditando que seria possível harmonizar os sentimentos humanos de partilha. Mais tarde, retornaria a esse mesmo tema no romance “Os irmãos Karamazov”, aprofundando a questão do relacionamento harmonioso entre as pessoas como forma de conquistar a paz.

Na história por ele narrada no livro “O Idiota”, um ateu questiona como o mundo seria salvo pela beleza, ao que o príncipe Mynski nada responde, no entanto, fica junto a um moço de 18 anos que agoniza no leito da morte, cheio de compaixão, silencioso até este expirar. Gesto de profunda beleza, de amor ao próximo no momento da extrema dor, provando que atitude dessa natureza ajudará a salvar o mundo.

O romancista russo achava que belo era não roubar a dignidade dos outros, ter um espírito dominador, consumista. Repetia que “seguramente não podemos viver sem pão, mas também é impossível existir sem beleza”.

Também quando lemos ou contemplamos uma obra de arte, seja uma pintura, um poema, uma fotografia, por exemplo, captamos o alimento para nossa alma e, abastecidos do belo, somos impulsionados a conduzir outras pessoas para vivenciar o mesmo sentimento e, lentamente, ajudando a formar a paisagem da harmonia entre nossos semelhantes.

Criei-me num sítio onde vivíamos no mesmo nível de pobreza, as famílias partilhavam-se na mesma dor, repartindo a nesga de mistura para deixar saboroso o prato com feijão e farinha. Na dor e na angústia estávamos juntos e chamávamos de “de belo gesto” quando alguém ajudava o desprovido de alimento, sobretudo da alimentação. A cuia com farinha, o punhado de açúcar, sal ou café trazia alívio à fome e expunha a beleza daquele gesto.

Reconheço quanta beleza nos gestos que nossos vizinhos protagonizaram quando a cacimba deixou de fornecer água, a lavoura não brotou, com dias em que a panela ficava vazia na trempe, salvando-nos da aflição do estômago vazio.

Jesus implantou na alma das pessoas que a generosidade dos gestos nos faz irmãos todos os povos, deixando a lição de que a beleza está acima do estético e que possui uma grandeza moral e religiosa. O belo está expresso quando não se litigia a Deus, mas quando se vence o mal.

O belo não está na formosura do corpo que atende ao apelo do marketing, mas nos gestos que transformam e moldam o relacionamento humano. A flor nasce sem desejar ser contemplada, mas paramos para olhar e admirá-la por menor que seja. A flor é bela porque já nasceu assim, e nos fascinamos quando a contemplamos.

(William Costa) Olho para as nove horas brancas e rosas que o sol acaba de abrir no meu jardim. Não sei por que, me vem à memória a frase fi...

Rosas e Espinhos


(William Costa)

Olho para as nove horas brancas e rosas que o sol acaba de abrir no meu jardim. Não sei por que, me vem à memória a frase final do romance Nadja, de André Breton, que li, há muito tempo, salvo engano em um artigo ou epígrafe de livro do escritor W. J. Solha: “A beleza será convulsiva ou não será”

Não devo ter lido Nadja com muita atenção – aliás, o livro me foi emprestado pelo próprio Solha -, pois não me recordo da frase por associá-la ao romance do surrealista francês, mas pela citação do autor paulista, radicado na Paraíba, este sim, um dos leitores mais vorazes e de excepcional memória que conheço.

A beleza do mundo me encanta e assusta exatamente por ser fugaz. Efêmera como as nove horas dos meus jarros, que desabrocham no meio da manhã e murcham muito antes do Sol se pôr. Não se pode retê-las, e sim contemplá-las, deixando de lado a vontade de questionar os motivos de sua existência.

Acontece de, às vezes, sentirmos a sensação de que algo maravilhoso irá se revelar a respeito da natureza. Mas permanecemos em suspense, como se não nos fosse permitido romper, pela razão, os limites da intuição. A sensação agrada e desespera, e, também neste caso, o melhor é respirar e relaxar-

Em momentos como este aplaudo em silêncio o cineasta Richard Donner, que dirigiu o longa-metragem O feitiço de Áquila. No filme, o Bispo de Áquila (John Wood) transforma os amantes Isabeau (Michelle Pfeiffer) e Etienne Navarre (Rutger Hauer) em predadores, aprisionando-os em mundos paralelos.

