Para o verdadeiro artista, criar é mais importante do que viver. Ele não hesita em trocar festas, viagens, amores, cargos públicos por uma ...

Criar e viver

Chico VIANA ambiente de leitura Carlos Romero

Para o verdadeiro artista, criar é mais importante do que viver. Ele não hesita em trocar festas, viagens, amores, cargos públicos por uma rotina que lhe permita se dedicar à sua arte. Aposta não no presente, mas no futuro. Prefere, ao agora, a posteridade.

Essa aposta não significa, contudo, uma garantia ou uma certeza da glória futura. Se vai “ficar” ou não – é para ele matéria de pouca importância. Nesse delicado e caprichoso terreno, quem sabe afinal quais serão os escolhidos? Como em grande parte das escolhas humanas, a imortalidade é uma roleta; e quem hoje vive consagrado pode amanhã desaparecer nas brumas do esquecimento.

Lembro-me de meu pai dizendo que no começo do século 20 as pessoas faziam fila para comprar o jornal e ler as crônicas de Humberto de Campos. Hoje ninguém o cita e quase nenhuma antologia o transcreve. Da sua obra, o que ficou (pelo menos até os meus tempos de ginásio) foi aquele texto sobre o cajueiro (lembram?).

Sempre visando à radical entrega à arte, razão maior da sua vida. Ela, e não o cristianismo, era a sua religião
O narrador fala de um pé de caju que plantou na infância e que teve de abandonar quando foi estudar em outra cidade. Ao ir embora, choroso, contemplava por sobre os muros das casas as folhinhas mais altas da árvore acenando-lhe como se estivessem dizendo adeus. Com imagens assim, de trivial melancolia, ele conquistava os leitores da época.

Deixamos de o ler, entre outras razões, porque os tempos mudaram; hoje a nossa sensibilidade talvez queira algo menos pueril. Mas o motivo não é apenas esse, tem a ver também com o estilo. Depois do Modernismo passamos a rejeitar os períodos longos, as frases “preciosas”, a linguagem pouco coloquial – algumas das marcas desse autor.

Poeta cruz e Sousa
Cruz e Sousa
O artista sabe que o tempo pode conspirar contra ele, mas não deixa de se dedicar ao seu ofício. Mesmo porque imagina que também existirão os elementos de uma conspiração a favor. Augusto dos Anjos, por exemplo, começou simbolista e parnasiano mas foi aos poucos “prosificando” a sua poesia. Trocou os vocábulos raros e sonoros que apareciam na lírica de um Cruz e Sousa e de um Bilac por uma mistura de termos coloquiais e científicos que na época soavam de mau gosto. Teria feito isso por intuir as diretrizes de uma estética futura ou apenas para seguir poetas como Baudelaire, Cesário Verde e Guerra Junqueira?

Talvez pelos dois motivos -- mas sempre visando à radical entrega à arte, razão maior da sua vida. Ela, e não o cristianismo, era a sua religião. Somente a arte, conforme diz em “Monólogo de uma Sombra”, “abranda as rochas rígidas, torna água/ todo o fogo telúrico profundo” e “reduz (...)/ à condição de uma planície alegre/ a aspereza orográfica do mundo”.

Ou seja: somente a criação artística é capaz de transformar o caos em ordem e de trazer um pouco de alegria ao mundo. E faz isso, basicamente, por “(esculpir) a humana mágoa”, ou seja, dar forma e sentido a um sofrimento atávico, que nos condena à dor da culpa e do qual só a Beleza pode nos redimir.


Chico Viana é doutor em teoria literária, professor e escritor
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  1. Beleza, Chico. Em 87 eu estava com um espetáculo em cartaz: "a bÁtalha de OL contra o gÍgante FERR" e, com meu elenco, fomos convidados a participar de um comercial de 30 segundos, para TV, de um novo restaurante, Dazibao. A propaganda no ar, encontrei-me, na Duque de Caxias, com o Ubiratan de Assis, que dirigira minha peça"Burgueses ou Meliantes?" Mal começamos a conversa, alguém me parabenizou pelo filmete.Dali a pouco, outro cumprimento. E outro, e outro. O Bira riu, cofiando a barba:"O que o Solha não conseguiu com 30 anos de literatura, conseguiu com 30 segundos de tv". Hilário, mas verdade. Imagine isso enormemente ampliado pela participação num filme de grande repercussão, como "O Som ao Redor".Ivo Barroso me ligou do Rio, rindo: "Eu tenho um amigo que saiu na primeira página do The New York Times!" Exagero, pois o que saíra fora uma foto do filme, sem citar seus figurantes,um deles,eu, "O Som" considerado um dos dez melhores do mundo, naquele ano. Bem. E sobre meus romances, poemas longos? Alguns prêmios, nunca uma reedição, nenhum convite para lançamento de novo livro e, com o tempo, nada, mais, de grandes editoras do sudeste, eu tendo de pagar por minhas pequenas edições sem distribuição, a não ser a minha, para amigos. Mas em 1990 deixei as montagens teatrais, em 2004, a pintura, em 2010, o cinema, ficando só com as letras. Compensa? Nem pensar. Por que, então? Porque, como você diz em outras palavras, o silêncio da escrita "me preenche mais".

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