A trajetória de estudante é algo inesquecível. Mais que as lições escritas pelos mestres nos quadros negros (ou lousas), ou ditadas para te...

As escolas da vida

clovis roberto ambiente de leitura carlos romero

A trajetória de estudante é algo inesquecível. Mais que as lições escritas pelos mestres nos quadros negros (ou lousas), ou ditadas para testar a habilidade auditiva e de concentração dos jovens, o ambiente escolar na infância/adolescência fica indelével na memória. Às vezes embaçado, outras com nitidez assustadora. Em todas, uma saborosa saudade.

A cada banco escolar, um lugar sagrado. Recordações, afagos atemporais, viagens no tempo, sons, cheiros, jeitos, quem éramos e ainda somos. Como diria Rousseau: "A juventude é a época de se estudar a sabedoria; a velhice é a época de a praticar".

Época das "Diretas Já!", foi na escola que achei no chão o panfleto convocatório com faixas verde e amarela para o comício da Lagoa com Tancredo Neves e companhia
E lá se vão bons anos quando o tímido garoto embarcava no mundo desconhecido do conhecimento. Externato Santa Dorotéia, Conjunto no Castelo Branco, João Pessoa. Farda tradicional, branco e vinho, camisa com bolso e iniciais do colégio. Uma breve passagem no colégio católico de freiras. E eis que desembaraço da caixinha craniana o pavão que desfilava sua beleza imponente e onipresente naquele lugar, as irmãs com seus hábitos em caminhadas pausadas pelo longo corredor na hora do recreio, e a compreensível e atenta professora, a irmã Assis.

Ah! Mudança de bairro, outra escola, novo mundo. Confesso que fui conquistado pela "bagunça" do intervalo da Escola Estadual Capitulina Sátyro, no Conjunto João Agripino. Era a sensação de liberdade na correria, mesmo "atropelado" por uma aluna de série mais avançada. Colisão tipo fusquinha e jamanta que me fez ir ao chão. Nocaute técnico e de vergonha. Sobrevivi para carimbar mais uma escola no currículo.

Desembarco na Escola Estadual José Vieira Diniz, no Expedicionários, quando o Espaço Cultural José Lins do Rego era um imenso, desculpem a repetição, um imenso espaço, só que vazio. Lugar dos primeiros platônicos amores, as brincadeiras de polícia/ladrão, a primeira ida para a diretoria justamente por conta das brincadeiras mais "violentas".

lyceu paraibano
Escola Olivina Olivia
Mas a vida escolar era rápida e logo um novo avanço. Agora a Escola Estadual Olivina Olívia Carneiro da Cunha. Primeiro, descobri que a disciplina que mais gostava até pouco tempo se transformara em um problemão que me perseguiria. E o pior, eu não conseguia resolver. Na minha cabecinha não deu certo a mistura matemática (números) com português (letras). O que era para ser uma passagem de quatro anos, virou seis. A conta não fechava, o resultado não batia. Calculei errado e fiquei no "vermelho" e bem vermelho de vergonha. Duas reprovações matematicamente contadas. E eu me perguntava: O que teria feito eu a Pitágoras?

Não reclamo. Digamos que, por linhas tortas (linhas de escritas, não retas matemáticas), foram dois anos ganhos. Época das "Diretas Já!", foi na escola que achei no chão o panfleto convocatório com faixas verde e amarela para o comício da Lagoa com Tancredo Neves e companhia. Adolescente ainda, fui testemunha daquela história. Era tempo de respirar liberdades.

E eis o Lyceu Paraibano. Sim, não discuto se a grafia está correta. Sempre preferi a escrita com "Y" e, sim, sei que na fachada do colégio o nome está grafado com "I". Não importa, é uma teimosia afetiva que me dou o direito. Lyceu de prédio exuberante e forte, paredes erguidas para resistir aos mais endiabrados alunos. Ah Lyceu Paraibano! Das passeatas, do vôlei, das conversas nos corredores, de novos amores e da primeira aula gazeada, eu confesso.

Cinco escolas, cinco histórias. Passei? Fui aprovado? Mesmo com a relação tempestuosa com os números, escorregadelas em outras áreas do saber, reservo-me uma nota suficiente para avançar. Nada do famoso "CDF", tampouco medíocre, diria eu, fui um aluno esforçado.

No vestibular, claro, tratei de fugir das ciências exatas e dos números. Entre vencer a timidez e encarar qualquer sopa de letras a enfrentar os números, apostei no primeiro desafio. O desembarque na Universidade Federal da Paraíba foi para cursar Comunicação Social, Habilitação em Jornalismo. Digamos que deu certo. Mas, como dizia o "Coração Selvagem" de Belchior, aí, "sim, já é outra viagem".


Clóvis Roberto é jornalista e cronista
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