Durante o dia Isabeau transforma-se em uma águia e, à noite, Etienne toma a forma de um lobo. Eles são apaixonados e tentam se tocar no tênue instante que separa a noite do dia, quando ambos voltam à forma humana. Mas não conseguem, sendo este o verdadeiro castigo imposto pelo bispo feiticeiro.

Podemos associar a felicidade à beleza e esta às flores, uma vez que todas são transitórias - como nossas próprias vidas, aliás. E se tudo é passageiro, a alegria também é um estado de espírito momentâneo, como todas as formas de beleza, sendo o seu oposto, ou seja, a tristeza, oriunda dos inevitáveis espinhos.

Na tentativa de ser feliz, exatamente pela certeza dos espinhos, procuro andar pelo mundo atento aos seus jardins, para flagrar o momento de suas flores. Um amigo que encontro é um desses instantes, assim como o verso do poema e o excerto de conto ou romance que, ao lê-los, me emociono.

Cada vez que o mundo me agride, por meio de atos ou palavras, não escondo as lágrimas. Que a terra consuma minhas mágoas, para que, neste húmus sem rancor, vingue a esperança de uma rosa sem espinho. E quando sou eu o agressor, sinto-me como um ladrão que roubou a flor de um jardim celestial.

(Thiago Andrade Macedo) Seu nome se confunde com a própria arte à qual se dedicou por toda a vida, desde muito pequeno. Há pouco mais de 330...

Bach: O homem música


(Thiago Andrade Macedo)

Seu nome se confunde com a própria arte à qual se dedicou por toda a vida, desde muito pequeno. Há pouco mais de 330 anos, nasceu, um dos mais prolíficos e talvez o maior compositor da música ocidental: Johann Sebastian Bach. O número exato de suas obras é desconhecido, mas o catálogo BWV assinala mais de mil composições, entre elas inúmeras peças com vários movimentos e para extenso conjunto de executantes.

Além de ter sido um dos organistas mais talentosos da história da música (tinha dedos ágeis e velozes e uma habilidade incomum no uso dos pedais do instrumento), o alemão, nascido numa família luterana de longa tradição musical, também foi um mestre na arte da improvisação, o que seria, mutatis mutandis, o equivalente ao que hoje fazem os músicos de jazz. Como ninguém nunca escreveu improvisações, jamais saberemos como eram essas suas viagens alucinantes.

Bach foi bastante produtivo, e não só no terreno da música: teve vinte filhos (haja vitalidade!) – ao menos tomou conhecimento da existência desses. Entre os mais famosos, podemos citar Wilhelm Friedemann Bach, Carl Philip Emmanuel Bach e Johann Christian Bach, os quais também ajudavam o pai na cópia de suas composições musicais.

A vastidão da obra de Bach fica ainda mais evidente quando se sabe que possivelmente metade dela se perdeu ao longo do tempo. Produziu concertos, suítes, oratórios, cantatas, solos para cravo, órgão, flauta, cordas. Apesar de ser protestante, Bach compôs um pequeno número de missas latinas. Revelou-se um gênio na arte da fuga e do contraponto. A fuga era uma espécie de composição extremamente complexa, em geral escrita para quatro linhas ou vozes musicais. Cada melodia é semelhante às outras, mas só começa depois que uma outra já começou. O impressionante é que todas elas soavam bem juntas! Já o contraponto eram duas, três, quatro ou mais linhas melódicas tocadas a um só tempo, produzindo incríveis harmonias.

A música do gênio alemão é universal e vai além do Barroco, estilo musical que cultivou e do qual foi o nome mais importante. A lista de compositores notáveis ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX que demonstraram ter recebido sua influência é extensa: Mozart, Haydn, Beethoven, Brahms, Chopin, Liszt, Wagner, Mahler, Debussy, Ravel e nosso fabuloso Heitor Villa-Lobos (as Bachianas brasileiras são sublimes). Seu alcance foi tão poderoso que reverberou até mesmo na cultura popular: ele se tornou uma imagem icônica, chegando a ser incluído no rol dos santos da Igreja Luterana (sua data é comemorada no dia 28 de julho), tendo sido homenageado como compositor ilustre no calendário da Igreja Episcopal dos Estados Unidos.

