O vazio dos espaços urbanos parece um contrassenso num país em que se ama passear e estar com os amigos. Olho para a minha rua e não vejo ni...

Notas sobre a pandemia



O vazio dos espaços urbanos parece um contrassenso num país em que se ama passear e estar com os amigos. Olho para a minha rua e não vejo ninguém. Ou melhor, um retardatário volta apressado para casa. Temerá um assalto ou a contaminação? (A dúvida procede, pois os marginais não recuam nem em tempos como estes; são vírus sociais, e para eles os governos até agora não foram capazes de encontrar vacina).

As luzes dos apartamentos sinalizam a prisão das pessoas lá dentro. O mais estranho é a ausência de buzinadas, que destoa da trilha sonora comum nas cidades. Todo esse silêncio nos leva a refletir, humildes, sobre a precariedade da nossa aventura no planeta. A pandemia não enterra apenas os mortos; enterra também os vivos. Só que estes últimos, cessado o flagelo, terão a possibilidade de renascer.



O coronavírus vem estimulando a veia humorística do brasileiro. Há quem veja nisso uma demonstração de insensibilidade ao sofrimento das vítimas e de seus parentes. Não é por aí. Ninguém faz humor na atual situação para subestimar a gravidade da doença ou menosprezar o sacrifício dos infectados. Faz motivado por comportamentos exóticos, às vezes ridículos, a que os indivíduos são levados por medo da infecção (há que ter espírito para suportar o longo confinamento em espaços apertados, como se vê agora). O humor é um espelho que retrata excessos, carências, deformações - comuns em situações de crise. O riso é uma resposta racional ao sofrimento. Constitui uma forma superior de resignação, e rejeitá-lo é deixar a porta aberta ao desespero.



Quem determina que não se deve sair de casa não são as autoridades médicas ou governamentais; é uma senhora ponderada, discreta e aliada da razão chamada Prudência. O preço que se paga por desprezá-la pode ser muito alto. Com não rara frequência, é a morte. Se evidências mostram que deixar a casa e participar de aglomerações levou em outros países a que se multiplicasse o número de mortos, fazer isso ou induzir outros a fazê-lo é de uma imprudência homicida. Os arautos da sensatez devem chamar os responsáveis por essa leviandade à razão. Todos estamos esperançosos de que esse “tsunâmi” passe logo, mas, como lembra Baltasar Gracián, a esperança é a grande falsificadora da verdade e deve ser corrigida com inteligência e... prudência!

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