“De certa forma, o trabalho de um crítico é fácil. Arriscamo-nos pouco; sim, gozamos com superioridade a posição sobre aqueles que nos subm...

Flautas e flores

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“De certa forma, o trabalho de um crítico é fácil. Arriscamo-nos pouco; sim, gozamos com superioridade a posição sobre aqueles que nos submetem seu trabalho e reputação”. Assim inicia Monsieur Anton Ego, pitoresco personagem crítico-gastronômico, seu esperado editorial sobre o restaurante Gusteau’s no filme de animação – bem mais interessante do que se imagina... – Ratatouille, lançado pela Pixar Animation Studios, em 2007. Estas palavras não me saem da lembrança, não só porque esse filme é carregado de arquétipos e lições subjacentes aos símbolos do ‘gosto’ (ou do “augusto gosto”, que dá nome ao chefe do restaurante), e do ‘ego’, representado pelo crítico, narrado na inconfundível voz do consagrado e saudoso Peter O'Toole (1932 — 2013); mas também, porque este final me afeta profunda e diretamente.

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Tentando sair do fácil, trago um pouco das impressões e referências do álbum Bach Rio, – disponível no Spotify – gravação independente feita pelo duo Latinos Clássicos, performado pelo violonista baiano Mateus Dela Fonte e pelo flautista paraibano Vítor Diniz. Uma das dificuldades a que me impus foi a de escrever sobre gravação de um amigo. Vítor e eu estudamos em curso de extensão pré-vestibular, quando nos conhecemos, e, desde então, mantemos essa amizade. Poderia contar de obra que já compus e a ele dediquei, ou da vez que tocamos juntos; mas, para me afastar do trabalho fácil, procurarei deixar esses momentos à parte, para me concentrar, até onde possível for, com a devida isenção a que o álbum merece.

É uma coletânea curta, dá gosto ouvir várias vezes; é perfeitamente indicada para esses tempos de ansiedades sociais. Os rapazes vão dos alemães Bach aos cariocas Villa-Lobos, Pixinguinha e Tom Jobim, sem deixar de lembrar de nomes como Marco Pereira, Dante Santoro, Paulo Bellinati e o ilustre itabaianense Severino Dias de Oliveira, nosso Sivuca.

A primeira faixa é o segundo movimento da obra de Johann Sebastian Bach, catalogada como BWV 1056, – Bach-Werke-Verzeichnis ("Catálogo de Obras de Bach", em alemão) – que é um concerto com versões para vários instrumentos, tanto cravo, como oboé e outras transcrições bem populares. Uma bela melodia, enternecedora, que nos toca até hoje, como na inspiração da letra de Flávio Venturini na canção Sob o céu de Santo Amaro.

Vítor imprime uma cor específica em cada peça, buscando aludir a estilos de períodos distintos e aproximar a flauta moderna desse ambiente barroco adaptado com o violão. Mateus tem um som requintado, limpo e a técnica apurada de ambos está a serviço das ideias musicais. Aliás, os arranjos e adaptações são deles próprios.

O outro Bach importante selecionado para o álbum é Carl Philipp Emanuel, filho de Johann Sebastian e de sua primeira esposa, Maria Barbara. Vítor preocupou-se em mostrar com leveza os ataques em staccato das escalas e arpejos da elaboração da Sonata Hamburguesa em Sol Maior, típica do internacionalismo style galant, que ganhou uma versão timbrística nova com o doce tocar de Mateus.

Saindo da terra dos Bach, onde se radicaram Vítor e Mateus, temos o primeiro movimento da quinta Bachiana Brasileira do velho Villa: a Cantilena, feita num timbre velado com vibrato mais doído e expressivo, nessa melancolia própria da brasilidade em Villa-Lobos. Senti falta, confesso, do segundo movimento, cuja texto, poesia de Ruth Valadares Corrêa, leva-me justamente a perguntar: cadê a flauta de irerê?...

E, em diante, ouvimos as flores bem brasileiras do ramalhete musical agradável, distribuído neste álbum. Lis de Marco Pereira é canção sem palavras que nos entusiasma. Há lirismo, um lírio violonístico que acompanha os arroubos da flauta leve e solta no ar. E, na roseira de Tom Jobim, a chuva foi mais contida, pingos cheios, caindo mais lentos, um intimismo que surpreende pela escolha da flauta grave, chamando a atenção para o contraponto ao violão. Já na Rosa de Pixinguinha, Vítor mostra sua desenvoltura tranquila e fluida do cancioneiro a que tanto se dedica.

O álbum termina com três peças em ponto alto da interpretação. Harmonia Selvagem de Dante Santoro é cheia de firulas e citações de trechinhos de outras obras como o Vôo do besouro, além de efeitos flautísticos, como o frulato gutural (efeito característico, uma espécie de “chacoalho” da nota, pela vibração da língua ou garganta) num tipo de chorinho cheio de ginga. Baião de Gude, de Paulo Bellinati é, como o nome indica, peça que remete ao ritmo nordestino, numa roupagem bem atual, com rítmica intrincada em sessão principal e reflexões contrastantes mais lentas, bem ao sabor paulista contemporâneo. E, ao fim, de Sivuca e Oswaldinho, Um Tom para Jobim, uma flor de formosura sonora, de intertextualidade bem comum na obra de Sivuca, de homenagem, e de interpretação. Peça delicada e gingada, de energia rítmica bem tocada: dose que foi bem administrada entre violão e flauta, fazendo-nos querer mais!

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Espero não ter derramado tantas flores aos rapazes, senão realçado as que eles mesmos já nos distribuem nesse álbum. E espero também que aqueles que recebam esse buquê possam deliciar-se de música que deveria ser amplamente difundida, sobretudo em meio brasileiro: nosso imenso jardim nacional ainda precisa conhecer e reconhecer suas mais cheirosas e belas flores.


Sam Cavalcanti é mestre em música, crítico e escritor
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  1. Mateus (desde sempre! )e Vitor conhecem de longe a minha admiração pelo talento e trabalho deles . Portanto, vou me permitir agora fazer a minha reverência a este texto. Músicas e textos parecem compor uma mesma obra. As flores perfumam as peças musicais deixando um rastro de perfume raro. Parabéns aos três.

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    1. Pois é, mesmo sem conhecer Mateus pessoalmente, eu, ele e Vítor, que parecemos muito fisicamente, já podemos ser chamamos de irmãos na fé musical!

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