O impacto de sua música não mais se restringe à música erudita: vários de seus formatos foram utilizados também na música pop, no rock progressivo e pesado e até mesmo no jazz, por nomes como Dave Brubeck. O melhor de tudo é que, a despeito de muitas de suas composições terem se perdido, um imenso número de obras-primas foi salvo, o que nos permite, até nossos dias, ouvir suas camadas de sons celestiais. A música de Bach, transcende, alimenta e nos põe em contato com as esferas superiores. Ela é a prova inconteste de que, em espírito, o homem não é só miséria.
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Nota: Link para o vídeo sobre a vida e obra do compositor à disposição no canal do arquiteto e bacharel em música, Germano Romero, produzido na Alemanha, em 2016: http://bit.ly/2XyS9Af

(Milton Marques Júnior) Para quem estranhou o título, gostaria de esclarecer alguns pontos, antes de iniciar a discussão sobre o assunto. De...

Literatura e Psicografia


(Milton Marques Júnior)

Para quem estranhou o título, gostaria de esclarecer alguns pontos, antes de iniciar a discussão sobre o assunto. De literatura entendo alguma coisa, devido à minha vivência de professor na área, já com três décadas de atuação. De psicografia, por outro lado, nada entendo, a não ser por alguns testemunhos que tenho visto e por algumas leituras que, ultimamente, ando fazendo. Leituras teóricas e leituras literárias. Aproveito também para esclarecer que o que passarei a discutir não pode e não deve ser confundido com proselitismo, pois não professo nenhuma religião, ainda que o Espiritismo me seja muito simpático. Mesmo que professasse alguma religião, aqui não seria o espaço para isto.

A simpatia, que me inspira o Espiritismo, deve-se ao fato de que, diferentemente de outras religiões que conheço, o Espiritismo é mais expressão de religiosidade do que, na realidade, religião. Seu foco, explicando melhor e incorrendo na possibilidade de estar errado, não é em uma instituição a partir da qual se estabeleçam hierarquias e, consequentemente, haja disputa ou concentração de poder. A sua espinha dorsal se estabelece, pedindo a devida vênia aos espiritistas e arriscando a ser reducionista, não em obrigações e punições impostas e previstas por uma doutrina muitas vezes mal interpretadas, mas no amor e na caridade, tendo como Jesus como guia. Feitos tais esclarecimentos, passo a discutir, ainda que de forma incipiente ou insipiente, se quiserem alguns, o tema proposto.

O que me leva ao tema deste artigo é o impacto que senti após ler algumas obras psicografadas por Chico Xavier. Em dois meses, li Sexo e destino (1963), Nosso lar (1944), Há dois mil anos (1939), Ave Cristo, (1953) e Paulo e Estevão (1942). Todas me impressionaram seja pelos assuntos variados que nelas encontramos - obsessão sexual, vida após a morte, Cristianismo nascente -, seja pelo apuro da linguagem, seja, enfim, pela precisão das informações, no que concerne às chamadas narrativas históricas, sobre o Cristianismo primitivo.

Adianto que os títulos citados não são livrinhos, nem no diminutivo quantitativo, nem no qualitativo. Além de se tratar de narrativas de razoáveis para excelentes, são obras alentadas em seus números de páginas. Paulo e Estevão, por exemplo, é uma narrativa de 550 páginas, editada pela Federação Espírita Brasileira, em 1998, na sua 31a edição. Esta obra, cuja primeira edição é de 1942, foi psicografada por Chico Xavier, ditada pelo espírito Emmanuel.

Particularmente falando, fiz a leitura de Paulo e Estevão de uma assentada, entusiasmado com o tema e com a fluência da escrita. Tendo me impressionado com os livros anteriores, essa obra motivou-me a escrever algo, porque o rói-rói não me deixava quieto. Impressionava-me, sobretudo, o fato de ter conhecimento do pouco estudo escolar de Chico Xavier, que só fez até o antigo ensino primário. A obra em questão - Paulo e Estevão - trata dos primórdios do Cristianismo, mais precisamente da sua fundação e instituição, a partir do apostolado de Paulo, a verdadeira pedra da Igreja Cristã. Partindo do início da vida de Estevão, sua conversão ao Cristianismo ou à Igreja do Caminho, conforme era chamado o Cristianismo no seu início1, sua perseguição sistemática e inflexível por Saulo de Tarso, até chegar à conversão de Saulo, seu apostolado com as quatros viagens missionárias de Paulo, a ele designadas por Cristo - Galácia, Grécia, Ásia e Grécia, e Roma - e, enfim, sua morte em Roma.

Há quem possa alegar que a obra foi construída em cima dos Atos dos Apóstolos, o que é uma verdade. Porém isto não a desmerece, muito pelo contrário. Trata-se da utilização consciente ou não de um dos recursos mais antigos da literatura – a intertextualidade. Por outro lado, Paulo e Estevão não pode se resumir apenas a uma repetição dos Atos dos Apóstolos, como poderiam inferir leituras menos atentas, mas de uma recriação, como a boa literatura requer. Recriação dos primeiros momentos da vida de Estevão, da relação amorosa de Abigail com o ainda então Saulo, doutor da lei e importante fariseu do poderoso Sinédrio de Jerusalém, até chegar à morte de Paulo, em Roma, sob Nero, fato que o livro do Novo Testamento não retrata. Por outro lado, quem conhece bem os Atos dos Apóstolos sabe das várias viagens que Paulo fez e dos intrincados caminhos pelo oriente e pela Grécia, percorridos pelo Apóstolo judeu convertido em Damasco. Na narrativa de Paulo e Estevão, o personagem Paulo faz aquela viagem, o que seria a sua quinta missão evangelizadora, ao ocidente, evangelizando a Gália, atual França, e a Espanha. Tais fatos encontram-se apenas anunciados como propósitos na Epístola aos Romanos (15, 23-24), de autoria de Paulo. Mesmo para o estudioso do assunto, não é fácil ter em mente essa geografia. A fluência com que a narrativa corre demonstra um narrador muito à vontade em fazer e tecer tais percursos. Como explicar tais coisas? Como explicar que alguém pouco letrado tivesse a capacidade para escrever narrativas de linguagem apurada, com tramas em que a chamada verossimilhança interna me parece inquestionável e, além disso, com informações precisas que, de modo algum, parecem superficiais ou retiradas às pressas de algum manual? Francamente, não tenho como explicar. Alguém poderia explicar que o autodidatismo é um fato e que o livro poderia ser fruto de pesquisa, mas não acredito que essa explicação seja satisfatória, senão vejamos.

Aos que não sabem, Chico Xavier viveu 92 anos (1910-2002) e sua primeira obra, Parnaso de além-túmulo (1932), foi escrita em 1931. Ao longo dos 71 anos de atividade espírita, Chico Xavier psicografou 468 (sim, quatrocentos e sessenta e oito) livros e cerca de dez mil cartas. Considerando, portanto, o ano de 1931, o início de suas atividades de psicografia e o ano de 2002, quando morreu; considerando ainda que ele morreu ainda em atividade – do que eu não tenho certeza -, isso dá uma média de quase 7 livros por ano. Fazer pesquisa para um livro, para alguns livros é plenamente possível. Já não vejo como se pode fazer pesquisa para quase quinhentos livros, escritos a um ritmo de sete por ano. Quem escreve, quem produz sabe exatamente do que estou falando. Sei o quanto a questão é polêmica e está longe de ser resolvida, do ponto de vista da arte literária. Esclareça-se, ainda, que, em momento algum, as entidades, seja Emmanuel, seja André Luiz, expressam uma pretensão literária.

Diante desses fatos, a pergunta é incontornável: alguém já pensou em como se faz para escrever sete livros por ano, ao longo de setenta anos? Como possíveis respostas, só encontro o seguinte: ou Chico Xavier realmente psicografou tais obras ou ele era um escritor de uma prolificidade invejável. E, diga-se de passagem, melhor do que muitos que posam de escritor, no Brasil dos últimos tempos.
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1 Atos dos Apóstolos, 9, 2; 19, 9; 24, 14 e 22. Em Latim, o termo Caminho é traduzido ora como via, ora como secta, nesse caso epitetado como haeresis, doutrina. Como o Novo Testamento foi escrito em grego, o termo que lá se encontra é (o do/j, caminho, via, também existindo o epíteto ai(/r esij. Para a Bíblia em português, usamos a Bíblia de Estudo de Genebra. São Paulo e Barueri, Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do Brasil, 1999. Para a Bíblia em grego e latim, usamos o Novum Testamentum Graece et Latine, Stuttgart, 1928.


(Germano Romero) Quando o meu amado pai ficou subitamente sem poder andar, por causa de uma estenose lombar aguda, encontrávamo-nos em Tel-A...

A verdadeira vida


(Germano Romero)

Quando o meu amado pai ficou subitamente sem poder andar, por causa de uma estenose lombar aguda, encontrávamo-nos em Tel-Aviv, numa viagem que ainda tinha pela frente três dias em Londres. Com 89 anos, e mesmo novinho em folha, o imprevisto nos preocupou.

Após o diagnóstico recebido no hospital israelita, fomos tranquilizados pelos médicos daqui, por telefone, de que não havia gravidade nem urgência. Que poderíamos seguir viagem. Mesmo porque, sentado ou deitado, nenhum incômodo ele sentia. Só não conseguia andar. Que coisa.

Esquecidos os problemas, chutamos a bola para a frente e tomamos o avião para Londres, com uma breve escala em Zurique. Já instalados no hotel, com muita dificuldade com o nosso paraplégico, eis a questão: e agora? Três dias pela frente, sob um surpreendente céu azul e a capital da Europa a nossos pés. Pés? Nem pensar! Só se fossem rodas… Eureka! Eis a ideia, junto com a dúvida: será que ele topa?

Bem, conhecendo o cronista, amante da vida e da saúde, elegante e apreciador da elegância, era natural supor que ele não topasse andar de cadeira de rodas numa cidade que conhecia tão bem com a palma dos pés.

Arriscamos. Através das facilidades da internet, em minutos o mais apropriado e confortável veículo para a ocasião era entregue na recepção do St. James, da Pall Mall.

Agora, o suspense. Pois nada havíamos lhe dito sobre a iluminada ideia. Na expectativa de sua reação, batemos na porta de seu quarto, com a cadeira em punhos.

“Vamos passear?” – perguntamos, já adentrando e empurrando a bendita em sua direção. Ele estava sentado na lateral da cama, esfregando os olhos, como já se preparando para ver a novidade. Levantou a cabeça, olhou para a cadeira de rodas, e, imediatamente esboçando um largo sorriso, sapecou: “Só se for agora!”

Ora vejam só, e nós receando sobre a sua impressão diante da situação e do inesperado convite. Mas, logo entendemos que aquele era o Carlos Romero que conhecíamos, há 90 anos, tão bem vividos com alegria e bom humor.

Foram três dias inteiros na rua. Livrarias da Charing Cross, concerto no Royal Festival Hall, balé no Coliseum, pontes, parques... como é bom andar numa cidade inteiramente acessível, sem ao menos 2 centímetros de batente.

Não era surpresa que o bom humor do cronista estivesse sempre presente. Dava gosto vê-lo sorridente, cumprimentando as pessoas, completamente esquecido da estenose. Chegou a olhar para mim, o seu “motorista”, e disse: “Se eu soubesse que era tão bom, já teria alugado uma cadeirinha dessa antes”. E todos gargalhamos.

Numa das movimentadíssimas esquinas da Leicester Square, aguardávamos o sinal abrir para atravessar pela faixa de pedestres. Então ele percebeu, ao lado, um rapaz segurando o carrinho de seu bebê, também à espera do sinal. Cutucou-me, falando baixinho: “Diga-lhe que, no futuro, eles trocarão de lugar e ficarão como a gente”.

É, meu pai, como foi bom trocar de lugar com você, nesses últimos anos. Quantas vezes você dizia aos outros, carinhosamente, que, agora, eu é quem era seu pai… E como foi bom poder, na hora do banho, lhe dizer: “Feche os olhos que agora vou ensaboar seu rosto”… Que sensação inesquecível era passar minhas mãos por suas pálpebras macias, que, há poucos meses se abriram para definitivamente enxergar o caminho, a verdade e a verdadeira vida...


Eu subia. Na escada rolante. E ela, a alguns degraus à frente. Pareceu-me uma escultura andante. Lá estava ela. Uma mulher de costas. Com ...

A moça das costas nuas



Eu subia. Na escada rolante. E ela, a alguns degraus à frente. Pareceu-me uma escultura andante. Lá estava ela. Uma mulher de costas. Com um vestido estampado, pouco acima dos joelhos, sem mangas, mas o que tinha de comportado no comprimento, ultrapassava no decote das costas, profundo até a cintura. Suas costas brancas imaculadas. Com alguns sinais marrons, espalhados por aquela pele de porcelana. Juventude e beleza.

Era uma mulher jovem. Nos seus trinta anos. Não muito alta, mas usava uma sandália de salto grosso. O cabelo, castanho dourado, preso desarrumadamente. Sem brincos. E sem maquiagem. Um leve batom cor de boca. Olhando de costas, eu fiquei literalmente impressionada. Uma mulher como aquela, vestida assim às 3 da tarde, num shopping, chamava muita atenção. A minha!

Pensei que seria um vestido para a noite. Penumbras dos bares. Dancing. Drinks. Mas o que é a noite frente à luz do dia? Prazerosa e deliberadamente. Uma mulher elegante. Silenciosa. Em outra qualquer estaria vulgar. Nela? Sensual e assertiva. E quem há de saber os limites e as horas se não ela mesma?

Entramos juntas na loja de artigos de casa. Eu não conseguia tirar os olhos daquelas costas. E quando a olhei de frente? Um vestido que deixava seus seios à mostra dos lados. Seios belos e firmes que teimavam em sair pela super cava, um pouco mais decotada que o habitual. Só um corpo escultural daqueles permitia tamanho limite entre o (não) mostrar. E a moça perambulava por entre as louças, os potes, as tábuas de madeiras, as taças de acrílico, os conjuntos de cozinha. Já eu, nem mais sabia o que tinha ido procurar. Sim, uma tábua de pão para que os farelos não sujassem tanto a minha cozinha. Quão doméstica senti-me! Sem vestido. Sem decote! E com a minha pele já gasta pelo tempo....

Fiquei a pensar em mim. Quando mocinha. Magra, morena, com um corpo que caberia naquele vestido. Mas, ao invés, estava eu - ou com saias longas de hippie-chic, ou de shorts jeans e top, ou ainda com calças frouxas de alfaiataria e camisas largas.

Queríamos esconder o corpo. Chamar atenção para nossas ideias, outros charmes, e outros erotismos. Que também são afrodisíacos, sei. Mas nunca tive aquela feminilidade ditada pela cultura. Aquela, a da moça das costas nuas. E menos ainda aquele poder circunscrito pelo andar. Na época, já tinha meus parâmetros da rebeldia que contestavam as curvas, os apertos, e as mostras. Sonhava com os olhares das atrizes francesas.

Mas ao ver aquela moça tão camafeu, tão simples e tão sofisticada, tão desnuda, tão dona de si, do corpo, da sua beleza, do seu poder, e da sua autonomia, por entre pires e xícaras, fiquei a pensar nisso tudo. No poder da beleza! Sim! Aquela mesma!

Proclamada secularmente pela supremacia dos valores. Claro que, por agora, já não tenho mais esse rosto magro, nem peitos firmes, nem costas lisas. O tempo passa. Mas uma mulher assim, numa escada rolante, com um vestido desses, tem o poder de despertar um olhar devastador. Hoje não mais aquele olhar objetificado do gaze masculino. Confesso até que, por um instante tive, mas o olhar de outra mulher, que por aquele degrau, contemplou uma beleza, é bem verdade renascentista, mas mesclada com o contemporâneo, com a altivez das mulheres jovens e poderosas dos nossos tempos.

Por um piscar de olhos, eu quis aquele vestido. E não só... Acho que quis sim, ser aquela mulher subindo na escada rolante. E que despertasse um olhar. O meu!


Multiverso (Walter Galvão) A poucos dias de morrer no ano passado, o gênio britânico Stephen Hawking mais uma vez surpreendeu o mundo. O pro...

Dica de quem entende de cinema e arte


Multiverso
(Walter Galvão)

A poucos dias de morrer no ano passado, o gênio britânico Stephen Hawking mais uma vez surpreendeu o mundo. O professor lucasiano, astrofísico, cosmólogo e ícone transmidiático pop da superação, revisou um artigo sobre a existência dos universos paralelos.

Os fãs do Homem-Aranha vibraram. O que seria uma fantasia delirante embutida na animação “Homem-Aranha no Aranhaverso” conquistou inusitada potencialidade científica.

A mesma emoção atinge quem assiste à série do canal Netflix “Como seu eu não tivesse te conhecido”. A história é um misto de fábula sci-fi e drama romântico sobre perdas e o peso das decisões pessoais. Acontece em surpreendentes universos paralelos. Vai ao encontro do artigo por Hawking revisado antes de morrer.

O autor de “Uma breve história do tempo” na verdade revisou um texto disruptivo na perspectiva dos fundamentos da cosmologia que usamos para explicar, ou ao menos tentar explicar, para além da fantasia artística e das cosmogêneses mitológicas, como tudo surgiu, espaço, tempo, galáxias, estrelas, planetas, porque estamos aqui e como ficaremos no universo (?) em expansão.

Disruptivo por considerar adequada, melhor dizendo: considerar inevitável a demolição de quase tudo o que aprendemos e pensamos com a ciência da física, principalmente.

Há uma cosmogonia alternativa no artigo de Hawking. Nela, a noção de universo, de uma totalidade exclusiva que a tudo abarca e sustenta, é substituída por uma nova visão, a do multiverso, conjunto de universos, alguns muito parecidos com o nosso, outros com diferenças expressivas - dimensões alteradas, mentes e personalidades alternativas, mas com cópias reconhecíveis da gente por lá - todos originários do big bang.

Uma leitura interessante a esse respeito é propiciada por Brian Greene. Em “A realidade oculta” (Companhia das Letras), o cosmólogo norte-americano especula sobre a existência, no mínimo, de nove versões de universos paralelos matematicamente concebíveis. Ele parte dos fundamentos da teoria da relatividade, avança sobre a mecânica quântica e conduz o leitor com linguagem acessível e exemplos eficazes à fronteira das supercordas onde Stephen Hawking finca uma bandeira.

O caminho trilhado por Hawking foi desbravado por Einstein. A teoria da relatividade foi a chave por ele usada para abrir as portas da imaginação de cientistas, líderes espirituais, filósofos e artistas.

Pensamento analítico, mente especulativa, raciocínio lógico excitados pelas possibilidades inauguradas pela física e seus novos ramos, quântico, computacional, ondulatório…

Ramos geradores de teorias comprovadas como a da quarta dimensão, do entrelaçamento do espaço e do tempo, a do nível quântico em que a mesma partícula ocupa dois lugares ao mesmo tempo, os buracos negros, a matéria invisível, a matéria escura, a teoria do big bang…

Tais circunstâncias confirmaram antigas intuições, delírios proféticos conceituais e fantasmagorias teóricas que afirmavam a existência de uma realidade sob a realidade em que vivemos e também de outros mundos que escapariam aos parâmetros da matéria e das energias de que somos feitos e também ao nosso espaço-tempo.

A arte sempre esteve na vanguarda dessas especulações com suas antenas direcionadas para a latitude do impossível e a longitude do improvável. Ao declarar ser a arte uma coisa mental, Leonardo, de quem lembramos os 500 de morte no último maio, atraiu a ciência para a teia imaginativa capaz de transformar tempo e espaço. Não fosse uma projeção mental de Einstein - o postulado da constância da luz - formulada quando ele tinha apenas 16 anos e nós não estaríamos usando o GPS para encontrar a nova tapiocaria. A ciência como coisa mental.

Um craque em universos paralelos foi o poeta Fernando Pessoa. Seus heterônimos resultam de uma poderosa intuição de vivências em realidades alternativas, assim como ocorre no universo criativo diverso do genial Arthur Bispo do Rosário. A arte como coisa mental.

A série “Como seu eu não tivesse ...” especula sobre a teoria da decisão, mexe com o conceito de destino, discute as viagens no tempo, aborda livre arbítrio na perspectiva da ética, dialoga com a psicologia da personalidade, formula uma teoria do amor interdimensional, indaga sobre como trabalhamos o nosso passado e dá uma explicação dos universos paralelos.

O diretor espanhol Joan Noguera (os diálogos são em delicioso catalão, o elenco é ótimo) usa a teoria do buraco de minhoca combinada com a tese da realidade cósmica como tecido dobrado em espiral, camadas superpostas através das quais se poderia construir passagens. Provocativa e atualíssima, a série nos estimula a ter fé na ciência. Um show de imaginação.